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“- Romeiro, Romeiro, quem és tu?… ” “- Ninguém!”

Uma viagem na qual a chegada é (quase) o ponto de partida e onde a paisagem e as memórias se vão cruzando no nosso caminho…

Este é, de certeza, o diálogo mais conhecido da literatura portuguesa. Poucos de nós teremos escapado ao Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett nos bancos da escola. Já agora, Almeida Garrett que terá escrito o primeiro livro de viagens (se não contarmos com os cronistas da época dos descobrimentos): “Viagens na Minha Terra”.

 O “Frei…” passa-se por volta de 1600 e o Romeiro é D. João de Portugal, nobre cavaleiro que acompanhou D. Sebastião na tragédia de Alcácer-Quibir mas que, contrariamente a El-Rei, em vez de morrer ficou cativeiro por mais de 20 anos. Ao regressar não quis logo identificar-se porque tal poderia por em causa a resistência que existia ao domínio dos reis espanhóis.

Este pedaço da trama passa-se no que fora o seu palácio, situado em Almada. Essa Almada que naquela época estava separada de Lisboa por 1 quilómetro de rio (como hoje aliás….) mas muito mais no ambiente. Deste lado do rio respiravam-se os ares do nacionalismo português e o ar puro de terras mais saudáveis. Do lado de lá ficavam os espanhóis que governavam, os portugueses que ajudavam e, acima de tudo, uma população dizimada pela peste.

 Mas isto, perguntarão, vem a que propósito?

 Porque a viagem desta vez começa em Almada, mais propriamente em Cacilhas. Mesmo em frente de Lisboa, logo ali…com o Rio Tejo de premeio. É aqui que, de acordo com o Plano Rodoviário de 1945, começa a 10ª estrada do País pela sua importância: a EN10.

Estradas nacionais 1 a 10
PRN45 – as 10 principais estradas

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Cacilhas – Início da EN10

Esta é uma estrada que, desde o início é atípica. Não se estica a longo de um pedaço do território. Mais propriamente circunda-o. Afinal, o seu principio deixa Lisboa para trás para no final…voltar a entrar na capital! Nem sempre assim foi, mas isso veremos adiante.

 Como estrada propriamente dita, é desinteressante. O seu traçado tem pouco para dar prazer a quem conduz. Ora porque em parte muito significativa é urbano ou sub-urbano, com demasiado tráfego, ora porque nas partes em que atravessa uma paisagem mais rural, nem aí se torna desafiante (mas carece de muita atenção!).

 Então porquê falar dela? Em primeiro lugar porque sempre achei interessante ir a caminho de Lisboa, proveniente de Setúbal pela EN 10 e ouvir na rádio que havia engarrafamentos em Sacavém a chegar a Lisboa…também na EN10! Mas principalmente porque há sua volta existem imensos pontos de interesse e que nos testemunham muito da nossa História, principalmente da mais recente. Portanto vamos lá!

 De Cacilhas à Arrábida

 Cacilhas fica mesmo defronte de Lisboa. Aqui, muita gente toma o barco para ir para os seus empregos na capital. Tempos houve (recordo-me lá muito ao longe) em que se formavam longas filas para fazer esta travessia nos ferrys que transportavam viaturas. Era a única forma de lá chegar porque só em 1966 foi inaugurada a então Ponte Salazar e hoje 25 de Abril. Até aí, era o barco ou dar a volta por Vila Franca de Xira (pela EN10…). E, isto só depois de 1951…altura em que aí foi construída a Ponte Marechal Carmona, porque antes era em Santarém que se atravessava!

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Lisboa logo ali

4 - Farol de Cacilhas.jpg_6.52_jpgFarol de Cacilhas

Logo ali ao lado fica o núcleo museológico da Marinha Portuguesa com o submarino Barracuda e a fragata D. Fernando e Glória em docas secas. O submarino que esteve no activo até 2013 depois de 40 anos ao serviço e aquela que é a 4ª mais antiga fragata de guerra no mundo, o último navio inteiramente à vela da nossa Marinha (ao serviço entre 1845 e 1878).

