Brotas – o segredo escondido do Alentejo!

Fui até Brotas à descoberta de uma lenda e de um milagre que deu origem a um culto secular.

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Cedinho e céu cinzento. Olhei lá para fora e ….borrasca anunciada! A previsão meteorológica dizia o mesmo. Pouco animador para quem se ia lançar à estrada… Mas, motard que é motard, é de aço…preferencialmente inoxidável! A rota traçada e os compromissos assumidos mandavam avançar. Assim foi!

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O destino da jornada era Brotas. E quase sempre que o referia, alguém perguntava “Brotas? Onde fica isso?…”

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Trata-se de uma pequena aldeia (pouco mais de 200 habitantes), freguesia actual do concelho de Mora e integrava o antigo concelho das Águias que teve foral no séc XVI (1520). Terras antigas, portanto… Mas, igualmente importante (para a terra e para esta história) o facto de ficar situada entre Mora e Montemor-o-Novo, em plena Estrada Nacional 2, a meia dúzia de quilómetros do Ciborro e do marco 500 dessa estrada.

Quando pela primeira vez me referiram que Brotas tinha uma história interessante e pouco conhecida fiquei surpreendido. Tinha lá passado há um ano atrás, durante a viagem pela EN2. E, se me recordava bem disso (com fotos alusivas e tudo)…já a existência de um Santuário e ainda por cima antiquíssimo, tinha-me escapado completamente. Falta a que importava pôr cobro.

E se a história é interessante!!!

Referir ainda que o alojamento que me esperava – as Casas de Romaria – está profundamente ligado a toda a história do local. Porque é o próprio local!

Literalmente iria estar imerso na história do Santuário de Nª Srª de Brotas, no seu culto centenário e na forma como o mesmo se expandiu.

A viagem – de Lisboa ao Fluviário

A viagem começou enevoada e a prever rega lá mais para a frente.

A primeira paragem foi em Coruche. Uma visita prometida a um amigo e uma constatação…acho que nunca lá tinha entrado. Uma falta a remediar um destes dias.

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Olá, cafézinho, meia de conversa, um abraço…e ala que se faz tarde! O resto da conversa seria mais tarde…lá para o jantar…

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Segui a EN251 e cheguei ao Couço. Sem paragem, apenas uma volta pela vila e depois rumo a Montargil.

O Alentejo é assim…

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O destino era a barragem e rever a vila que lhe dá nome. Situada no cimo de uns montes fronteiros à albufeira, deveria ter uma vista interessante….deveria, mas não tem. Fica uma sugestão…façam um miradouro com uma vista bonita, promovam e, se calhar, o comércio local agradece. E os viajantes também!

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Ainda assim, houve espaço para algumas fotos para registar o momento. Também junto à albufeira e ao paredão.

Depois, rumo a Mora. Pela EN2, que iria ser uma constante nestes dias, pois por diversas vezes a cruzei ou percorri.

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Mas um pouco antes de lá chegar, viragem à esquerda, em direcção ao Fluviário e ao Parque Ecológico do Gameiro (para lá de muito bonito, vim depois a saber que é um paraíso para a pesca de rio, inclusivamente com competições internacionais).

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Fluviário de Mora

Fica em Mora, perto de Cabeção e integrado no Parque Ecológico do Gameiro. Que tem uma riqueza paisagística e natural extraordinária. A merecer uma visita mais detalhada por si só.

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O Fluviário é um aquário público, dedicado aos ecossistemas de água doce, ao seu estudo e à importância que têm no que se refere à preservação da biodiversidade.

É constituído por um conjunto de aquários e espaços envolventes e permite a observação de diferentes espécies de fauna e flora oriundas de rios e lagos. Através da exposição de habitats do percurso de um rio – paradigma de um rio Ibérico – desde a nascente até à foz, é possível conhecer diversas espécies dos rios de Portugal, entre elas, alguns endémicas da Penísnsula Ibérica. Já na galeria de habitats exóticos, é possível conhecer espécies da bacia hidrográfica do rio Amazonas (uma anaconda!), dos Grandes Lagos Africanos do Vale do Rift, entre outras.

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O Fluviário de Mora é, pelas suas características de frescura e calma, um excelente intervalo para uma jornada na estrada.

A viagem – continuação – do Fluviário até Brotas

Continuei. Primeiro por uma estrada municipal e depois pela N251.

