O MAFARRICO DEIXOU A PORTA ABERTA

Esperava ser recebido pelo Mafarrico.
Afinal, o Diabo é personagem integrante do imaginário do Inferno. Sendo o locatário da coisa, deveria estar à nossa espera.
Mas nada!…

Tal como a generalidade dos vertebrados, temos um chassis a que chamamos esqueleto e à volta deste, para lhe dar as formas que nos caracterizam, uma camada variável de chicha! O que nos diferencia dos restantes e torna únicos é o lado espiritual: o raciocínio, os sentimentos e aquilo a que alguns chamam “alma”.

Quando a parte física e a espiritual se separam, geralmente por fadiga do material ou outra razão ponderosa, aquela é remetida para as cinzas e a alma inicia um novo percurso: vai fazer um estágio não remunerado por tempo indeterminado numa instituição chamada Purgatório que, como o nome indica, a liberta de impurezas.

No final, submete-se a um exame final de admissão. Se aprovada, sobe aos Céu. Se reprova desce ao Inferno! Algumas há que nunca chegam ao exame, vá-se lá saber porquê…são as chamadas almas penadas!

E o meu ponto é este: se por tradição se diz que se “desce ao Inferno”, porque razão nesta viagem, para chegar à entrada do Inferno é preciso subir?

(Atenção: era apenas uma visita para ver as vistas…. nada de mais definitivo, embora a dado passo a coisa não tenha sido fácil, como explicarei).

O facto é que subimos até ao Portal do Inferno. E não é que estava aberto? O Mafarrico, que seria suposto ser o porteiro, baldou-se!

Entrámos…. mas, já vos conto o resto mais adiante, porque até aqui chegar ainda houve caminho a fazer.

O aquecimento: do Caramulo a São Pedro do Sul

A manhã ia adiantada quando saímos do Caramulo. Na crónica anterior – “Fui visitar a D. Elvira” contei-vos a história do trajecto até aqui. E agora, seríamos apenas dois a prosseguir viagem.

O objectivo era, para já, chegar a S. Pedro do Sul. Saindo da vila do Caramulo continuámos a subir a serra pela EN230.

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Serra do Caramulo – Pormenor da estrada

Pouco depois, já a descer, toponímia curiosa – Monteteso – indicava-nos que pouco mais à frente teríamos que virar à direita e seguir por estradas municipais – as CM 1285 e 1310 – que nos levariam a passar pela Torre Medieval de Alcofra. 

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Pormenor toponímico…
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Serra do Caramulo
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Torre Medieval de Alcofra

Depois, já pela M619 passámos em Vilharigues e pela EN 333 chegámos a Vouzela.

Foi aí que o Zé disse de sua justiça:

” – Vouzela! Temos que ir provar os pastéis de Vouzela….”

Perguntei:

” – O que são?”

Resposta imediata:

”-São como os de Tentúgal…mas melhores!”

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Igreja Matriz de Vouzela
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Vouzela

Não quero ofender ninguém de Tentúgal, até porque não tinha ali nenhum para fazer a comparação imediata. Mas que são óptimos os pastéis de Vouzela isso é inegável. E justificaram a breve paragem. Lá teremos que ir a Tentúgal um destes dias, para tirar a prova dos nove…

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Vouzela

Seguiu-se S. Pedro do Sul onde chegámos pela EN16. A cidade merece visita pormenorizada, até porque o seu passado histórico é bem evidente no balneário termal construído no ano 1 da nossa era pelos Romanos. E que foi sendo sucessivamente utilizado desde há 2.000 anos. É exemplar único. A última vez que por aqui passei, ainda a actual cidade era vila. E mais pequena… De passagem, pudemos ver que está bem arranjada, que tem muito movimento e que terá certamente boa qualidade de vida.

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Antigo edifício das Termas de S. Pedro do Sul

Mas o nosso destino não era uma cura de águas mas sim a visita ao Inferno. E a demanda começou mesmo à saída da cidade.

Começa a subida até ao Inferno!

S. Pedro do Sul é atravessada pela EN 16. À saída viramos à esquerda pela Avenida da Ponte tomamos o rumo da EN227…e começamos a subir em direcção à Serra da Arada. Por enquanto, a estrada ainda é larga, com algum trânsito. Mas…rapidamente chegamos à rotunda que nos manda virará direita para a R326, E aqui começa de verdade a subida. Passamos Sá e entramos na CM1123. A estrada que nos vai conduzir até ao Portal do Inferno.

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Igreja de Sá

A estrada estreita bastante, com vegetação à volta, predominantemente eucaliptal (ups…já percebo porque razão há por ali tantos incêndios). Ainda assim o verde é “sol de pouca dura” porque depois de uma curva da estrada vislumbramos o maciço da serra. E esta é completamente careca!