5.3 - Barracuda e D. Fernando e Glória
Barracuda e D. Fernando e Glória

5.1 - Barracuda e D. Fernando e Glória
Submarino Barracuda

5.2 - Barracuda e D. Fernando e Glória
Fragata D. Fernando e Glória

Assim que deixamos a beira rio para trás, confrontamo-nos com o imponente pórtico da Lisnave. Entramos numa parte importante daquilo que há 40 anos era chamada de Cintura Industrial de Lisboa (veremos outra parte dela, ao chegar, entre Vila Franca e Sacavém). Hoje são ruínas, mas nessa altura (décadas de 60 e 70 do século passado) muita da riqueza produzida em Portugal vinha daqui.

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Pórtico da Doca Seca da Lisnave

Os estaleiros navais da Margueira – a Lisnave – possuíam a maior doca seca do mundo e tinham um protagonismo importante em todo o comércio petrolífero porque era aqui que os gigantescos petroleiros vinham fazer manutenção quando regressavam vazios às arábias para novos carregamentos. Só na Lisnave chegaram a trabalhar 10 mil pessoas. E naturalmente todas as indústrias mais pequenas que lhe davam apoio.

 A EN10 percorria-as e era a artéria fundamental de circulação. Mais longe, na mesma margem mas separada por braços de rio, ficava a enorme Companhia União Fabril – a CUF- um dos maiores aglomerados industriais da Europa, situada no Barreiro.

 No meio, nesses braços de rio, ficavam algumas das mais importantes Fábricas de Seca de Bacalhau. Acolhiam os barcos da importante frota bacalhoeira portuguesa que pescavam o “fiel amigo” nos mares da Terra Nova. Aqui era secado e salgado o bacalhau que depois seguia para a mesa dos portugueses.

 Saímos por momentos da EN10. Uma das mais importantes era a da Companhia Atlântica de Pesca. Situada mesmo defronte do Seixal, junto à Ponta dos Corvos, está hoje em ruínas mas que nos permitem vislumbrar como era esse processo.

7.1- a caminho da Ponta dos Corvos
A caminho da Ponta dos Corvos

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Ponta dos Corvos

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Companhia Atlântica – edifício principal

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Companhia Atlântica – vista geral

10 - Atlântica - suportes para a seca do bacalhau.jpg_8.72_jpg
Companhia Atlântica – suportes para a seca do bacalhau

10.1 - Atlantica
Companhia Atlântica – ruinas dos edificios da fábrica

10.2 Atlantica
Companhia Atlântica – edifício principal

10.3 Atlantica
Companhia Atlântica – vista para a Baía do Seixal

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Companhia Atlântica – vigia

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Companhia Atlântica – Seixal defronte

O regresso à EN10, dá-nos oportunidade para visitar o Moinho de Marés de Corroios.

Edifício bonito e bem recuperado, permite-nos perceber como eram antigamente processados – moídos – os cereais que alimentavam a população de Lisboa. A geografia e o conhecimento ancestral do fenómeno das marés jogam aqui – e nos mais de 40 moinhos que populavam a margem esquerda do Tejo – um papel fundamental. Os cereais provenientes do Alentejo – o antigo Celeiro de Portugal – chegavam às margens do Tejo (e também do Sado – mais tarde visitaremos um outro moinho com estas características na margem direita deste rio).

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Moinho de Marés de Corroios

13.1 - Moinho de Marés de Corroios
Moinho de Marés de Corroios

Margens planas, de sapais, facilmente alagáveis pela subida das águas do rio aqui ainda muito influenciadas pelo efeito das marés. Uma comporta de 2 toneladas, fica aberta quando a água sobe. No pleno da maré alta, reservatório cheio, as comportas fecham e a água passa a correr por baixo do moinho acompanhando o esvaziar da maré e pondo a rodar as pesadas mós que irão transformar em farinha os diferentes cereais: aveia, trigo, milho, arroz, paínço.