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Passei Pavia, onde percorri algumas ruas do seu centro, uma vila tipicamente alentejana onde predomina de forma absoluta o branco das paredes das suas casas térreas.

Depois, segui pela N370 até Arraiolos.

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Famosa pela sua indústria dos tapetes – a rotunda por onde entrámos mostra claramente essa influência – o objecto de visita foi o Castelo. Bem original pela sua planta circular.

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Dele se tem uma vista sobre o casario da vila. Constatar também que o estado de conservação não é o melhor, estando algo degradado nuns pontos e pouco cuidado no geral. Talvez isso e alguma imperícia própria e deu-se o único percalço da viagem. Condutor e mota foram parar ao chão. Sem danos de monta, felizmente. Como se costuma dizer, quem anda à chuva molha-se. O que no caso, era bem verdade: no caso figurado e também literalmente!

A disposição para visita mais detalhada reduziu-se significativamente. Uma volta pelas ruas mais centrais e segui caminho, até porque o objectivo era chegar a Brotas ainda relativamente cedo para logo conhecer o mistério do culto da Nª Srª de Brotas.

Ainda antes, por uma estrada municipal que me levaria novamente até à EN2, passei S.Pedro da Gafanhoeira e S. Geraldo. Já na nossa estrada, meia dúzia de quilómetros e estava no famoso quilómetro 500 da EN2! No Ciborro.

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Tiradas as fotos da praxe, mais uns poucos minutos de estrada, e a jornada estava concluída, por agora.

Cheguei a Brotas.

E a primeira constatação é que neste ponto a estrada é bem estreita uma vez que se faz em circulação alternada (por semáforos). Vim depois a saber que a estrada, quando foi construída, rasgou a povoação ao meio a ponto de algumas casas terem sido destruídas para a passagem da via. Conhecendo depois um pouco da história da aldeia e o seu desenvolvimento, fácil se torna perceber que a actual morfologia é bastante diversa daquela original e posterior ao desenvolvimento da povoação em função do Santuário. Já lá vamos…

Brotas – a História

O local hoje chamado de Brotas pertencia aos domínios da vila de Águias que foi sede de concelho a partir de 1520. Todavia, nesta altura já teriam ocorridos os “factos” que levaram ao posterior desenvolvimento de Brotas e à decadência de Águias.

A morfologia do terreno é importante. Assim, estamos perante um pequeno vale bastante cavado e com paredes íngremes (embora não muito altas), quase uma espécie de buraco. Pois foi precisamente aí que nos principios dos anos de 1400, um pastor pastoreava a sua vaca. Este animal era precioso porque assegurava o sustento do pastro e dos que lhe eram próximos. Todavia, a dada altura o animal precipitou-se pelo barranco e veio cair na parte mais baixa do tal vale. Partiu uma pata que teria que ser cortada e certamente provocaria a sua morte. E com ela, a vida já miserável do pobre pastor acabar-se-ia! Face a tal desdita, prostrou-se e implorou pela salvação.

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E então dá-se o milagre. Nª Senhora aparece aos olhos do pastor e face ao desespero e aflição do mesmo, logo ali amputa o seu braço direito que substitui o membro aleijado da vaca. Esta recompõe-se e recupera salvando a vida e o sustento do pastor e dos seus. Neste momento nasce a devoção a Nª Srª, a partir daqui chamada de Brotas e que em todas as representações se apresenta sem o braço direito.

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É erguida em data anterior a 1424 uma ermida em sua honra, culto que se acentuou posteriormente determinando a ampliação do templo original e a criação de um núcleo urbano adjacente, dando origem ao Santuário de Nossa Senhora das Brotas. O declínio da vila das Águias ocorreu progressivamente, à medida que o lugar de Brotas se ia tornando uma povoação mais importante, levando a que, em 1535, o Cardeal-infante D. Afonso, Bispo de Évora, lhe concedesse independência eclesiástica, transferindo a sede paroquial de Águias para Brotas.

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Em frente ao templo estende-se a Rua da Igreja, cujas edificações de dois pisos foram erguidas como hospedaria para as várias confrarias de fiéis. Muitas dessas casas – Casas de Confraria – ainda hoje apresentam as lápides das confrarias respetivas (como a de Setúbal, Mora, Lavre, Cabeção ou Cabrela). E, recordando o que atrás foi dito sobre a morfologia do terreno, a rua principal, a Rua da Igreja, desagua o pequeno largo onde está situado o Santuário, ficando o casario como se de um anfiteatro natural se tratasse.

