Estrada Nacional 2 – de cima a baixo (3)

Etapa 2 – De Viseu a Abrantes

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Manhã cedo e com tempo agradável, fizemo-nos à estrada pois o pequeno almoço estava combinado para Viseu (pernoitámos perto de Alcafache) e o menú incluía um dos ex-libris da terra: os Viriatos da Confeitaria Amaral!

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Depois do pitéu (do qual me exclui voluntariamente devido a alguma incompatibilidade com coco) e com as motas recentemente atestadas, voltámos ao nosso caminho. O dia antecipava-se complicado com a previsão de algumas armadilhas no percurso. Mas nunca pensámos que a primeira seria logo na Capital das Rotundas. Efectivamente, graças a algum complô estranho, todas as indicações que íamos vendo nas placas apontavam sempre para alguma auto-estrada ou IP. Da EN2…nem vê-la! Fomos seguindo o rumo Lisboa/Coimbra esperando que o mesmo nalgum momento pudessemos vislumbrar a desejada EN2. Assim foi! Várias rotundas depois…uma placa indicava EN2 – Fail. Aleluia! A partir daqui seguimos em direcção aquela localidade e depois a Tondela.

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Aqui, também outra chamada de atenção: a original EN2, como se fazia na época da sua construção passava pelo centro das localidades. Hoje, se a seguirmos iremos percorrer as variantes criadas precisamente para retirar o trânsito desse mesmo centro. No caso de Tondela, corrigimos e fomos até ao centro.

O próximo ponto de referência era Santa Comba Dão. E era o início da zona mais complexa para conseguirmos fazer a EN2. De facto, parte dela ficou submersa pela albufeira da Barragem da Agueira (onde passaríamos) e outra parte foi sobreposta pelo IP3. Muito trabalho na fase de preparação, com a leitura de bastantes testemunhos que conseguímos obter, com pesquisa detalhada via Google Earth/Google Maps, resultaram num roadbook específico para o trajecto entre Santa Coma e Penacova. Demorou mais a preparação do que o tempo que demorámos a percorrer. Mas valeu a pena. Se valeu!

O ponto de partida para este troço era este painel de azulejos à entrada de Santa Comba, Depois seria contar rotundas, cruzamentos, distâncias percorridas, etc.

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Atravessada Santa Comba, utilizámos a ponte do IP3 para atravessar o Rio Dão e de imediato saímos para o Vimieiro (terra de Salazar…).

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Aqui, os nossos caminhos cruzaram-se com os de Nacho, personagem curioso, cidadão espanhol (e do mundo, diria eu) que no seu artefacto remotamente parecido com o cruzamento de uma Harley com uma bicicleta, tinha já feito os Caminhos de Santiago (do País Basco), estava a fazer a EN2 até Faro, depois iria rumar a norte pela Ruta de la Plata e novamente os Caminhos em sentido inverso. 4 meses e 3 mil quilómetros. É obra!

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Depois seguimos por estrada paralela ao IP3 até um cruzamento onde momentaneamente deixaríamos o nosso caminho. Virámos à esquerda e fomos dar ao ponto onde a EN2 original ficou submersa. Ponto verdadeiramente simbólico!

Foi também aqui que registei a única foto sobre os efeitos da tragédia dos incêndios de 2017. Mais à frente já não fui capaz, tal a desolação.

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Voltámos ao cruzamento anterior e um pouco mais à frente voltámos a entrar e sair de imediato do IP3, novamente para passarmos de margem. Seguimos por estrada junto à albufeira da barragem até ao paredão da mesma, onde parámos.

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Do outro lado, a estrada que iríamos seguir em direcção a Penacova. A albufeira vista deste ponto é uma imagem a recordar (apesar da desolação das margens…):

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Daqui passámos por Oliveira do Mondego, Porto da Raiva (muito bonita esta aldeia mesmo junto ao rio) e finalmente a Livraria do Mondego – curiosa formação geológica que com alguma dose de imaginação poderemos comparar com os livros de uma estante.

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E assim chegámos a Penacova. O objectivo era almoçarmos (já a manhã ía muito comprida e o calor também já tinha provocado algum desgaste) e seguirmos pois ainda havia muita estrada pela frente. Mas ficou a curiosidade de num futuro próximo, merecer uma visita mais atenta.

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Uma referência gastronómica: O Cortiço! Arroz de lampreia, ensopado de enguias, secretos de porco. Tudo excelente! Foi um repasto de luxo.

Saídos de Penacova, retomámos a EN2, agora num percurso mais para o interior e que nos iria levar a atravessar uma das regiões mais devassadas pelos incêndios de 2017. Aquela que deveria ter sido (e voltará a ser, estou certo) uma paisagem deslumbrante era uma desolação completa.

Passámos Vila Nova de Poiares e um pouco mais à frente, uma paragem em Olho Marinho. Queríamos visitar uma olaria de barro negro mas não foi fácil. Acabámos por entrar num quintal, atraídos por uma placa de “artesanato” … afinal era uma artesão que fabricava…mós! Mas vimos as mós e recebemos as indicações para chegar à olaria.

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Fomos muitissimo bem recebidos, e o que se previa uma visita breve…prolongou-se por mais de uma hora. Foi-nos explicado o processo de fabricação das peças de barro preto (as peças ficam pretas por efeitos da cozedura, não porque o barro tenha essa cor…), comprámos algumas lembranças e depois…a caminho!