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Moinho de Marés de Corroios – interior

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Moinho de Marés de Corroios – Interior

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Moinho de Marés de Corroios – Interior

No interior do Moinho de Marés de Corroios podemos vislumbrar todo esse processo pois o seu interior está belissimamente recuperado e assim permite testemunhar como as coisas se faziam antigamente. E digo antigamente porque este moinho foi construído em 1406! Isso mesmo…há 614 anos!!! Merece uma visita, digo-vos.

 De regresso à EN10, passamos os nós de acesso à autoestrada que nos leva à Ponte 25 de Abril ou a caminho do Algarve, no Fogueteiro e dirigimo-nos a Azeitão. Até aqui, a EN10 é essencialmente urbana, sendo que na maioria do percurso assume denominações de ruas ou avenidas, conforme as localidades atravessadas.

Por alturas de Coina, uma peculiar construção chama a atenção.

Trata-se da Torre de Coina mas mais conhecida como Palácio do Rei do Lixo ou também como Palácio da Bruxa! Abandonado e a caminho da ruína, algumas histórias se contam sobre o que teria levado alguém a construir ali algo assim.

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Palácio do Rei do Lixo

Segundo consta, a propriedade pertenceria desde o Séc XIX a um comerciante de Santo António da Charneca chamado Manuel Martins Gomes Júnior. E em 1910 terá mandado construir o inusitado edifício com uma torre altaneira cujo objectivo seria conseguir avistar a propriedade que possuía em Alcácer do Sal. Algo difícil, diria eu….

Este senhor teria o epíteto de “Rei do Lixo” por ter o exclusivo da recolha dos detritos da cidade Lisboa, tendo tido no lixo a origem da sua fortuna. Profundamente ateu e anti-monárquico, chamou à propriedade “Quinta do Inferno” e à curiosa edificação “Torre do Diabo”.

Conta-se também que as fragatas que adaptou para o transporte do lixo terão sido baptizadas com nomes curiosos: Mafarrico, Mefistóteles, Demo, Diabo, Satanás, Belzebú, e outros do mesmo jaez. Curiosa personagem esta!

À aproximação de Azeitão – a silhueta da Arrábida há muito que está no horizonte visual – a mente começa a ter uns pensamentos pecaminosos. Pelo menos para quem gosta de Moscatel e Tortas de Azeitão. É o caso!

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Entrada de V. Nogueira de Azeitão

Mas Azeitão (que é mais que uma única terra, porque temos os Brejos, a Vila Nogueira, a Vila Fresca) tem muito mais que isso. As caves de José Maria da Fonseca são uma visita que se recomenda fortemente. Bem como as da Bacalhôa e cuja visita inclui também o Palácio do Séc. XVI, que lhe leva o nome, e os seus jardins.

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Bacalhôa

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Bacalhôa

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V.N.Azeitão – Palácio dos Duques de Aveiro

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V.N.Azeitão – Fonte dos Pasmados

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V.N.Azeitão – José Maria da Fonseca

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V.N.Azeitão – JMF – Pipas de Moscatel “primeiros meses”

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V.N.Azeitão – JMF – garrafeira privada (interior)

26 - Vila Fresca de Azeitão - Recordação d’ “Os Belos - Transportadora Setubalense”.jpg_7.16_jpg
V.N.Azeitão – Evocação da Transportadora Setubalense – Os Belos

Avancemos pela EN10.

Em Azeitão, deixamos a orientação Norte-Sul e viramos para nascente. O destino é Setúbal depois de atravessarmos uma pequena parte da Arrábida conhecida por Necessidades.

Do Fogueteiro até Azeitão, o percurso tem características sub-urbanas. Acesso a algumas localidades que lhe ficam à margem bem como cruzamentos que nos podem levar a outras paragens, como sejam Sesimbra e a zona das praias, ou o Barreiro e a margem do Tejo que já deixámos para trás. Daqui para a frente, com a excepção da zona da capital do Sado, o trajecto é mais rural.