Esta é a parte da aldeia a que o povo chama de “Aldeia Velha”. A partir da primeira Guerra Mundial, os proprietários de uma herdade fronteira à “Aldeia Velha”, formaram uma outra aldeia a que os moradores chamaram de “Aldeia Nova”.

O Concelho das Águias ou Brotas foi extinto em 1834 e anexado ao de Mora. Quando o de Mora foi extinto em 1855, Brotas passou para o de Montemor-o-Novo, onde se manteve até 1861, ano em que o Concelho de Mora foi restaurado.

Com os Descobrimentos nos finais do século XV e nos seguintes que originaram a diáspora portuguesa, naturalmente que o culto também foi levado para além mar. Há registos da sua prática na Índia (inclusivamente existe uma imagem proveniente da Índia no Santuário) e em diversos locais do Brasil.

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Mais recentemente, dois factos – ou milagres – que revela a protecção que os crentes acreditam existir relativamente à sua terra: nos dois conflitos armados onde homens de Brotas se fizeram militares durante o Séc. XX – 1ª Grande Guerra e Guerra do Ultramar – nenhum por lá ficou. Todos regressaram a salvo e apenas no primeiro conflito um regressou ligeiramente ferido. E este facto/milagre é motivo também para a sua referência em pleno Santuário de Nª Srª de Brotas.

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De referir ainda a riqueza interior do Santuário, nomeadamente a sua azulejaria:

Brotas e as Casas de Romaria

Referi acima que do Santuário sai a Rua da Igreja. Nela se situam a maioria das Casas de Confraria. Estas casas, em que cada uma leva o nome da origem das confrarias de devotos, serviam para albergar os romeiros que vinham prestar culto à Santa.

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Os tempos eram outros e as deslocações faziam-se muito lentamente. De Setúbal por exemplo, media-se em vários dias o tempo de caminhada. Por isso, também quando chegavam, para lá do descanso necessário, também o culto se prolongava. E era nestas casas que os romeiros se alojavam. Vinham por confraria e quando uma abalava, logo outra vinha ocupar o seu lugar e as casas.

As Casas de Romaria são uma unidade de Turismo em Espaço Rural que através da recuperação de 6 destas Casas de Confraria permite aos seus visitantes usufruirem em simultâneo dos confortos da vida moderna mas instalados em habitações com 600 anos de história. Casas tipicamente alentejanas, de branco caiadas e com as suas riscas coloridas, que mantém a traça original e estão decoradas de forma singela com os artefactos típicos que ilustram a vida nesta região.

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Ficar numa destas casa – no caso, a da Confraria de Palmela – é partilhar com o conforto do Séc. XXI, a vivência histórica de uma profunda devoção hexacentenária!

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E à noite, é mágico escutar o silêncio dos campos que nos rodeiam!

À descoberta de Mora

Entretanto, aproximava-se o final do dia. E o jantar em Mora, que tinha ficado alinhavado em Coruche ao início do dia, confirmou-se.

Na Africa Twin, fiel companheira de viagem sempre pronta, agora aligeirada das bagagens, lá percorri a dúzia de quilómetros que separam Brotas da sede de Concelho. Entretanto, se durante o dia apenas tinham ocorrido alguns pequenos períodos de chuviscos, agora a coisa estava mais intensa. Mal sabia eu que dali para a frente, nesta viagem, isso seria uma constante.

Em Mora, o meu anfitrião e amigo, proporcionou-me uma visita guiada pela vila e arredores, tendo ficado na retina (e nas fotografias) a curiosidade do Cromeleque de Mora (ou Cromeleque do Monte das Fontaínhas) que atesta a ancestralidade do povoamento desta região e cujo património megalítico deu origem ao respectivo Museu que se localiza precisamente nesta vila.

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Também o Açude na Ribeira da Raia e que está na origem da Pista Internacional de Pesca Desportiva, importante factor de desenvolvimento económico pelas competições que permite e pelo renome internacional.

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Quanto ao jantar….pois fica a recomendação: Solar dos Lilases (será conveniente uma marcação prévia) é um local a repetir. Pela simpatia com que fomos recebidos e também pela excelência do que comemos: lagartos de porto preto com migas de espargos (que estavam de comer e chorar por mais…)!

