Serra da Estrela…e algo mais (3)

Do Loriga Pass ao castelo assombrado

Depois de uma noite retemperadora do cansaço dos muitos quilómetros da véspera, faltava contornar a Serra por sul e poente e descobrir o Loriga Pass.

Convém explicar!

Trata-se de um troço da EN338 quando esta cruza a EN231 (a meio da distância entre Loriga e Valezim) e sobe vertiginosamente a Serra até pouco depois da Lagoa Comprida. Os nossos amigos do Quilometro Infinito batizaram-no de Loriga Pass! 

Batizou, está batizado!!!

Loriga Pass
Loriga Pass

De facto, a analogia com os mais célebres “Pass” dos Alpes faz justiça a este pedaço espectacular e emocionante de estrada. Já agora, os colegas ciclistas apelidam-no de Adamastor. Muito adequado, também. Diz tudo!

Adiante descreverei mais em pormenor…

A manhã começou brilhante, radiosa e sem uma núvem no céu. Mais um excelente dia neste Verão Outonal. Pequeno almoço singelo mas a que nada faltou, terminou a nossa estadia na Pousada da Juventude da Serra da Estrela. Recomenda-se, já o referi.

A Serra vista, manhã cedo, da Pousada
Vista serrana, manhã cedo

A jornada começou com a descida até à Covilhã, sempre sinuosa e com piso apenas razoável, como tínhamos constatado na véspera.

Cruzámos a cidade serrana, antiga capital do têxtil, indústria responsável pelo passado esplendor desta bonita cidade, que hoje recupera dinâmica e riqueza (muito devido ao impacto da Universidade da Beira Interior) e seguimos pela N230 , a antiga ligação privilegiada entre esta zona da Beira Baixa e Coimbra.

Passámos pelo Tortosendo, outro importante centro de indústria têxtil também longe da anterior riqueza. Estrada com muitas curvas, bom piso, que se faz de forma muito fluente e em bom ritmo. A paisagem é frondosa e o trajecto vai ao sabor das curvas de nível desta face da Serra.

A primeira paragem foi em Unhais da Serra.

Unhais da Serra
Unhais da Serra

Reza a lenda que certo dia andando à caça pela Serra da Estrela, um jovem brasonado e rico, perdeu-se no entusiasmo da caçada. Depois de andar perdido durante muito tempo sentiu-se cansado e com fome. Nestas condições chegou até perto do local onde hoje está situada “Unhais da Serra”. Aqui encontrou um pastor que o vendo com fome, logo lhe deu leite do seu rebanho, foi à ribeira e com as suas grandes “unhas”, apanhou trutas para o jovem senhor. O jovem caçador ficou admirado pela facilidade com que o pastor apanhou as trutas com as “unhas”, e chamou ao local “Unhas da Serra” ou “Unhais da Serra”.

Certa é a sua riqueza termal, muito explorada nos finais do Séc. XIX e principios do Séc XX que lhe valeu à época as alcunhas de “Pérola da Beira” ou “Sintra da Covilhã”. Ainda hoje, esta riqueza é aproveitada inclusivamente com novas instalações hoteleiras.

Prosseguimos caminho, agora mais sinuoso e ganhando altitude. Alguns quilómetros à frente, virámos à direita para a EN231 em direcção a Seia.

Dali viemos (Covilhã)
Dali viemos (Covilhã)

Os vales serranos desfilavam à nossa esquerda à medida que a estrada continuava ora curvando à direita, ora à esquerda, como que antecipando o que nos esperava.

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Estrada serrana

Nesta altura, observámos mais um exemplo da riqueza toponímica portuguesa, nestes que deverão ser os domínios de um tal Vasco Esteves, personagem importante certamente…

A primeira povoação que encontrámos foi Alvoco da Serra, curiosamente a povoação da Serra mais próxima da Torre (em linha recta, claro). É uma localidade de fortes tradições e origens muito antigas, conservando alguns vestígios da presença dos romanos, nomeadamente uma calçada onde foram encontradas moedas da época.

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Alvoco da Serra

Panoramicamente, é também de uma beleza enorme, principalmente pela encosta serrana onde se insere.

A jornada continua e o próximo destino é Loriga. De origem que se confunde com a antiguidade, por ela passaram os romanos (com testemunho numa calçada da época) e o seu foral é de data anterior à da nacionalidade.

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Loriga – a “Suíça Portuguesa”

É conhecida como a “Suíça Portuguesa” devido à sua extraordinária localização geográfica. Está situada a cerca de 770 m de altitude, na sua parte urbana mais baixa, rodeada por montanhas, das quais se destacam a Penha dos Abutres (1828 m de altitude) e a Penha do Gato (1771 m), e é abraçada por dois cursos de água: a Ribeira da Nave e Ribeira de São Bento, que se unem depois para formarem a Ribeira de Loriga, um dos afluentes do Rio Alva. Os socalcos e sua complexa rede de irrigação são um dos grandes ex-libris de Loriga, uma obra construída ao longo de centenas de anos e que transformou um vale rochoso num vale fértil.