O nosso objectivo é a EN10 pelo que a passagem por Setúbal é breve. Pouco mais que a travessia da cidade. E esse pouco mais é uma visita à Fortaleza de S. Filipe. Temos assim uma visão privilegiada do maravilhoso enquadramento paisagístico da cidade, com o estuário do Sado e a península de Tróia em frente.

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Setúbal – panorâmica

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Sado e Península de Tróia

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Setúbal – Fortaleza de S. Filipe – pormenor

Pouco depois de Setúbal, visitámos um outro Moinho de Marés. Desta feita o das Mouriscas, situado na margem direita do Sado e cujo interior está excelentemente recuperado.

Tal como no de Corroios podemos ver o modo de funcionamento e a forma como bastantes séculos atrás já a energia proveniente da natureza era aproveitada em proveito do homem. Neste caso, temos também um pequeno e simpático bar com esplanada que permite bons momentos de descanso e de usufruto pleno da natureza. Daqui saem caminhadas pelos sapais do Sado. Interessante para quem gosta deste género de actividade.

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Moinho de Marés de Mouricas

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Moinho de Marés de Mouricas – bar e esplanada

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Moinho de Marés de Mouricas – pormenor do engenho

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Moinho de Marés de Mouricas – comporta

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Moinho de Marés de Mouricas – pormenor do interior

35 - Moinho de Marés de Mouriscas - cereais.jpg_6.85_jpgDaqui saídos, continuamos pela nossa estrada e no sentido nascente. Pouco à frente do km 50 vamos mudar o sentido da marcha. Em Águas de Moura, no cruzamento da Marateca, vamos rumar a norte.

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EN10 – km 50

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EN10 – A partir daqui, rumo a norte

 

Da Marateca até ao Cabo

 A paisagem é tipicamente agrícola. A paragem seguinte vai ser em Pegões. E aqui, saímos da EN10 e viramos à esquerda pela EN4 (direcção Montijo). A antiga Estrada Real que une ainda hoje, o Montijo a Badajoz. Vamos até Santo Isidro de Pegões (a antiga freguesia cuja sede é a aldeia de Pegões Velhos) .

Nos anos 50 do século passado, o Governo de então lançou um projecto através da Junta de Colonização Interna (o léxico da época…) para desenvolver uma vasta zona de terrenos agrícolas através da concessão de parcelas a agricultores (os colonos) que as quisessem cultivar e desenvolver.

A Herdade de Pegões, que contava com uma área de 4700 hectares, foi então dividida em três núcleos, Pegões Velhos, Faias e Figueiras.

Em cada um deles foram construídos casais agrícolas com uma área média de dezoito hectares, dotados de habitação (moradia unifamiliar) e instalações agrícolas (silos, estábulos, pocilgas e nitreiras), beneficiando ainda de sistemas de captação de águas subterrâneas e de superfície (33 km de rede de rega para 240 hectares de regadio, duas barragens e vários furos artesianos). A cada casal correspondiam onze hectares de sequeiro, quatro de vinha, um de regadio e dois de pinhal, tendo ainda direito, por parte da Junta de Colonização, a uma vaca, uma vitela, uma égua, uma carroça com alfaias e um empréstimo de seis mil escudos. Estas facilidades levaram a que, a partir de 1952, cinco anos após o início das obras de transformação da herdade, 206 colonos e respectivas famílias ali se fixassem.

 Os três núcleos contavam ainda com outras infraestruturas, a saber, escolas primárias, centros de convívio, 3 centros sociais de apoio à infância e postos médicos, igreja em Pegões Velhos e nas Faias, cemitério, 3 centros de assistência técnica, casas para os técnicos residentes e uma Pousada para o pessoal técnico exterior.

As moradias e demais estruturas de apoio tinham uma arquitectura característica de inspiração rural. Em contraste, o conjunto de edifícios constituído pela Igreja de Santo Isidro, pelas casas do pároco e professoras e pelas duas escolas do núcleo de Pegões Velhos, sobressaem pelo traço modernista e muito peculiar.

