Em demanda das terras usurpadas!

Olivença é Nossa, dizem…

Desta vez a nossa aventura é um passeio pela História de Portugal. E quando falamos da nossa História, uma manhã de nevoeiro vem a calhar. Aliás, não podia faltar!

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Era assim que se nos deparava a passagem para a outra margem.

Feito o agrupamento dos briosos cavaleiros que se preparavam para, de caminho, reconquistarem Olivença (ou no mínimo, se banquetearem com um lauto almoço em terras portuguesas de Castela), a primeira paragem foi no Couço. Aqui se nos juntou o 7º cavaleiro e tivemos também o prazer da companhia de amigo e companheiro aqui residente que nos acolheu, acompanhou no cafézinho matinal – alguns referiram que as empadas estavam deliciosas – e depois de alguns quilómetros, demandou outras paragens mais a norte.

Entretanto, o nevoeiro cerrado mantinha-se. Nalguns momentos juraria mesmo ter visto o vulto de D. Sebastião. Afinal…era só a viseira do capacete embaciada! Falso alarme…

Prosseguimos por Mora e só alguns quilómetros após, o nevoeiro nos libertou da sua incómoda (húmida e fria) presença. Pudemos então começar a desfrutar da magnífica paisagem do Alto Alentejo, ainda coberta por um manto de geada mas com um céu limpo e um sol radioso. Antevia-se um dia excelente que se confirmou. De tal forma, que resolvemos celebrar com uma paragem no Vimieiro para uma foto.

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Prosseguimos para aquela que era a primeira paragem histórica da viagem: Evoramonte.

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Pequena vila situada na encosta de um monte com uma vista magnífica para a extensa planície alentejana a quase toda a volta excepto para a Serra d’Ossa, a nordeste. Essa mesma vista que motivou certamente a construção da original fortaleza pois, no antigamente, dificilmente um qualquer exército invasor conseguiria passar despercebido a muitas dezenas de quilómetros.

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Sendo um bastião bélico, é todavia célebre pois foi aqui que se celebrou, em 26 de Maio de 1834, a Convenção de Evoramonte que pôs fim à fratricida guerra civil (há quem diga que estas são as piores das guerras) entre Absolutistas partidários do Rei D. Miguel e os Liberais liderados pelo Regente D. Pedro IV em representação de sua filha D. Maria II.

Continuámos viagem em direcção à segunda paragem histórica da jornada. No caminho, passámos ainda pelo Redondo e Alandroal. Sem visita mas ainda com a oportunidade de registar a curiosidade de nesta última vila, a torre sineira da igreja ter sido construida por cima da torre de menagem do castelo:

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Atravessámos transversalmente todo o Alentejo e estávamos agora junto às margens do Guadiana. Mais largas do que era habitual antigamente, cortesia da albufeira do Alqueva que faz sentir o seu efeito ainda mais a jusante do ponto onde estávamos, junto à Sentinela do Guadiana: a fortaleza de Juromenha.

A imponência, a beleza da localização e amplitude das vistas rivalizam com o estado de degradação e de ruína em que se encontra. Testemunho claro da incúria de devotamos à nossa História!

No seu interior, é possível ainda perceber a dimensão do edificado com destaque para a igreja com torre sineira e interior com o tecto suportado por colunas:

O recinto apresenta diversas zonas em risco de ruína eminente (quem é responsável pela fortaleza teve o cuidado de espalhar umas fitas para impedir o acesso às zonas piores…talvez se justificasse um esforço maior…na conservação):

Recordando que do outro lado do rio, é Espanha sendo Portugal, a vista que se tem é deslumbrante:

A Fortaleza de Juromenha deixou-nos marca profunda. Pela extraordinária riqueza de tão imponente estrutura e pelo avançado estado de degradação em que se encontra.

Era tempo de partir não sem antes deitar um último olhar a Juromenha:

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Já estávamos perto do nosso objectivo: Olivença!  E a expectativa era grande. Será que afinal a presença portuguesa era assim tão forte?

Convém recordar que Olivença é, há quase 200 anos, reclamada por Portugal como fazendo parte integrante do nosso território. Recordemos um pouco da história desta vila…a mais portuguesa de Espanha, ou a mais espanhola de Portugal:

“A origem de Olivença está ligada à reconquista cristã da região fronteira a Elvas pelos Templários idos do Reino de Portugal, cerca do ano de 1230. Nesse território a Ordem criou a comenda de Oliventia, erigindo um templo a Santa Maria e levantando um castelo. No final do século, pelo Tratado de Alcanices, assinado em 1297 entre o Rei D. Dinis e Fernando IV de Castela, Olivença seria formalmente incorporada em Portugal, para sempre, juntamente com Campo Maior, Ouguela e os territórios de Riba-Côa, em escambo com Aroche e Aracena. De imediato, D. Dinis elevou a antiga povoação à categoria de vila, outorgando-lhe foral em 1298, determinou a reconstrução da fortificação templária e impulsionou o seu povoamento. Os seus sucessores reforçaram sucessivamente a posição estratégica de Olivença, concedendo privilégios e regalias aos moradores e realizando importantes obras defensivas. Em 1488 D. João II levantou a impressionante torre de menagem de 40 m de altura.