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Loriga

Cruzamos a ponte sobre a Ribeira e podemos observar a pequena praia fluvial que aproveita as àguas que correm desde a Serra.

Alguns quilometros adiante e aí estava o cruzamento que iria ser o ponto de partida para a “piéce de resistance” de toda a viagem: o já referido Loriga Pass (ou Adamastor…)!

Aqui se cruzam a EN231 que trazíamos e a EN338 proveniente de Vide. Estrada concluída em 2006, seguindo um traçado pré-existente, com um percurso de 9,2 km de paisagens de montanha, entre as cotas 960 m (Portela do Arão) onde nos encontrávamos e 1650 m, junto à Lagoa Comprida.

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Loriga Pass – o Início!

A partir daqui, só os olhos e a memória fazem jús ao que desfrutámos. As fotos não conseguem reproduzir nem a beleza da paisagem, nem a emoção de fazer uma estrada íngreme – a primeira metade decorre a inclinação média de 14%, atenunado depois para 12% e já no final, “muito menos” a 9%. Fantástico!

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Loriga Pass – a 14%

Merece referir que se trata de uma estrada em excelente estado, larga e muito bem desenhada, não é uma sucessão de curva e contra curva mas vai tendo à medida que subimos algumas curvas quase a 180º.

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Loriga Pass – sempre a subir
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Loriga Pass – curvas e contra curvas
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Loriga Pass – Panorâmica
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Loriga Pass – lá em baixo…Loriga

Outro dos aspectos é que a vegetação é quase inexistente. Apenas algum mato rasteiro o que aumenta (e muito!) a sensação de declive e a visão do precipicio mesmo ali ao lado. Confesso que quando cheguei ao topo tinha os níveis de adrenalina (ou seria ansiedade?) ao máximo (e não era pela velocidade ou qualquer outro tipo de risco assumido na condução)!

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Loriga Pass
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Loriga lá ao fundo
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Formações rochosas recordação do passado glaciar
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Loriga Pass

Sinceramente, a estrada que fiz que mais emoção me criou. Não é dificil em termos de condução mas….a envolvente condiciona e muito!!! IMPERDÍVEL!!!

Não resta nenhuma dúvida no final. Chamemos-lhe Loriga Pass, Adamastor ou o que mais quisermos, é absolutamente fantástica.

Dali viemos, da esquerda agora, da frente na véspera:

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Viemos da esquerda!

Terminado o Loriga Pass, estávamos um pouco à frente da Lagoa Comprida (por onde passámos na véspera) e a caminho da Torre, na nossa já bem conhecida EN339. Desta feita, não valia a pena voltar lá mas registámos o ponto mais alto do dia.

Depois, iniciámos a descida a caminho das Penhas da Saúde (ponto de partida da jornada de hoje) e depois novamente a Covilhã.

Era o regresso e o final de 2 dias fantásticos na Serra da Estrela. Um paraíso para quem anda de mota e um deslumbre para quem gosta de paisagens que nos esmagam. na realidade, é na Serra da Estrela que melhor podemos ter a verdadeira noção da nossa pequenez.

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Barragem do Covão do Ferro

E esqueçam aquela ideia de que a Serra é boa é no Inverno. Corro o risco de dizer que é ao contrário! Porque as ineficiências que nos caracterizam, fazem com que estas estradas fiquem, na sua maioria,  intransitáveis sempre que a neve aperta (um contrasenso para uma zona que poderia ser um mini centro de desportos de inverno). Na Primavera, no Outono ou mesmo no Verão (atenção, que ele é bem quente aqui!), a Serra é sempre um deslumbre para o olhar.

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Lago do Viriato

Mas ainda havia viagem a fazer e uma surpresa quase no final. Falei num castelo assombrado ao início, não foi? Já lá vamos.

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A Serra, o túnel e a VFR!

Da Covilhã para sul tomámos a EN18 (referi logo no início a deficiente sinalização da Covilhã e mais uma vez pude confirmá-lo!). O simpático recepcionista da Pousada da Juventude (5 estrelas!) alertou-me que era possível à entrada do Fundão tomar a A23 e por ela percorrer os 2 túneis da Gardunha, poupando quilómetros e sobretudo tempo (obviava a passagem no Fundão, em Alpedrinha e, principalmente, a travessia da Gardunha que já tinha feito na véspera). Este pedaço da A23 é gratuito desde que logo a seguir aos túneis se saia na direcção de Castelo Novo/Castelo Branco (e no sentido contrário, idem). Não há nenhuma sinalização a alertar para esta “borla”, que será provavelmente só do conhecimento das gentes locais. Pois aqui fica a referência!