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Igreja de S. Isidro de Pegões

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Igreja de S. Isidro de Pegões

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Igreja de S. Isidro de Pegões

Depois da visita, regressamos à nossa EN10. Aqui, os quilómetros desfilam à nossa frente, rodeados de pinhais e uma ou outra exploração agrícola.

À aproximação a Samora Correia, a paisagem começa a mudar novamente. Nota-se pelo tráfego, pelo cruzar de outras vias importantes, pelos muitos armazéns e algum comércio que bordeja a estrada. Um Burguer King à direita e um McDonald’s à esquerda confirmam….

À saída do Porto Alto, duas notas de relevo: entramos claramente na zona da lezíria do Tejo e aqui se inicia a muito conhecida (pelo menos de quem ouve as notícias de trânsito) Recta do Cabo. Depois de vermos à nossa esquerda a curiosa pose da Ermida de S. José, colocada como que num pedestal e que se deve ao facto de esta ser zona frequentemente invadida pelas cheias do Tejo, passamos pela ruína de um antigo ex-líbris desta estrada: a Estalagem do Gado Bravo. Local famoso e elitista de há algumas décadas é agora um miserável edifício à espera da ruína final.

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Estalagem do Gado Bravo

Como o nome indica, o percurso é aqui uma longa recta, com tráfego intenso e que sempre recomenda cautelas adicionais, até por ter alguns caminhos de serventia local que nela desaguam. Vamos terminar, precisamente no sitio que lhe dá o nome: o Cabo.

Até 1951, aqui terminava a EN10. A passagem para a outra margem fazia-se por barcaças que se adaptavam quer ao transporte de pessoas, quer de veículos com a ajuda de umas pranchas. E, à noite, faziam ainda o transporte do gado que, a pé e acompanhado por homens a cavalo, fazia o percurso de Vila Franca até ao matadouro de Lisboa. Estas barcaças tinham o nome carinhoso de “Gasolinos”.

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Cabo – cais de embarque

Convém referir que até à inauguração da bonita e à época grandiosa Ponte Marechal Carmona (teve a primeira portagem existente em Portugal, que foi desactivada quando finalmente a ponte ficou integralmente paga!), a única travessia do Tejo por ponte, situava-se cerca de 60km a montante, em Santarém.

42 - Cabo - Ponte Marechal Carmona e Vila Franca.jpg_7.55_jpg
Cabo – Ponte Marechal Carmona e Vila Franca

Importava agora, regressar um pouco atrás, ao ponto em que a recta inflete ligeiramente à direita e aponta ao tabuleiro da Ponte Marechal Carmona ou Ponte de Vila Franca como também é conhecida.

A EN10 pela margem direita do Tejo

 Em Vila Franca fizemos o mesmo que em Setúbal. procurámos um local onde desfrutássemos de uma vista panorâmica. Desta feita, uma visita ao Miradouro do Monte Gordo. Daqui temos uma fabulosa vista. De Vila Franca, da Ponte, da Lezíria e…muito mais além. É um dos sítios em que conseguimos perceber a curvatura da Terra. Merece definitivamente uma visita! Nunca o fiz, mas tenho o palpite que será um local extraordinário para ver um nascer do sol…

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Monte Gordo – Panorâmica de Vila Franca de Xira

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Monte Gordo – o Tejo a caminho da Foz

Daqui para a frente, o percurso da EN10 é completamente urbano. As localidades sucedem-se ao ponto de lhes perder o fio à meada. Alhandra, Sobralinho, Alverca, Santa Iria…..até Sacavém.

Regressamos à Cintura Industrial de Lisboa que mencionei atrás. Daqui até Lisboa iremos passar por muitas instalações industriais abandonadas e à beira da ruína. Memórias tristes de um passado que não sobreviveu até aos dias de hoje.

O final aproxima-se, mas ainda havia algumas coisas a merecer visita.

