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Borba – A filha alentejana de um deus menor

Casa do Terreiro do Poço

Situada em zona central de Borba, facilmente acessível a quem entra na cidade, a Casa do Terreiro do Poço viria revelar-se a enorme surpresa desta viagem.

Dista 3 km, se tanto, de Vila Viçosa. Se algum partido tira da proximidade, será também esse o seu sortilégio. Do esplendor da terra do Paço Ducal, dos jardins, do Castelo ou da Igreja da Padroeira de Portugal, a vizinha Borba ficou com a muito mais prosaica fama de terra produtora de bom vinho e da extração dos mármores cuja beleza do produto final se esbate quando vislumbramos as gigantescas escombreiras de pedra que resultam dos excedentes do  esventrar do solo e das imensas crateras cuja dimensão e profundidade apenas são perceptíveis em vista aérea.

Borba foi o destino desta jornada. E a Casa do Terreiro do Poço o nosso refúgio!

De volta à estrada

Mora já tinha ficado para trás (para perceber os antecedentes, ver aqui), Pavia foi rapidamente atravessada e segui viagem em direcção ao Vimieiro. Aí atravessei a EN4 e segui em direcção a Evoramonte. Estrada conhecida por recentemente a ter percorrido (ver aqui a crónica dessa viagem), bom piso e sem movimento.

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O dia começou molhado e assim prosseguiria até ao final. Por vezes uma aberta, outras vezes chuva mais persistente. Nada bom para quem queria voltar ao castelo de Evoramonte, altaneiro e imperial sobre a planície, e disfrutar da vista. O piso de calçada irregular e inclinada completamente molhado desaconselhou a visita. Ficou assim uma foto ao longe e desta vila histórica estavamos conversados.

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Redondo e uma história de cozinheiros. Depois, Alandroal.

Seguiu-se o Redondo. A chuva deu uma pequena trégua, suficiente para poder dar uma volta pelo centro da vila.

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Uma pequena paragem para reconfortar o estômago veio revelar-se fonte de uma curiosa história.

O jovem empregado de uma pastelaria, senhor de um característico e bem cantado sotaque alentejano, tinha acabado de ser eliminado de uma das fases do concurso Masterchef. Pelos vistos a sua sopa de tomate (um prato característico do Alentejo ao qual ele tinha dado o seu cunho pessoal, como bem o descreveu…e garanto que fiquei a salivar…) foi insuficiente face a outros “atributos” de algumas concorrentes. No fundo, deu para constatar na primeira pessoa que estes concursos são…pouco concursos! Simpático o rapaz, não viu o seu sonho seguir caminho mas estou certo que terá tirado a sua lição de vida. E se a paixão de cozinhar lá está, nada melhor que o Alentejo tradicional para lhe dar asas.

A viagem prosseguiu e a próxima paragem foi no Alandroal. Aqui debaixo de uma chuva miúda, persistente e muito irritante. O passeio pelo centro desta vila fundada no Séc XIII foi a pé. E incluiu a exploração do Castelo com a sua Torre de Menagem característica pois foi-lhe acrescentada a torre sineira da Igreja Matriz.

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A tender para o ensopado (prato típico alentejano mas que aqui tem um sentido bem mais concreto) segui viagem até à próxima paragem.

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A Sentinela do Guadiana

Juromenha impunha um regresso (e lá voltarei sempre que possível). A fortaleza em ruínas mas ainda imponente e magnífica, debruçada sobre um cotovelo do Guadiana tem algo de muito especial.

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A carga histórica de do outro lado estar Espanha…que por acaso até é Portugal (já contei essa história aqui), a beleza da paisagem e a própria estrutura fortificada tão mal estimada, fazem-me dedicar alguns momentos à contemplação. Aconteceu, até porque naquele momento não chovia.

A caminho de Vila Viçosa

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Antes de chegar ao final da etapa em Borba, e sendo ainda relativamente cedo porque os quilómetros não tinham sido muitos e as previstas visitas ou não aconteceram (Evoramonte) ou foram mais rápidas (Redondo, Alandroal e até Juromenha) por causa da teimosia do S. Pedro (que definitivamente cortou relações comigo!), resolvi antecipar a visita ao Paço Ducal de Vila Viçosa que tinha previsto para o dia seguinte. Até porque julguei acertadamente que dentro do Palácio não choveria. Nesta altura já tinha o fato bastante “pesado” embora no interior estivesse seco. Mas começava a incomodar e portanto nada como uma visita turística debaixo de telha.