Em 1509 D. Manuel iniciou a construção de uma soberba ponte fortificada sobre o Guadiana, a Ponte da Ajuda, com 19 arcos e tabuleiro de 450 metros de extensão. Do reinado de D. Manuel, que deu foral novo em 1510, datam também outras notáveis construções como a Igreja da Madalena (por muitos considerada como o expoente, depois do Mosteiro dos Jerónimos, do manuelino), a Santa Casa da Misericórdia ou o portal das Casas Consistoriais.

Seguindo-se ao esplendor do século XVI português, dá-se a união dinástica filipina, entre 1580 e 1640. A pertença de Olivença a Portugal não é questionada. No dia 4 de Dezembro de 1640, chegada a notícia da Restauração em Lisboa, a praça aclama com júbilo D. João IV e é envolvida totalmente na guerra que se segue (1640/1668), período em que se inicia o levantamento das suas fortificações abaluartadas, cuja construção se dilataria durante a centúria seguinte. No decurso do conflito, Olivença foi ocupada em 1657 pelo Duque de San Germán e, na circunstância, a totalidade da população abandonou a vila e refugiou-se junto de Elvas, só regressando a suas casas quando foi assinada a paz (1668) e as tropas castelhanas abandonaram a praça e o concelho. O século XVIII inicia-se com um novo conflito bélico – a Guerra de Sucessão de Espanha -, em cujo transcurso foi destruída a Ponte da Ajuda (1709). A posição de Olivença tornou-se assim especialmente vulnerável pois a comunicação entre Elvas e Olivença obrigava a atravessar território espanhol.

Em 20 de Janeiro de 1801, Espanha,  concertada com a França Napoleónica, declara guerra a Portugal e, em 20 de Maio, invade o nosso território, ocupando grande parte do Alto-Alentejo, na chamada «Guerra das Laranjas». Comandadas pelo «Generalíssimo» Manuel Godoy, favorito da rainha, as tropas espanholas cercam e tomam Olivença.

Portugal, vencido às exigências de Napoleão e de Carlos IV, entregou a Espanha, «em qualidade de conquista», a «Praça de Olivença, seu território e povos desde o Guadiana», assinando em 6 de Junho o «Tratado de Badajoz». «Cedeu-se» Olivença, terra entranhadamente portuguesa que participara na formação e consolidação do Reino, no florescimento da cultura nacional, nas glórias e misérias dos Descobrimentos, na tragédia de Alcácer-Quibir, na Restauração!

Findas as Guerras Napoleónicas, reuniu-se, com a participação de Portugal e Espanha, o Congresso de Viena, concluído em 9 de Junho de 1815 com a assinatura da Acta Final pelos plenipotenciários, entre eles Metternich, Talleyrand e D. Pedro de Sousa Holstein, futuro Duque de Palmela. O Congresso retirou, formalmente, qualquer força jurídica a anteriores tratados que contradissessem a «Nova Carta Europeia». Foi o caso do «Tratado de Badajoz». E consagrou, solenemente, a ilegitimidade da retenção de Olivença por Espanha, reconhecendo os direitos de Portugal.

Espanha assinou o tratado, em 7 de Maio de 1807 e assim reconheceu os direitos de Portugal…sem efeitos até hoje.”

Fonte: http://www.memoriaportuguesa.pt/olivenca

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A herança portuguesa é mais do que evidente. Quer na omnipresente calçada portuguesa, quer na toponímia da cidade (a maioria das suas ruas tem o seu nome actual, espanhol, mas por baixo sempre a anterior designação portuguesa) quer também na possibilidade que os nascidos e baptizados em Olivença têm de obter a cidadania portuguesa (sem custos!).

E talvez seja essa mesmo, a principal característica de Olivença, deixando de lado reinvidincações territoriais. Ser uma terra com dupla nacionalidade, onde portugueses e espanhóis se sentem em casa (é verdade, sente-se!) e de onde pode emanar um espírito de sã convivência no espaço ibérico entre duas nações e dois povos que ao longo da sua História andaram de costas voltadas, quando não aos tropeções!

Duvido que os habitantes quisessem ser exclusivamente portugueses. Afinal, a gasolina até é muito mais barata, a electricidade e o gás também e o IVA anda nos 19%….  Mas não renegam a sua herança.

Pela nossa parte, afinal foi Olivença que nos conquistou!

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A partir daqui, foi o regresso (com as motos devidamente atestadas… é curioso, meter gasolina espanhola, a preços de Espanha, em Portugal!) pois a viagem ainda era longa. Aguardava-nos a última paragem: o reabastecimento em Vendas Novas! A meca das bifanas (esta frase soou a estranho…).

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Mais uma jornada concluída. 500km de paisagens, História, confraternização, amizade e espírito motard. Como deve ser…

A próxima? Quem sabe….mas uma coisa é certa. Vai estar aqui, nas Viagens ao Virar da Esquina!

Até breve.

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