À saída de Alverca, viramos à direita e seguimos as placas que indicam um monumento aos Heróis das Linhas de Torres. Surpreendente! Num miradouro com vista para o Tejo, um pedestal imponente que culmina numa magnífica estátua de Hércules. A simbolizar o feito destes heróis que derrotaram a terceira invasão francesa.

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Monumento aos Heróis das Linhas de Torres

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Alhandra – Vista do miradouro do Monumento

De regresso à EN10, pouco à frente, novamente à direita, subimos ao Sobralinho e temos um magnífico Palácio com frondoso jardim. Recordemo-nos que nos Séc XVIII e XIX toda esta zona estava povoada por quintas reais ou da nobreza, que aqui passavam os seus períodos de férias e de lazer, entre festas e caçadas.

Esta é uma delas, tendo pertencido aos Duques de Terceira. É agora património municipal.

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Palácio dp Sobralinho

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Palácio dp Sobralinho

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Palácio dp Sobralinho

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Palácio dp Sobralinho

Um pouco abaixo, uma torre de relógio. Sem grande valor arquitectónico mas com uma presença interessante no largo central.

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Sobralinho – Torre do Relógio

Novamente na nossa estrada, pouco mais à frente, desta vez do lado esquerdo fica outro ponto de interesse. Junto à base aérea de Alverca, temos o pólo do Museu do Ar.

Espólio interessante do passado da nossa Força Aérea. Se os aparelhos guardados em hangar aparentam estar cuidados e recuperados na sua nova função de nos mostrar o passado dos ases da aviação, já as 3 aeronaves colocadas cá fora à entrada e um pouco mais de atenção pois estão com uma aparência algo decrépita.

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Alverca – Museu do Ar

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Alverca – Aviões…

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Alverca – Museu do Ar – interior

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Alverca – Museu do Ar – interior

Regresso à EN10. Na Póvoa de Santa Iria, novamente do lado direito, subimos um pouco até ao Castelo de Pirescoxe. É uma ruina de um pequenino castelo, mas que está muito bem aproveitada, pois tem no seu interior uma esplanada com um bar que permite usufruir de um local muito aprazível e com um enquadramento peculiar. Ao seu redor, um relvado bem arranjado dá um toque cuidado a este pacato recanto.

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Castelo de Pirescoxe

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Castelo de Pirescoxe

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Castelo de Pirescoxe

E pronto, a viagem está quase a chegar ao fim. Chegamos a Sacavém.

 Antes de terminar, um olhar ao curioso Forte de Sacavém (cuja visita apenas é permitida em breves ocasiões, julgo que por estar ainda em utilização como arquivo militar). Tem a estranha característica de ser um forte subterrâneo e o seu interior desce até ao Rio Trancão. Ficam as imagens do exterior, com um largo fosso à sua volta e do túnel de acesso a partir da Porta de Armas.

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Forte de Sacavém

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Forte de Sacavém – Porta de Armas

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Forte de Sacavém – interior

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Forte de Sacavem – Fosso

Um pouco abaixo, junto ao Trancão, a enorme chaminé que resta da antiga Fábrica de Loiças de Sacavém, talvez a merecer melhor cuidado e mais protecção face ao crescimento imobiliário.

63 - Sacavém - Chaminé - Fábrica de Loiças.jpg_6.00_jpg
Sacavém – Chaminé – Fábrica de Loiças

Daqui subimos a Avenida Estado da Índia que coincide precisamente com o último troço da Estrada Nacional 10 e que termina na rotunda que nos permite aceder ao interior de Sacavém antigo, ou, para o outro lado, os acessos a Lisboa.

64 - Sacavém - Aqui termina a EN10.jpg_7.88_jpg
Sacavém – Aqui termina a EN10

De Lisboa saímos, a Lisboa chegámos, pela Estrada Nacional 10.

Nesta que foi a mais à esquina das Viagens ao Virar da Esquina!

EN10
Estrada Nacional 10 – De Cacilhas a Sacavém
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