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A Globalização começou na EN 2!

“Sacrilégio” gritam uns….”então o Bill Gates e o Steve Jobs, a World Wide Web, e essas cenas todas?
“’Tá maluco!” dizem outros, provavelmente antecipando o ensandecimento intelectual do escriba.

Vamos lá então esclarecer as coisas. Hoje o tema é História. De Portugal e de Castela. Dos Descobrimentos e do domínio do mundo. E o escriba ainda não está maluco….ainda!

E lá vem a pergunta: “e o que tem isso a ver com motos? Com a EN2? Com viagens (bem, os Descobrimentos eram viagens…sim! mas não é por aí…)?

Vamos então à história e à História!

É habitual ouvir dizer que a Globalização começou verdadeiramente com os Descobrimentos Portugueses. Um bocadinho de nacionalismo exarcebado não faz mal a ninguém….

Efectivamente, foi a partir do século XV e desta gesta heróica que um povo acantonado por um vizinho várias vezes mais poderoso de um lado e um Oceano desconhecido do outro, optou por este último (afinal, do outro lado já se sabia que nem bom vento nem bom casamento).

Com a chegada à India por Vasco da Gama, ao Brasil por Pedro Álvares Cabral e ao Extremo Oriente mais tarde (fomos os primeiros Ocidentais a chegar ao Japão e à Austrália). Não esquecer, a chegada de Colombo à América (por equívoco…) em nome dos espanhóis mas com os conhecimentos adquiridos em Portugal.

E com a viagem de circum-navegação do português Fernão de Magalhães se bem que ao serviço da coroa espanhola (e que foi concluída por Juan Sebastian Elcano) o mundo provou ser verdadeiramente redondo. Foi em 20 de Setembro de 1519 – há 501 anos – que Magalhães se fez ao mar em Sanlúcar de Barrameda…se quisermos ser “rigorosos” este foi o primeiro feito que verdadeiramente materializou a Globalização. Não só o Mundo ficou mais “pequeno” porque mais próximo, mas pela primeira vez “o Mundo” era só um! Este foi sem dúvida o começo da Globalização.

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Fernão de Magalhães

Dada esta primeira explicação, porque razão disse atrás que começou na EN2, que já agora, à data ainda nem sequer se vislumbrava a não ser nalguns eventuais troços herdados dos romanos?

Vamos à segunda explicação e temos que andar para trás no tempo: as conquistas e descobertas portuguesas, primeiro no norte de África, depois nos arquipélagos atlânticos e finalmente na costa da Guiné despertaram a cobiça dos nossos vizinhos. Sempre eles! Acabaram por seguir os nossos passos e começaram também a navegar nas mesmas águas. A coisa tinha tudo para correr mal! E correu…

Esta disputa vinha acesa desde os inícios do século de 1400, e quase no final do século a coisa já piava fininho e havia “batatada marítima”. Acresce que no último quartel do século (1 quartel=25 anos) surgiu uma disputa pelo trono de Castela (Espanha ainda não existia como tal mas viria logo a seguir porque alguns dos protagonistas são aqui precisamente os Reis Católicos que promoveram a unificação desse território).

Em 1474 morreu o rei Henrique IV de Castela. Pretendentes ao trono eram a sua filha única D. Joana que estava “prometida” ao rei de Portugal D. Afonso V e a meia-irmã, D. Isabel que estava casada com o rei de Aragão, D. Fernando. Ou seja, estava o caldo entornado! E assim foi.

Tal como era tradição, portugueses e castelhanos envolveram-se num arraial de pancadaria que extravasou para o mar (foi a chamada Guerra da Sucessão). Em terra dominavam os castelhanos (mais os aragoneses) e no mar imperavam os portugueses. Depois de muitos confrontos, finalmente acharam por bem fazer a paz, até porque o impasse não satisfazia ninguém. As negociações e o Tratado foram celebrados em 1479…há 541 anos!

