Serra da Estrela…e algo mais (2)

Já na Serra – sobe e desce pelo lado oriental

Em Belmonte fechámos o baú das memórias.

Montada e cavaleiro reabastecidos, era tempo de por o pé na estrada que a segunda metade deste dia antevia-se longa, desafiante e cansativa. O objectivo para o final do dia era desfrutar do pôr-do-sol no ponto mais alto de Portugal continental: a Torre.

Assim, pela EN18 já habitual, dirigimo-nos para a Covilhã com o fito de subir até às Penhas da Saúde. Constatámos algo que pudemos confirmar no dia seguinte: a sinalização na Covilhã é sofrível. Algo confusa (a configuração da cidade não ajuda, é certo) e com sinais que aparentemente fogem ao que é normal e em nada ajudam, pelo contrário. Apesar de haver regras para a sinalização rodoviária, parece que sempre existem uns criativos que julgam ser capazes de fazer melhor…Fica feita a nota e assim escusamos de a repetir mais à frente.

A partir do Largo do Municipio, começa-se desde logo a subir e de forma pronunciada pela EN339. Passamos o Parque de Merendas, o Parque de Campismo do Pião e chegamos à Varanda dos Carqueijais.

Miradouro em local privilegiado com uma vista magnífica para a Covilhã logo abaixo e para toda a Cova da Beira com a Gardunha em fundo.

Varanda dos Carqueijais - Vista panorâmica

Prosseguimos a subida e passamos pelo antigo Sanatório dos Ferroviários, majestoso edifício que tendo sido no antigamente uma unidade hospitalar, esteve abandonado durante décadas e recentemente foi restaurado de forma brilhante, seguindo a traça original e mantendo-a também no interior, numa Pousada (Grupo Pestana) com muito requinte. O edifício e os jardins fronteiros merecem uma visita, até porque a vista é também espectacular.

Sanatório dos Ferroviários - Pousada Pestana

Continuando a subir, passamos por mais uma unidade hoteleira já tradicional – a Pousada da Serra da Estrela – e mais um pouco, já a 1600m de altitude chegamos às Penhas da Saúde.

Era tempo de breve paragem. Efectuar o registo, alijar carga desnecessária para o passeio, verificar as instalações, na Pousada da Juventude. Uma estreia que se revelou insuperável na relação qualidade/preço. De facto, se o objectivo for a economia, sem luxos e com o conforto estritamente necessário para quem se propõe jornadas algo cansativas, não há dúvida que é uma solução convincente. Acresce a extraordinária simpatia do pessoal, o ambiente informal a convidar ao convívio, os pequenos requisitos hoje habituais como sejam o wi-fi gratuito em todo o edificio e com boa performance. Na manhã seguinte, o pequeno almoço também muito agradável, com tudo o que é habitual numa unidade hoteleira. Excelente!

Pousada da Juventude - Serra da Estrela

Tudo tratado, seguimos viagem. Até aos Piornos, onde depois da foto da praxe para a Nave de santo antónio, virámos à direita em direcção a Manteigas pela EN338. Começava verdadeiramente a parte espectacular da viagem.

Nave de Santo António e Cântaros

O sinal para “Teste de travões” não enganava. A descida seria pronunciada. Íamos a caminho da primeira paragem, num sítio que é para mim obrigatório: o Covão da Ametade. Aqui nasce o Rio Zêzere que depois ganha força a descer o vale glaciar até Manteigas seguindo depois o seu percurso, contornando a Serra a nascente e depois, pelo lado sul na Cova da Beira até, muito mais tarde e mais longe, vir desaguar no Rio Tejo em Constância depois de encher a albufeira de Castelo do Bode.

O Covão da Ametade, situado mesmo por baixo dos três picos a que alguém chamou Cântaros – o Raso, o Gordo e o Magro – dois deles acima dos 1900m – é um local frondoso, com um parque de merendas.

Lindíssimo, não fora o facto de estar ao abandono… culpa das entidades oficiais que dele não cuidam, dizem uns, culpa dos utilizadores que o degradam e mal estimam, dizem outros. Uma pena!

Foi aqui também que tive o privilégio de encontrar e trocar algumas palavras com um simpatiquíssimo pastor serrano que cuidava do seu rebanho de cabras – o início da fileira do saboroso queijo da serra! Conhecedor profundo e muito orgulhoso da sua Serra da Estrela, numa profissão que se calhar caminha para o desaparecimento pois duvido que haja pretendentes a calcorrear os caminhos abruptos e perigosos da Serra.

À minha frente vislumbrava-se agora um dos cenários mais monumentais de Portugal: o vale glaciar de Manteigas. O antigo glaciar há muito desaparecido cavou este vale profundo por onde corre o (ainda) pequeno Zêzere a caminho, bem lá ao fundo, de Manteigas.