Pequena paragem para trincar algo em Castelo Branco e descansar um pouco pois a manhã já ía longa e tinha sido bem animada! Continuámos pela EN18 até Vila Velha de Ródão e aqui, como ainda era cedo resolvi que valeria a pena investigar uma referência que tinha visto algures. Existiria um castelo mesmo por cima das portas de Ródão que teria uma vista espectacular. Fui confirmar!

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O Castelo do Rei Vamba lá ao fundo

Na realidade, mesmo antes de entrarmos na ponte de Ródão sobre o Tejo, existe uma estrada à direita e o castelo está sinalizado. Era por ali!. Passada uma passagem de nível da linha da Beira Baixa (ainda activa!) surgiu pela frente uma estrada em bom estado que ao longo de cerca de 5 quilómetros foi conquistando cota, primeiro por uma encosta e depois pela outra que bordejava um pequeno mas profundo vale. Pequeno percurso muito engraçado não fora a desolação de todo este pedaço de Serra ter ardido e o cenário ser parecido com tantos outros que fomos encontrando. Finalmente, um pequeno cruzamento, uma estrada estreita e algo serrabulhenta à esquerda e uma placa que indica: Castelo do Rei Vamba! Era aqui. Mas porquê “Rei Vamba”?

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Castelo do Rei Vamba. Amaldiçoado…

Fui ver…e só posso dizer que a paisagem é esmagadora. Estávamos a uma cota bem mais alta que os dois maciços rochosos das portas de Ródão e por cima também da fronteira Serra de Nisa. Isso permite ter uma vista desafogada por longos quilómetros, para lá inclusivé da Serra de S. Mamede (Portalegre). E ainda conseguimos ver, um pouco mais abaixo, alguns elementos da colónia de grifos que “residem” na encosta das portas. Espectacular.

Mas de onde veio o nome então? Investigação (a net é fantástica!) e descobrimos:

Reza a lenda, que nos tempos (500 anos antes da fundação de Portugal) em que o Rio Tejo separava o reino dos visigodos do reino dos mouros, o Rei deles se tomou de amores pela mulher do Rei inimigo, Vamba de seu nome. Terá construído um túnel por baixo do rio para se encontrarem mas a coisa terá corrido mal. O marido enganado descobriu e a rainha acabou atirada do penhasco abaixo. Foi nessa altura que ela amaldiçoou aquelas terras. Quanto a Vamba, terá sido o último rei deste povo e por isso também a sua sorte não terá sido a melhor, efeito ou não da maldição. Sucedia-se o domínio árabe…

O castelo, que é apenas uma torre, ainda por lá está, altaneiro e dotado de uma vista fantástica. Não é difícil perceber a sua utilidade estratégica e militar nas guerras de antanho, pois permitiria descortinar inimigos a dezenas de quilómetros de distância (ou a dias de viagem quando estas se faziam a pé).

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Castelo do Rei Vamba (ou Castelo de Ródão)

O castelo continua amaldiçoado, e nem a presença de uma capela ermida ao seu lado terá feito diminuir o feitiço. Dizem…

Regresso à ponte onde mais uma vez pudémos vislumbrar as magnificas Portas de Ródão.

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Portas de Ródão
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Rio Tejo e a ponte que dá entrada no Alentejo

Depois, entrámos no Alentejo, para terminar a viagem em beleza pelos 18 quilómetros de curvas e contra curvas da EN18 enquanto percorre a Serra de Nisa. Não sem antes registarmos mais uma Casa de Cantoneiros abandonada (são tantas, País fora…) e fazermos uma pequena paragem na fonte onde tantas vezes, nas viagens com os meus pais, do Alentejo para a Beira, nos refrescávamos na fonte e, se a época era propícia, comíamos uns figos de uma frondosa árvore que agora apenas se vislumbra por trás da fonte.

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Serra de Nisa: Casa de Cantoneiros abandonada
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Serra de Nisa: fonte

Aqui começámos, aqui terminamos!

Nisa
Nisa

Anteriormente:

Serra da Estrela…e algo mais (2)

Serra da Estrela…e algo mais (1)

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7 opiniões sobre “Serra da Estrela…e algo mais (3)”

    1. Obrigado. É verdade. O nome está muito bem escolhido! (Embora também goste do nome que a malta das bicicletas lhe dá: Adamastor! Como também ando de bicicleta compreendo o significado do nome…aquilo mete medo! 🙂 … a subir e a descer! )

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