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Percorri o Paço Ducal em excelente visita guiada. Muitos pormenores e uma revisão in loco de mais de metade da História de Portugal: a história da Casa de Bragança. Cuja sede foi, a partir do Séc XV, em Vila Viçosa, apelidada de Princesa do Alentejo. Duzentos anos antes de o então 8º Duque de Bragança ser aclamado Rei de Portugal na sequência da Restauração de 1640: D. João IV.

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Magnificamente preservado, com um espólio dos Séc. XVII e XVIII riquíssimo, o agora museu conserva a imponência dos seus tempos mais áureos. Merecem destaque a exposição de inúmeros quadros a aguarela ou pastel da autoria do Rei D. Carlos, que bem atestam a veia artística do nosso penúltimo Rei. Também as antigas cozinhas são memoráveis pela enorme bateria de cozinha toda em cobre. Para lá dos jardins cuidados que conseguímos vislumbrar, visitei ainda a secção do Museu Nacional dos Coches que está instalada nas antigas cocheiras, onde entre outras carruagens, se pode admirar o landau que transportava a Família Real no dia do regicídio.

Finalmente…Borba!

Feita a meia dúzia de quilómetros que por estrada me separava de Borba e estando o meu anfitrião à espera, rapidamente encontrei  o destino: a Casa do Terreiro do Poço.

Confesso que não tinha, neste caso, particulares expectativas. Foi mesmo pelo prazer da descoberta. E que descoberta foi!!!

Borba é uma cidade alentejana típica – curiosamente, a mais pequena cidade do Alentejo –  com as suas ruas de calçada estreitas, o casario branco de casas maioritariamente térreas. Foi conquistada aos mouros em 1217 (tal como Vila Viçosa) e um século mais tarde foi-lhe atribuído foral de vila. Muito antiga, anterior à nacionalidade, Borba vive um pouco na sombra da vizinha e faustosa terra dos Duques de Bragança.

E alguns dichotes não perdoam. Desde a referência que Borba tem uma fonte muito bonita….porque já não havia sítio em Vila Viçosa para lá a colocar ou o facto mais picante de ser onde os senhores nobres da outrora faustosa Vila (hoje cidade) Ducal alojavam as senhoras da sua predilecção, suficiente próximas para visitas frequentes e minimamente afastadas para não haver confusões… Estigmas que o tempo não apaga… razão para o título desta crónica.

Casa do Terreiro do Poço

Situada em zona central de Borba, facilmente acessível a quem entra na cidade, a Casa do Terreiro do Poço viria revelar-se a enorme surpresa desta viagem. E logo no início, uma pequena demonstração da forma como fui acolhido: o meu anfitrião aguardava-me convenientemente protegido da chuva que já há algumas horas não dava tréguas, para me ajudar a estacionar e acondicionar a moto. De imediato se disponibilizou para me recolher o fato que vinha já ensopado (mas cumpriu a sua obrigação de me deixar seco!) e colocá-lo a secar no sitio mais quente da casa, a casa das máquinas. Assim foi e no dia seguinte não só tinha o equipamento como se nada se tivesse passado como à hora de saída me entregou as luvas aquecidas!

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Somos tratados como amigos. Como família. É essa a verdadeira diferença entre a hotelaria “normal” e a possibilidade de sermos acolhidos em casas familiares, cujos proprietários fazem questão de nos fazer sentir como se em nossa casa estivéssemos. Ou melhor ainda….

A Rita e o João, os meus anfitriões brindaram-me com um acolhimento fantástico. Tal como fantástico é o trabalho que ao longo do tempo têm feito para transformar a Casa do Terreiro do Poço naquilo que é: uma série quase infindável de caxinhas de surpresas, tantas quantos os quartos – 13 – que disponibiliza.

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A Casa original data do Sec XVII (o piso térreo) tendo sido depois sucessivamente aumentada no séculos seguintes, com dois novos pisos. No último, já no Séc XIX, podemos observar nos quartos, escadaria e corredores, pinturas murais em diferentes estágios de conservação mas que têm vindo a ser recuperados com desvelo.

