EN 118 – do Montijo a Alpalhão

De povoação em povoação a caminho do destino final

A EN118 é uma estrada que antigamente, muito antes da era pré-auto estradas, era utilizada na sua íntegra ou em parte, por quase todos os que se deslocavam do litoral para a Beira Baixa (Castelo Branco e Serra da Estrela) ou para o Alto Alentejo (distrito de Portalegre principalmente). Segue paralela à margem sul do Rio Tejo e tinha a sua correspondente na EN3, hoje completamente retalhada, que unia Castelo Branco a Alcanena (sendo esta muito mais complicada pois aqui o terreno é muito mais sobe e desce…). Já a EN118 tem o seu traçado praticamente intacto.

A estrada nacional 118 preserva quase na íntegra o espírito das estradas do “antigamente”. Unindo pacientemente uma terra a outra, numa linha quebrada que vai desde Passil, junto ao Montijo, até à vila norte alentejana de Alpalhão. É aqui que começa… EN118_1

…e este é o primeiro marco que encontrei (mas que curiosamente será o 5º km):En118_2

Daqui, a caminho do Porto Alto e uma constatação que se confirmou ao longo da totalidade da estrada: está excelentemente sinalizada, sabemos sempre em que estrada estamos, a esmagadora maioria dos marcos estão no seu sítio e inclusivamente, nas aproximações a cruzamentos com outras estradas principais, as mesmas estão bem identificadas (a comparação com o que se verifica na EN2 é abissal!).

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No Porto Alto, uma homenagem aos homens e às tradições ribatejanas (que se repetiriam em diversas formas em Samora Correia, Benavente e por aí fora…):

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Fomos avançando, numa estrada com imenso trânsito (ou não fora esta uma via que atravessa o coração de uma zona rica do ponto de vista industrial e agrícola). Mesmo assim, há terras em que nos sentimos em casa…vá-se lá saber por quê!!!

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Em Alpiarça, uma terra onde a tradição do ciclismo reina, a justa homenagem aos heróis do pedal:

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Na Carregueira uma homenagem (curiosa) com significado:

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E assim cheguei à Chamusca. A primeira metade da viagem estava feita. Diga-se que pouco interessante do ponto de vista paisagístico e ainda mais desinteressante no que se refere à condução. Rectas e mais rectas, entremeadas com uma ou outra curva rápida, mas sobretudo com muito trânsito em ambos os sentidos, a obrigar a médias na casa dos 60km/h.

Mas a partir daqui, as coisas iam mudar um pouco. E o primeiro momento alto do dia deu-se com a chegada ao miradouro para o Castelo de Almourol. Espectacular!

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Pouco depois, o 118 da 118!

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E aproximava-me do Tramagal. À esquerda a beleza das curvas do Rio Tejo e em frente a parte mais divertida de toda a viagem: antes mas principalmente depois do Tramagal, as suas famosas curvas.

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Mas ainda antes de começarem as curvas e contra curvas, um ex-libris da região (e local de memórias boas ou más, conforme o caso, de muito boa gente que “andou na tropa”…):

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Uma foto com duas armas de combate…mas só uma no activo!!!!

A aproximação a Abrantes trazia também a satisfação de rever os amigos Ana e Zé Rafael que mais uma vez, foram anfitriões de excelência (e o caril estava soberbo!!!).

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Abrantes na outra margem. Nesta, Rossio ao Sul do Tejo, ponto de confluência onde se cruzam duas estradas que atravessam Portugal: a EN2 de norte a sul e a EN118 de poente para nascente. É aqui (um cruzamento desta importância merecia melhor tratamento…se calhar uma rotunda com dignidade e evitar o Fernando Mendes que não é para aqui chamado!):

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A primeira parte da viagem estava concluída!

……

Almoço despachado, conversa posta em dia, era tempo de regressar à estrada. ainda faltavam cerca de 60 km e a tarde ainda mal tinha começado. Havia muito tempo para aproveitar.

Pouco depois, uma dúvida nos assaltou…seria Springfield? Estaria Homer Simpson aos comandos da Central? Pelo sim pelo não…o melhor era dar de frosques…

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E assim se chega a Alvega. Terra com uma história curiosa…

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Recordam-se da série Major Alvega que deu há alguns anos na TV? E que era a adaptação das histórias de banda desenhada com o mesmo herói?