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Inicio do caminho para a Serra da Arada

E aqui deixo uma nota pessoal: desde há alguns anos que padeço de episódios de forte ansiedade quando estou próximo de precipícios ou declives acentuados. Não são vertigens nem a “atração do abismo” mas chego ao ponto de ficar bloqueado. É evidente que tento controlar a ansiedade e acima de tudo não deixar de fazer o que quero fazer. Mas o esforço é grande, acreditem.

Por esta razão, subir uma estrada de montanha em que esta está rodeada de arvoredo e vegetação ou, ao contrário, nada havendo que me evite a visão do declive é totalmente diferente. E isto independentemente da inclinação ou sinuosidade do traçado. Quando, olhei em frente e vi o que me esperava tive plena consciência que ia ser duro. A luta comigo próprio seria exigente. Mais do que o esperado….

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Subindo a Serra da Arada

O caminho faz-se em frente e assim avançámos. À medida que subimos o panorama crescia à frente dos nossos olhos e a fronteira do horizonte era cada vez mais longínqua: serranias e mais serranias. Por aquelas zonas, dá a sensação que mão poderosa amarfanhou o terreno, porque planície é coisa que não há.

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Serra da Arada- em frente para onde vamos à direita de onde vimos

Actualmente, ribeiro sem passadiço e miradouro sem baloiço é coisa que não existe. Como aqui. Ainda não tínhamos parado de subir e num gancho à esquerda lá está, do outro lado da estrada um improvisado miradouro – um pedaço de terreno plano com uma vista magnífica – e o inevitável baloiço.

Parámos!

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Miradouro e baloiço

Balancé para cá, balancé para lá, fotos para mais tarde recordar e siga a viagem.

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Balancé, balancé…
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As motos e a vista!
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Uma preciosidade que vinha a descer a serra…
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Vista do miradouro do baloiço

Pouco depois, a maior pendente da subida: 27%. As características da estrada mantiveram-se: estreita, muito sinuosa, com raras protecções nas bermas quase inexistentes e sem marcações, com um piso bastante rugoso mas em estado razoável e sem armadilhas.

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A subida continua
No Portal do Inferno

Rondávamos os 1.000 m. E foi a essa altitude que encontrámos o Portal do Inferno. Subimos para “descer ao Inferno”. A vida tem destas contradições! Desde S. Pedro do Sul tínhamos percorrido 20 km.

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O caminho é por ali…
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Rumo ao Inferno…

Esperava ser recebido pelo Mafarrico. Afinal, o Diabo é personagem integrante do imaginário do Inferno. Sendo o locatário da coisa, deveria estar à nossa espera. Mas nada! Assim, só nos restava seguir por este caminho – M567 – que dizem ser infernal.

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Começa o Portal do Inferno

A parte inicial segue por um pequeno planalto. À nossa frente percebemos a existência de um vale e logo depois, a marcar a linha do horizonte, a Serra de S. Macário.

As curvas continuam e seguimos pela linha das cumeadas dos montes.

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Os primeiros passos no Portal do Inferno
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Pelas cumeadas dos montes

De vez em quando, uma depressão. Lá vai uma descida e mais umas curvas. Logo a seguir, sobe-se e mais curvas.

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Portal do Inferno

A altitude continua a rondar os 1.000 m e andamos pelos cumes da serra. Sem vegetação, vemos bem o que nos espera se houver uma distracção.

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Portal do Inferno

 Mas também vemos ao longe, ora a Serra da Freita, ora a de S. Macário. Afinal todas fazem parte do mesmo conjunto.

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Portal do Inferno

O percurso do Portal do Inferno (entre as placas que o assinalam) tem cerca de 9 quilómetros – desde o cruzamento para S. Macário até ao cruzamento para Regoufe – e é uma sequência de sobe e desce constante, de curta duração cada um, mas em que encontramos por vezes pendentes bastante acentuadas.

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A provação tinha terminado. Do Mafarrico nem sombras…

Mais ou menos a meio, quando estamos próximos de Drave – uma aldeia abandonada situada à cota dos 650 m – encontramos as pendentes máximas: cerca de 27% ascendente e aproximadamente 35% descendente! São pequenos troços mas ainda assim a justificarem muita atenção….até porque a paisagem também merece ser contemplada.

Do Inferno ao Paraíso (leia-se, uma Posta Arouquesa)

Chegados ao final, restava-nos optar: ou à direita, pela encosta da Serra de S.Macário em direcção a Janarde e assim seguiríamos no mesmo registo até Castro Daire, ou em frente, até Arouca onde nos esperava uma belíssima Posta Arouquesa. Atendendo ao adiantado da hora….seguimos em frente!

Mas até Arouca, pela M510 – ainda tínhamos bastante “mão de obra” porque à medida que descíamos, a paisagem também mudava, agora já bastante arborizada e verdejante e a estrada passava a ser muito mais sinuosa, com curvas e contra-curvas sucessivas.