Vale Glaciar Zêzere

A estrada corre quase (um quase muito relativo!) rectilínea sempre a descer pela encosta sul do vale. Estrada estreita, bom piso, a convidar a algum empenho na condução…mas cuidado, que a aparente visibilidade para as curvas seguintes não iluda: a estrada não tem escapatórias!

Vale Glaciar - descida para Manteigas

Vale Glaciar - Manteigas

Entrámos em Manteigas, vila serrana conhecida pelos seus têxteis, pelo Queijo da Serra e também pelos seus viveiros de trutas. Um pouco antes, o desvio para o Poço do Inferno. Local que merece obviamente uma visita pela beleza da sua cascata. Optei por não fazer o desvio: no final do Verão, terá um caudal mínimo que lhe retira espectacularidade e também a estrada recomenda cuidados acrescidos – estreita e mau piso. Estivémos lá recentemente pelo que desta feita passámos… mas a recomendação fica: merece a visita!

Em Manteigas seguimos em direcção às Penhas Douradas (sugerimos a ajuda do GPS porque as placas de sinalização apontam para uma estrada que não é aquela que pretendemos, pois embora seja até mais curta, não tem a espectacularidade da EN232 que iríamos seguir). O que nos aguardava à saída de Manteigas era isto:

A meio da subida tínhamos agora uma perspectiva diferente do vale glaciar, com Manteigas no sopé e bem lá ao fundo, os Cântaros majestosos a contemplarem-nos.

A subida continuava, íngreme e sinuosa, sempre em regime de curva e contra curva. Um espectáculo!!! À nossa volta, arvoredo e vegetação frondosa a contrastar com a aridez que tínhamos presenciado anteriormente nas Penhas da Saúde e na descida para Manteigas.

Vale Glaciar do Zêzere e Manteigas

Cerca de 20km de de diversão depois, chegamos ao planalto onde se situam as Penhas Douradas. A altitude estava mais uma vez acima dos 1800m e voltava a paisagem agreste e rude. Quando conseguímos vislumbrar um pouco mais, desta vez para Norte, era uma nova realidade: uma planície a perder de vista no sentido de Gouveia ou um pouco mais longe, Celorico da Beira. A Beira Alta estava à frente dos olhos!

Virámos à esquerda para o Vale de Rossim.

Logo a seguir uma construção curiosa: a Casa da Fraga:

“A Casa da Fraga foi construída no meio de nenhures, num ermo da Serra da Estrela, lugar que hoje tratamos por Penhas Douradas. Parece estranho mas não é: muito provavelmente, as Penhas Douradas, lá do alto dos seus 1500 metros, não seriam nada não fosse a Casa da Fraga existir. Ou pelo menos não seriam aquilo que são agora.

Tudo começou com uma expedição organizada pela Sociedade de Geografia de Lisboa à Serra da Estrela. O objectivo era nobre: fundar sanatórios que, como já era feito noutros países, como por exemplo a Suíça, pudessem curar doenças de foro pulmonar.

Daí se concluiu haver condições climatéricas, na encosta norte da serra, antes de chegarmos ao seu topo, para um tratamento bem sucedido às patologias.

Sousa Martins, crente nos estudos optimistas que vários cientistas davam aos ares da Serra da Estrela, enviou para lá um dos seus doentes, Alfredo César Henriques, que sofria de tísica pulmonar, que construiu uma casa lindíssima camuflada na paisagem natural que a envolvia.

Ali permaneceu dois anos e as visíveis melhorias no seu estado de saúde deram alento a outra gente, também com problemas nos pulmões, que lá foi procurar casa. E assim, de uma boa notícia, se fez aquele pedacinho encantado que hoje conhecemos como Penhas Douradas.”

in ncultura.pt/serra-da-estrela-a-incrivel-casa-da-fraga/

No Vale do Rossim exite um eco-resort que usufrui de uma pequena barragem que tem o espelho de água a maior altitude na Serra da Estrela. Paisagem agreste mas de profunda beleza.

A tarde ía já a mais de meio e ainda havia caminho a percorrer. Retomámos a EN 232 um pouco mais à frente e cumpre salientar que este desvio que tomámos para o Vale do Rossim está num estado lamentável!

Pela primeira vez ia também ver um cenário que aqui e ali passaria a ser uma constante no resto da viagem: a desolação provocada pelos incêndios de há um ano! Uma tristeza sem fim…

Descida para o Sabugueiro

A estrada que, saindo da EN232 que segue para Seia e Gouveia, vai directamente para o Sabugueiro, o nosso destino e a aldeia a maior altitude em Portugal, é algo perigosa: estreita, piso bastante deficiente e com pouca protecção… A fazer com bastante prudência.