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E era tempo de finalmente regressar a casa na verdadeira acepção da palavra pois de uma Casa de Confraria (a de Palmela) se tratava – para uma noite descansada, uma vez que no dia seguinte a viagem continuava.

Começar o dia em Brotas

Acordei cedo como habitualmente, e ainda não se via vivalma nas ruas (nesta parte da povoação, onde quase ninguém mora) já eu andava a completar o acervo fotográfico.

Foi quando me cruzei com um jovem caminhante com os seus batons de marcha que saía de uma outra Casa de Confraria. Imagem curiosa e inesperada. Mas algo familiar…

Pouco depois, encontrámo-nos no pequeno-almoço. Tratava-se afinal do Afonso Reis Cabral, herói caminhante, que andava a percorrer a EN2 a pé e ao mesmo tempo deliciando-nos com o seu relato diário de viagem na página de Facebook (que eu aliás vinha seguindo).  A jornada tinha começado havia cerca de 2 semanas atrás em Chaves, neste dia a meta seria Montemor-o-Novo e iria chegar a Faro cerca de uma semana depois. É obra! A sua simpatia, a coragem para realizar uma empreitada destas ainda por cima desafiando os elementos pois quer a chuva deste mesmo dia (e de outros) quer alguns dias de calor algo exagerado para a época não lhe facilitaram a tarefa. Mas, e pelas suas crónicas isso foi sendo evidente, uma verdadeira experiência de vida e principalmente de contacto humano com todos aqueles com que se foi cruzando. E o seu talento para a escrita que nos fez acompanhá-lo com redobrado interesse. Acreditem…é um nome a reter! E fica a sugestão, vão ao Facebook e revejam as crónicas do Afonso. Vale a pena!

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Agora uma referência muito especial. Os meus anfitriões nas Casas de Romaria, a Maria e o Pedro, genuinamente simpáticos e verdadeiramente apaixonados pela sua terra – e isso foi por demais evidente na visita em que a Maria me levou a conhecer o santuário e os seus recantos, todos com alguma história para contar, a lenda do milagre de Nª Srª de Brotas, as Casas de Confraria que com muito trabalho e bom gosto têm vindo a recuperar e também as ruas da Aldeia Velha, tudo temperado com o profundo conhecimento das suas raízes – acolheram-me da mesma forma como quem recebe em sua casa um amigo de longa data. O quase imediato tratamento por tu foi sinónimo disso mesmo: estava ali como amigo! E é tão bom ser assim recebido…

O regresso à estrada

A viagem continuava. Debaixo de uma morrinha irritante lá me fiz à estrada rumo a Mora novamente. Percorridos 3 ou 4 quilómetros, vislumbro uma pesoa que caminhava na estrada. Afinal iria cruzar-me novamente com o Afonso. No dia anterior tinha concluido a sua caminhada no quilómetro 480 da EN2 (entre Mora e Brotas) pelo que foi ali que reeniciou o percurso. O rigor nestas coisas é importante! Desejámos boa viagem mútua. Ele rumo a Sul. Eu a Norte, até Mora, para depois virar a nascente que o destino do dia era próximo de Espanha.  Mas essa é a próxima crónica….

Agradecimentos

Nesta viagem utilizei uma Honda Africa Twin DCT gentilmente cedida pela Honda Portugal e cuja análise está publicada aqui.

O alojamento nas Casas de Romaria foi uma cortesia dos Solares de Portugal, que me acompanham neste projecto de dar a conhecer o nosso País visitando o património arquitectónico e histórico destes solares e mansões familiares.

Ao meu Amigo Aires Pereira, que me motivou a começar a escrever sobre viagens de moto e continua a incentivar e apoiar. E o jantar foi fantástico…!

P’rós Amigos

Disclaimer

A partir de hoje (21.05.2019) e durante os próximos 30 dias, os Solares de Portugal oferecem um desconto de 10% nas reservas efectuadas para este destino, sendo que nesse acto deverá ser indicada a referência 6F0BD582 e mencionar que a casa visitada foi a Casas de Romaria em Brotas.

Este desconto não é acumulativo com campanhas em vigor e a reserva da estadia terá que ser feita através da CENTER promo@center.pt e tel 258 743965 e não directamente à casa.

Outros benefícios podem ser consultados na página P’rós Amigos!

2 opiniões sobre “Brotas – o segredo escondido do Alentejo!”

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