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Começamos a descer

Passámos em Ponte de Telhe, com uma vista paradisíaca e pouco depois, estávamos em Arouca.

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Ponte de Telhe

Lançámo-nos à Posta como se não houvesse amanhã.

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Reabastecimento com a Posta Arouquesa

Nesta altura estávamos ainda bem longe do nosso destino! E o cansaço (no meu caso, aumentado pelo motivo atrás referido) destes cerca de 60 km pela Serra da Arada e também um pedaço da Freita, justificavam a paragem. 

A caminho de Castro Daire

Depois de reabastecermos as máquinas e consolarmos o estômago, fizemo-nos novamente à estrada. Seguimos pela R326-1 até Alvarenga (cerca de 20 km), a auto denominada Capital do Mundo (uma história curiosa: parece que nos anos 60 do século passado, um grupo de jovens da terra mas que viviam no Brasil veio aqui passar férias. Como jovens portugueses, estavam abrangidos pelo recrutamento obrigatório devido à guerra colonial. Restava-lhes uma de duas opções: ficar e serem recrutados ou regressarem rapidamente ao Brasil. Escolheram esta última, não sem antes inscreverem a expressão “Capital do Mundo” nas placas toponímicas da terra. Que assim ficaram…). Esta é  uma estrada bastante sinuosa e interessante não fosse ter imensa procura: é por ela que se acede aos famosíssimos Passadiços do Paiva e à nova Ponte Suspensa que dizem ser a maior do mundo (esta nossa mania de termos que ser os maiores do mundo…em minudências!).

E se a moda dos passadiços alastrou (já falei dos baloiços…) prevejo que em breve teremos pontes suspensas um pouco por todo o lado…

Em Alvarenga fizemos nossa a EN225.

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EN225

Recomendo vivamente esta estrada (que começa em Castelo de Paiva), nos 40 km que vão de Alvarenga até Castro Daire. Lindíssima pelo enquadramento paisagístico, com recantos com quedas de água e divertidas sequências de curvas que acompanham em largos momentos o curso do Rio Paiva.

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Queda de água – EN225

Peca apenas pelo estado do piso. Descuidado e certamente negligenciado por quem dele é responsável (nada de novo, infelizmente).

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EN225
A caminho do final da jornada

Já os restantes 20 km que percorremos na EN225, até Vila Nova de Paiva, são o contrário: bom piso e estrada “a direito”. Pouco interessantes e sem história. Aqui já a decisão estava tomada: o final da jornada seria em Fornos de Algodres.

Pelo caminho ainda uma breve paragem em Penalva do Castelo – do Castelo nem sombra… – e foi seguir viagem que a hora ia adiantada e já nos aguardavam para o merecido jantar.

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Penalva do Castelo

Termino com uma recomendação: o Solar dos Cáceres em Casal Vasco – Fornos de Algodres. Excelentes condições, onde o velho solar está enquadrado por moderna arquitectura e uma convidativa piscina com a envolvente do espaço verde que a rodeia, tudo condimentado com a simpatia no acolhimento que nos deixa vontade de voltar.

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Solar dos Cáceres
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Solar dos Cáceres- Piscina
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Fontanário em Casal Vasco

Este percurso que fizemos não era o inicialmente planeado. Mas uma das características de um bom plano é o poder ser adaptado à realidade do momento. De facto, optámos pela Posta Arouquesa em vez de continuar pelo caminho serrano. O desvio a Penedono e Sernancelhe ficou para melhor oportunidade…até porque o tempo não seria suficiente.

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Em ordem de marcha…

Chegámos ao final, com plena satisfação sobre as opções tomadas. E fartinhos (não exageremos…cansados sim, fartos não!) de curvas. De tal forma que no dia seguinte…. a D. Estrela acolheu-nos!

Mas essa é outra história…ao virar da esquina.

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Fornos de Algodres
Agradecimentos

Para lá dos meus amigos e companheiros desta e de outras viagens, o Jaime Fernandes e o José Serra, quero deixar um especial reconhecimento ao Jorge Casais. Não nos conhecemos pessoalmente mas vamo-nos acompanhando nas nossas deambulações mototurísticas.

O Jorge será uma das pessoas que mais e melhor conhece as estradas, estradinhas e caminhos desta nossa terra (de certeza melhor que as Infraestruturas de Portugal…). A ele recorri e das suas sugestões nasceu uma grande parte do caminho feito (outras ficaram em carteira à espera de nova oportunidade). Por isso o reconhecimento e um grande bem haja! Sigam-no aqui: Rides in my country and also beyond borders

(este texto agora revisto, foi originalmente publicado no #39 da revista Andar de Moto – Agosto/21)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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