Pois bem…a inspiração para o nome veio desta localidade ribatejana segundo contou certa vez o conhecido meteorologista Anthímio de Azevedo, que era na sua juventude o tradutor dos originais ingleses, para a revista “O Falcão” que fazia as delicias dos adolescentes dos anos 60 e 70. A história conta-se breve:

Major Alvega é uma personagem fictícia, ás da aviação anglo-portuguesa da RAF (Royal Air Force, a Força Aérea britânica), e herói da série de banda desenhada que fez grande furor nas décadas de 1960 e 1970 em Portugal, aparecendo recorrentemente nas páginas de pequeno formato da revista juvenil “O Falcão”. No título original em inglês chamava-se “Battler Britton – England’s Fighting Ace of Land, Sea and Air” e foi criado em 1956 para a revista britânica Sun, por Mike Butterworth (argumento) e Geoff Campion (desenho) e chegou a ser desenhado por vários desenhistas de renome tais como, Hugo Pratt, José Ortiz, Dino Battaglia ou Luigi (Gino) D’Antonio para a editora Fleetway. Foi protagonista das mais variadas aventuras, todas caracterizadas por muita acção, suspense e um toque de humor, nas quais defrontou (e venceu) alguns dos mais importantes intervenientes da Segunda Guerra Mundial: Rommel, Goering, Hitler e Mussolini.

No entanto, numa época em que a censura (ao serviço de um Estado Novo fervorosamente nacionalista) obrigava todos os heróis do género a figurarem nomes portugueses (e por consequência alguma forma de ascendência lusa), o protagonista seria rebaptizado por Mário do Rosário, director da revista “O Falcão”, e por Anthímio de Azevedo, o tradutor, para Jaime Eduardo de Cook e Alvega, um ribatejano por via paterna e inglês por via materna, que teria estudado em Coimbra, tendo também sido alterada a sua patente de tenente-coronel para Major.

De Alvega ao Gavião é um pulinho. E do Gavião até à praia fluvial do Alamal é outro. Merece o desvio!

A estrada desce íngreme na aproximação à praia. Do outro lado do rio, Belver com o seu majestoso castelo bem destacado na paisagem com o casario da vila em segundo plano

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Regresso pelo mesmo caminho e uma volta pelo centro do Gavião. Feitos todos estes quilómetros, é a primeira vez que o traçado original não corresponde ao actual, pois a construção da variante a sul da vila retira-lhe o tráfego do interior.

Mais à frente, a chegar a Tolosa, encontraríamos o mesmo cenário mas aqui com a curiosidade de estrada antiga e estrada nova correrem por momentos em paralelo.

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Segui pela estrada antiga, atravessando Tolosa e Gáfete e, à saída desta os caminhos unem-se novamente até à chegada a Alpalhão, destino final e onde uma outra variante nos obriga a entrar na vila por sitio diferente do original.

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Mas o marco final da estrada ainda está no seu sítio:En118_25

A viagem estava concluída. Quase 200km de Estrada Nacional 118. Que une, ponto a ponto, os arredores de Lisboa até relativamente perto da fronteira com Espanha. Este troço final, de cerca de 20 km coincide com o IP2 que intermitentemente vai percorrendo o país de norte a sul.

Em registo de conclusão dizer que esta estrada não figurará num ranking das melhores. a envolvente paisagística tem algumas partes muito bonitas mas também muitas desinteressantes. Sob o ponto de vista de condução, o piso é geralmente bom e a sinalização muito boa para o padrão das nossas ENs, mas a estrada tem na maioria da sua extensão pouco interesse. Salva-se principalmente a zona do Tramagal e o resto é demasiado a direito. Acresce que até Alpiarça a estrada é bastante movimentada.

Então porque fazê-la? Vale a pena, se for utilizada como aproximação a zonas de maior interesse turístico, como sejam a região da Serra de S. Mamede – Portalegre, Castelo de Vide e Marvão – ou uma deslocação até à raia espanhola (Badajoz, Alcântara ou, um pouco mais longe, Cáceres) ou ainda, como uma primeira etapa para uma ida até Castelo Branco ou à Serra da Estrela…que é o que vai acontecer amanhã!

A alternativa? Voltar pelo mesmo caminho:

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BOAS CURVAS!

 

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