Seguiu-se Góis, onde fizemos uma visita ao Motoclube local…que estava fechado. Ficou o simbolismo…

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Saímos de Góis, e se até aqui a estrada tinha sido bem agradável com uma boa dose de curvas para animar o pessoal, então a seguir a Góis tivemos mais um festim de curvas e contra curvas com a travessia desta parte da serra da Lousã, que curiosamente (e ainda bem!) apresentava arboredo frondoso para contrastar com o que tínhamos visto antes e ainda iríamos ver depois. Foi também aqui que apanhámos uma pequena chuvada que soube muito bem: o calor tinha raiado o insuportável durante grande parte do dia! Para quem vinha à espera de apanhar umas boas chuvadas, não estava nada mal…

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Mais um exemplo da arqueologia rodoviário que fomos encontrando ao longo do caminho e que merecia melhor atenção de quem de direito:

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Ainda não era o meio da viagem mas estava quase…

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Antes de chegarmos a Pedrogão Grande ainda tínhamos de passar em dois locais emblemáticos da EN2 e da toponímia portuguesa:

Depois de ligeira hesitação na entrada, atravessámos Pedrogão Grande e seguimos caminho. A tarde já ia adiantada em ainda nos faltavam quase 100 quilómetros…

Passámos a Barragem do Cabril (mais uma das muitas com que nos cruzámos) e seguiu-se a Sertã, onde iríamos viver um dos episódios mais caricatos da viagem. Importa explicar que soubemos depois, a actual EN2 é uma boa estrada, recente que une a Sertã a Vila de Rei, passando ao lado do Picoito da Melriça, mas não corresponde ao traçado original…. Pois bem, parámos num semáforo quase à saída da Sertã e entretanto um dos nossos companheiros foi interpelado por um condutor que parou ou lado e simpaticamente o esclareceu que a EN2 não era por onde pretendíamos ir (pelos piscas percebeu qual o caminho que íamos tomar) mas sim pela antiga estrada. Enquanto dava estas explicações, nós que não nos tínhamos apercebido, arrancámos e como a estrada fluia larga, em bom piso com curvas encadeadas só cerca de 10 quilómetros adiante verificámos que faltava um! Esperámos…e nada. Preocupados, ligámos…nada! Voltámos para trás, já apreensivos, até que finalmente conseguimos contactar. No afã de nos apanhar, enganou-se e seguiu não para Vila de Rei…mas para Proença a Nova! Ou seja, alguns quilómetros, bastantes…. a mais!. Enquanto o elemento perdido retomava o o caminho certo, fomos andando até ao Picoito da Melriça, onde esperávamos fosse o reencontro. Cabe dizer que neste momento, já o sol se punha e ainda nos faltavam bastantes quilómetros para o jantar onde amigos que nos iriam acolher nessa noite, nos esperavam (mais ou menos por essa mesma hora!). Um telefonema com as desculpas dos atrasados, fotografámos o Centro Geodésico de Portugal e o nosso companheiro não aparecia…

A vista a 360º é verdadeiramente deslumbrante!!!

Descemos ao cruzamento na EN2 e esperámos. Mas como a hora ia adiantada e não queríamos preocupar os nossos anfitriões, resolvemos que eu seguiria já e entretanto o outro companheiro, o Jaime, esperaria pelo Zé, o desaparecido!

Fiz-me ao caminho pois tinha pela frente cerca de 60 quilómetros, passei em andamento rápido por Vila de Rei, não me apercebi do ponto central da EN2, segui no Sardoal em direcção a Alferrarede e Abrantes. Passei o Rio Tejo para a margem esquerda, no Rossio ao Sul do Tejo e depois dirigi-me a casa dos nossos amigos e anfitriões onde já nos esperavam com outros dois amigos, para um lauto repasto que seria aproveitado para um proveitoso debate sobre como podem estas zonas do interior do País potenciar a existência de fenómenos como por exemplo, a EN2 e a procura que actualmente tem (e virá a ter), baseados também na nossa experiência vivida nesse preciso momento.

Convém referir que não demos inicio “aos trabalhos na ordem do dia” sem que antes os elementos restantes do grupo chegassem. E ainda esperámos 1 hora. (aqui para nós…ele disse que estava em Proença..mas desconfiamos que estaria já perto de Espanha…).

Fica o registo dos convivas e o profundo agradecimento à Ana e ao Zé Rafael pelo espectacular acolhimento que nos proporcionaram. E também o prazer de conhecer a Sónia e o António josé. Memorável, sem dúvida!

E que bem soube o descanso nessa noite, num lugar (quase) longe de tudo, onde os únicos ruídos eram mesmo os da natureza!

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Assim chegámos ao final da etapa mais dura desta viagem. O calor e os muitos quilómetros, as hesitações no caminho fruto da muito deficiente sinalização, que na zona centro é bem pior do que a que encontrámos na 1ª etapa ou do que iríamos encontrar no Alentejo e Algarve e das próprias “aventuras” da jornada, justificaram uma noite de sono profundo…onde apenas se ouviam os roncos das nossas potentes motas nos sonhos que povoaram os nossos espíritos!

Continua (…)

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Um pensamento em “Estrada Nacional 2 – de cima a baixo (3)”

  1. Está viagem foi sem dúvida um marco inesquecível na minha já longa vida de motociclista. A N2 é encantadora. As paisagens são deslumbrantes e sempre diferentes, tal como as pessoas. É uma estrada que encerra muita história mas infelizmente cada vez menos vida. Pode e deve ser vista como um barómetro da Nação. Nesta viagem não sobrou muito tempo para o contacto com as gentes. Mas o que houve foi altamente recompensador. E a camaradagem entre os participantes foi excelente. Por todos estes sentimentos sobejam razões e motivação para a voltar a fazer! Obrigado Zé e Henrique por aceitarem este desafio conjunto. Quando voltamos à nossa querida N2?

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