A caminho do Sabugueiro

Sabugueiro: aldeia transformada num centro comercial de produtos serranos, para lá dos queijos é também aqui que é possível encontrar à venda os lindos cachorros da raça típica da Serra e que lhe levam o nome!

Muito terão sofrido estas gentes com os incêndios! Tudo à volta da povoação está queimado…

Vista do Sabugueiro

No Sabugueiro tomamos a EN339, que de Seia se dirige à Torre, e que seria a nossa via até ao objectivo final. Começamos novamente a subir, umas vezes de forma mais pronunciada outras menos, até chegarmos à Lagoa Comprida, passando pelo caminho por algumas pequenas lagoas e por diversas cambiantes da paisagem.

A Lagoa Comprida é a mais conhecida e a maior das lagoas do maciço superior da Serra da Estrela. Construída a partir de uma lagoa natural, constitui o principal reservatório de água da serra da Estrela.

Lagoa Comprida

Na vertente norte da lagoa observa-se um dos mais interessantes campos de blocos erráticos da Serra da Estrela. Estes blocos de granito foram transportados pelos glaciares e abandonados aquando da fusão e recuo do gelo.

Lagoa Comprida

Este era um antigo glaciar com um quilómetro de extensão. Aproveitando o covão, iniciou-se em 1912 a construção da barragem. Em 1914 tinha uma altura de seis metros e em 1934 atingia os 15 metros. Actualmente, desde 1965, tem uma altura de 28 metros. É uma barragem do tipo gravidade, formada por três arcos de alvenaria de granito com 1200 metros de desenvolvimento. A albufeira tem a capacidade de cerca de 12 milhões de m3 de água, e inunda uma área de 800.000 m2.

Nesta lagoa desaguam dois túneis: o do Covão do Meio, com 2354 metros que desvia a água das encostas do Planalto da Torre e o do Covão dos Conchos com 1519 metros que desvia as águas da Ribeira das Naves.

Lagoa Comprida

A partir daqui subimos mais um pouco, paisagem agreste, quase nua, na aproximação à Torre.

Sendo o ponto mais alto de Portugal Continental, não tem todavia a configuração de um pico. É um vasto planalto onde encontramos a torre que prolonga a altitude até aos 2000m, as desactivadas instalações de radar da Força Aérea, um pequeno e algo decrépito centro comercial e ainda as instalações do teleférico. de referir que tudo isto tem um aspecto de quase abandono, o que é lamentável a avaliar pela numerosa frequência turística que demanda este local.

A Torre é o ponto mais alto de Portugal Continental (1.993 metros). Ali se encontra implantada a célebre «Torre do Cume» para completar os 2.000 metros de altitude. A actual Torre em pedra foi reedificada em 1949, datando a anterior do Reinado de D. João V (1806). A vista é magnífica: para Sul, alonga-se pela Cova da Beira até à Serra da Gardunha. A Norte, alcança as Serras do Caramulo, da Lapa e Montemuro. A Leste, atinge as Serras da Marofa e da Malcata, e para além da Meseta, as Serras da Gata e de Gredos, marcadas também pela glaciação. A Oeste, estende-se para as Serras do Açor e da Lousã, até ao oceano Atlântico. Abrange as bacias do Douro, do Mondego e do Zêzere/Tejo. No dia 04 de Agosto de 1940, para se comemorar o duplo centenário da Fundação e da Independência de Portugal foi benzida e colocada no topo da Torre uma cruz de ferro.

Vista da Torre

Mas o objectivo era um pouco mais ambicioso. Não só chegar à Torre mas assistir o pôr do astro rei!

O espectáculo superou as expectativas. o facto de termos todo o horizonte à nossa disposição, um céu limpo e sem nuvens, proporcionou imagens inesquecíveis e de rara beleza, a que as fotos não conseguem fazer justiça.

A jornada estava a acabar em beleza.

Por do Sol na Torre

Por do Sol na Torre

Por do Sol na Torre

De facto, mais cerca de 150km feitos durante a tarde, a subir e descer as estradas da Serra da Estrela recomendavam um merecido descanso. Uma sandes de presunto serrano e queijo da serra adquirida na Torre seria o merecido jantar, já em modo de pré-repouso porque o cansaço acumulado e o facto de estarmos quase no cimo da Serra não recomendavam grandes deslocações noturnas. De qualquer modo fica uma sugestão: nas Penhas da Saúde existe um restaurante a merecer recomendação forte. Chama-se Varanda da Estrela e a especialidade característica é o delicioso arroz de zimbro, entre muitas outras iguarias.

A Serra da Estrela ao lusco-fusco

Era tempo de descanso. O dia seguinte seria também bastante exigente porque ainda havia muito a percorrer!

Anteriormente:

Serra da Estrela…e algo mais (1)

A seguir:

Serra da Estrela…e algo mais (3)

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3 opiniões sobre “Serra da Estrela…e algo mais (2)”

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