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Hoje, a Casa do Terreiro do Poço é constituida por outras casas contíguas que os proprietários vieram sucessivamente a agregar tendo todas elas como zona comum um frondoso páteo – quase uma pequena selva interior-  para garantir a frescura nos meses de canícula. Ao lado, um pavilhão com ampla zona de convívio fronteira à piscina.

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Devo dizer que a dado momento da visita guiada pelo João (que para lá da descrição e da história de cada pedaço, ia complementando com detalhes e curiosidades sempre interessantes e com algumas pinceladas de humor) estava completamente perdido…parece labiríntico. O que só lhe aumenta o interesse…

Cada quarto – são mais que simples quartos! – tem uma componente temática, com decoração adequada repleta de criatividade e bom gosto. Por isso, mais que um quarto, cada um é um verdadeiro cenário capaz de despertar a imaginação dos seus ocupantes tornando a estadia, de facto, memorável.

O quarto onde pernoitei:

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À medida que ia percorrendo a Casa, os quartos, uma ideia me acorreu à mente: não fotografar nem descrever os quartos (até porque na net é possivel encontrar algumas imagens). Porquê? Porque o sentimento de surpresa de cada vez que uma porta se abria e eu era transportado para um imaginário diferente do anterior merece ser destacado. Se alguém tiver curiosidade em conhecer e ficar aqui alojado, que venha de mente aberta e preparado para ser surpreendido.

Depois…bem, cada um tem a sua própria imaginação e criatividade…

Um quarto numa antiga cozinha? Uma suite dourada? Um quarto decadente? Ou um quarto étnico? …Com decorações a condizer, pois claro! E que tal uma verdadeira taberna à antiga ou uma adega? Afinal estamos em Borba…

Deve referir-se que existem quartos preparados para quem viaja com filhos pequenos, para pessoas com deficiência, para quem não se separa dos seus animais, o que só enriquece a oferta e enaltece o espírito de ir de encontro às necessidades de quem procura um local para descansar e usufruir.

E esta julgo ser a melhor homenagem que posso fazer à criatividade, perseverança, sentido estético e muito, mas mesmo muito trabalho que a Rita e o João têm dedicado à Casa do Terreiro do Paço.

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Quanto à forma como fui acolhido, já atrás o referi: como um amigo de longa data. Assim, apenas posso deixar o testemunho da minha gratidão e amizade.

De volta à estrada

Depois da visita guiada, de um convite generoso dos meus anfitriões para um jantar com um típico menú alentejano e de uma merecida noite de descanso (o dia tinha sido cansativo devido às condições meteorológicas), acordei esperançoso que a viagem de regresso pudesse ser mais seca. Esperança vã! O S. Pedro decididamente estava de costas voltadas para mim. De cada vez que subia para a moto…chuva!

Mas antes, um pequeno almoço …daqueles em que o mais dificil é conseguir abandonar a mesa. Tomado na companhia da Rita e do João, o tal espírito familiar que aqui se respira, a conversa fluiu e a estadia prolongou-se. Ainda bem, porque lá fora a coisa estava molhada! E as compotas confeccionadas pela Rita…. deliciosas!!! (ainda tenho no paladar a de tomate, uma das minhas favoritas e que era simplesmente fantástica).

À saída de Borba uma visão que nada tem de deslumbrante. A paisagem transformada pela ânsia extrativa dos mármores deta terra…

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Regressei a Vila Viçosa, desta vez para visitar o Castelo…

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…e a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, a Padroeira de Portugal tal como reza a História:

Em 25 de Março de 1646, o rei D. João IV organizou uma cerimónia solene, em Vila Viçosa, para agradecer a Nossa Senhora a restauração da independência em relação a Espanha. Foi até à igreja de Nossa Senhora da Conceição, ofereceu a coroa portuguesa a Nossa Senhora, colocando-a a seus pés proclamou-a Padroeira Portugal. O acto da proclamação alargou-se a todo o País, com o povo a celebrar, pelas ruas, entoando cânticos de júbilo.