Assim sendo, celebrou-se um Tratado que veio a tornar-se verdadeiramente essencial no presente e futuro de ambos os países porque trouxe a paz e resolveu a crise da sucessão em Castela, permitiu aos Reis Católicos Isabel e Fernando iniciarem o processo de união do que viria a ser a Espanha, D. Joana casou com o nosso D. Afonso V (renunciaram às aspirações ao trono de Castela através de uma adenda ao Tratado chamada Tercerias de Moura) e veio acompanhada de um portentoso dote atribuído também como indemnizações de guerra (o nosso já tradicional jeitinho para sacar uns cobres aos outros…), mas muito principalmente, definiu os limites geográficos do que no mundo conhecido e que faltava conhecer, seria para Portugal ou para os nossos vizinhos. Desde logo, a posse da Madeira, Açores para Portugal e Canárias para Castela, bem como as praças do norte de África.

Mas fundamentalmente, a determinação que abaixo do Cabo Bojador a exclusividade era portuguesa. O ouro da costa da Guiné, da Costa da Mina ou os escravos daí provenientes. Mas também tudo o que depois veio a ser descoberto: caminho marítimo para a Índia e o Brasil. E também a explicação porque Castela apostou em Cristóvão Colombo com um caminho para a Índia por Ocidente…que o levou a esbarrar na América!

Ok! E então? Alguém já por aqui começou a pensar em Tordesilhas… Errado!!! Esse foi mais tarde em 1494.

Alcaçovas1
Imagem do Tratado de Alcáçovas (ou também chamado Paz de Alcáçovas)

Em 1479 celebrou-se na vila alentejana de Alcáçovas, no Paço dos Henriques, o Tratado que leva o seu nome e que promoveu a primeira divisão do Mundo! Entre outras coisas como vimos. O Tratado foi celebrado a 4 de Setembro de 1479 e outorgado pelo Rei D. Afonso V 4 dias depois. A outorga pelos Reis de Espanha ocorreu a 6 de março de 1480…ou seja, completaram-se recentemente os 540 anos.

O Tratado de Alcáçovas foi celebrado num edifício que foi muito recentemente restaurado, o Paço dos Henriques que merece sem dúvida uma visita. E onde toda esta história está documentada e explicada. Além do mais, este Paço serviu também de residência real tendo sido palco ainda de alguns casamentos reais. Rico em História, portanto.

2 - Paço dos Henrique.jpg_3.84_jpg
Paço dos Henriques

Apenas mais alguns comentários que o texto vai longo (mas espero que interessante!).

1 - Igreja Matriz do Salvador de Alcáçovas.jpg_4.20_jpg
Igreja Matriz do Salvador de Alcáçovas

Em Alcáçovas existe uma indústria do mais tradicional que podemos encontrar em Portugal, razão pela qual foi considerada Património Cultural Imaterial da Humanidade atribuído pela UNESCO: a arte do Chocalho e a indústria chocalheira.

No Paço dos Henriques agora renovado, existe também um núcleo documental e um espaço dedicado a esta arte e está previsto que venha a ser instalado um Centro UNESCO do Património Imaterial da Humanidade.

4 - Paço Real.jpg_2.48_jpg
Paço Real de Alcáçovas

5 - Pormenor da Quinta das Conchas.jpg_3.63_jpg
Quinta das Conchas

E também assinala o facto de por lá passar a EN2.

6 - Marco simbólico dos 551km.jpg_2.85_jpg
Marco simbólico da passagem da EN2 por Alcáçovas – Km 551

Donde surgiu este nosso interesse pelas Alcáçovas?

Pois bem, quando percorremos a EN2 em Abril de 2018, vivemos aqui uma das peripécias mais curiosas da viagem e também ao visitarmos o Paço dos Henriques fomos cativados pela simplicidade do local, a excelência da renovação e a simpatia de quem nos acolheu.

Mais recentemente, a caminho de Évora, tornámos a passar por lá. Uma simpática e muito branca vila alentejana que recomendamos vivamente. E em Janeiro de 2020…novamente por lá passámos, já noite cerrada a caminho de Faro em nova passagem pela estrada mais longa (no Portugal de Fio a Pavio).

7 - Andar de moto, uma estrada e um banco de jardim....jpg_5.52_jpg
Alcáçovas – primeira vez

20190112_132958.jpg_4.76_jpg
Alcáçovas – segunda vez

E fica logo ali, ao Virar da Esquina, no quilómetro 551 da EN2!

Já perceberam o título desta crónica?

Referências:

– a história do Portugal de Fio a Pavio

– a viagem pela EN2 – de cima a baixo

Viagens ao Virar da Esquina no Facebook

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