Assim se tornou Nossa Senhora a verdadeira Soberana de Portugal, por isso, desde este dia, mais nenhum rei português usou a coroa real na cabeça, direito que passou a pertencer apenas à Nossa Senhora. Em cerimónias solenes, a coroa passou a ser colocada em cima de uma almofada, ao lado do rei. Um facto extraordinário e único no mundo.

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De Vila Viçosa rumei a Extremoz. Tinha por objectivo visitar o Castelo e percorrer algumas das suas ruas. Mas acabei por ficar pelo Rossio e ir tomar um café ao Águias d’Ouro. Recordo-me de miúdo e das viagens familiares, sempre que por aqui passava, era local de paragem obrigatória com a sempre necessária referência à arquitectura tão característica da sua fachada  sendo de realçar as enormes janelas e varandas dos pisos superiores, de estilo Arte Nova, construídas com complexas guardas de ferro com motivos geométricos e vitrais executados a verde, castanho e azul. É um sobrevivente dos antigos cafés de tertúlia portugueses de finais do século XIX, inícios do século XX, daí a sua importância sociológica, razão da sua classificação.

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Enquanto lá estive…não choveu. Adivinhem o que aconteceu quando saí?

Era altura de tomar opções: regressar de imediato a casa ou arriscar ainda uma passagem por Évora. Amigos estavam de prevenção e foi essa a escolha. Em boa hora (molhada, pois claro). Ainda não foi desta vez que percorria a EN381 que atravessa a Serra d’Ossa…com piso molhado não valia a pena. Não iria ser divertido, pelo contrário, era um risco desnecessário. Não perde pela demora!!!

Em Évora, uma volta pelas ruas do centro desta cidade monumental e cheia de vida (entre estudantes e turistas aos magotes) um almoço rápido e um bom par de horas de amena confraternização motard. Na Motodiana, obviamente! Muito obrigado pela companhia e pela amizade, Tiago e João!

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Epílogo no Cromeleque dos Almendres

Depois, a tarde já começava a avançar, era tempo de finalmente apontar ao regresso a casa. À saída de Évora, o GPS indicava um trajecto que me parecia errado. Mas resolvi obedecer…até que me recordei: tinha preparado uma visita ao Cromeleque dos Almendres. E para lá me dirigi. Apenas duas palavras: não conhecem?….Pois deviam!

O caminho faz-se primeiro por estradas municipais estreitas em razoável estado e finalmente por um troço de terra batida com 4 km. Nesse dia estava  em péssimo estado. Molhado, esburacado, com lama. Para quem não tem experiência de TT e embora a Africa Twin estivesse razoavelmente à vontade, os pneus estradistas desaconselhavam aventuras. Portanto, foi com muita calma que lá cheguei. Mas gostei da experiência de condução nestas condições.

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Como é possível que num recinto no meio de um montado tipicamente alentejano possamos sentir uma aura mística à volta de uma conjunto megalítico (mais antigo que o famoso Stonehenge inglês) milenar? Mas sente-se. Seja pelo silêncio ou pela forma como as pedras estão dispostas. Algo existe…

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Foi a forma perfeita de terminar a viagem.

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E curiosamente….a chuva parou!

Agradecimentos

Nesta viagem utilizei uma Honda Africa Twin DCT gentilmente cedida pela Honda Portugal e cuja análise está publicada aqui.

O alojamento na Casa do Terreiro do Poço foi uma cortesia dos Solares de Portugal, que me acompanham neste projecto de dar a conhecer o nosso País visitando o património arquitectónico e histórico destes solares e mansões familiares.

P’rós Amigos

Disclaimer

A partir de hoje (03.06.2019) e durante os próximos 30 dias, os Solares de Portugal oferecem um desconto de 10% nas reservas efectuadas para este destino, sendo que nesse acto deverá ser indicada a referência 6F0BD582 e mencionar que a casa visitada foi a Casa do Terreiro do Poço em Borba.

Este desconto não é acumulativo com campanhas em vigor e a reserva da estadia terá que ser feita através da CENTER promo@center.pt e tel 258 743965 e não directamente à casa.

Também o Clube de Vinhos e Sabores se associou a este périplo alentejano e apresenta um conjunto de 3 cabazes com produtos tipicos alentejanos para que possam sentir também os sabores desta rica região também do ponto de vista gastronómico.

Outros benefícios podem ser consultados na página P’rós Amigos!

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