As minhas histórias…

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O que é (Estrada) Nacional é bom!

O título soa a cliché mas o aproveitamento da célebre frase publicitária das bolachas e massas revela-se aqui bem verdadeiro.

A paixão assolapada pelo asfalto de um número significativo dos governantes das últimas décadas levou-os a plantar por todo o território dezenas de auto-estradas. Como as estradas que antigamente “faziam o serviço” eram vetustas e construídas debaixo de outros paradigmas, aconteceu aqui um salto qualitativo (na lógica do automóvel, claro) em que passámos de caminhos estreitos, ladeados de árvores e em ritmo de curva e contra-curva para amplas auto-estradas, do melhor que há por esse mundo fora e…regiamente pagas.

As tais estradas, que o Plano Rodoviário de 1945 classificou (e muitas surgiram depois com base nessa lei) como Estradas Nacionais, numerou e apontou origem e destino, foram sendo sucessivamente esquecidas – umas mais que outras em função das necessidades locais. Algumas desclassificadas para Municipais (ou pelo menos a sua conservação ficou na alçada dos municípios) outras “promovidas” a Regionais (sabe-se lá quem manda nelas…).

Mas elas estão aí. Umas mais bem cuidadas que outras. Com mais ou menos trânsito (geralmente menos) ao dispor dos motociclistas que gostam de descobrir o que o País tem para oferecer de mais genuíno e ao mesmo tempo, proporcionar momentos de condução inesquecíveis.

Duas destas estradas povoavam o meu caderno de encargos e por razões diversas:

–  A EN120 que começa em Alcácer do Sal e termina em Lagos, por ser a estrada que atravessa a terra onde vivi até à adolescência e que tem a carga nostálgica de tantas vezes a ter percorrido e

– A EN124 que começa em Portimão e se esgota perto de Alcoutim, atravessando quase todo o interior algarvio, nomeadamente as serranias da zona do barrocal e que há muito tinha a curiosidade de conhecer.

Um convite para ir ao Algarve foi o mote para percorrer estas duas estradas…e mais algumas de bónus!

Dia 1 – Estrada Nacional 120

O dia amanheceu chuvoso (olha a novidade…) e assim permaneceu até cerca de metade da viagem. Nada de relevante e até a proporcionar condições para umas boas fotos ao longo do percurso.

Convém aqui destacar a companheira infatigável para os próximos dias: a Africa Twin DCT (gentilmente cedida pela Honda Portugal) que se veio a revelar uma fantástica máquina para este tipo de percursos com uma polivalência a toda a prova (ver a análise desta experiência aqui).

A primeira paragem foi naturalmente em Alcácer do Sal para marcarmos o início do percurso que me levaria, no final do dia até Lagos. A ponte metálica que une as duas margens do Sado (e que figura nas memórias de muitas gerações que rumavam às paragens algarvias) é o ex-líbris da terra e tem características únicas. Recordando a tipologia de construção “à Eiffel” e inaugurada em 1945, é constituída por 3 tramos dos quais o central é móvel (sobe e desce longitudinalmente) para permitir a passagem de embarcações. Recuperada por alturas de 2007, manteve esta sua característica mas agora com objectivos mais turísticos: para que os galeões do sal característicos da zona possam fazer os seus passeios com os turistas que demandam estas paragens.

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Ponte de Alcácer do Sal
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O início da EN120 com Alcácer em 2º plano

Daqui, parti para os 22km que unem a cidade de Alcácer a Grândola, terra da minha infância e oportunidade para rever um velho amigo. Paragem para café que se prolongou por mais de 2 horas. Tempo suficiente para a intempérie amainar. Estes 22km, outrora a maior recta em Portugal, estavam a ser reasfaltados, obra tão necessária como reclamada há muito mas muito tempo.

De Grândola, rumo a Santiago do Cacém atravessando a Serra a que aquela dá nome. E nada como começar por visitar a Ermida da Srª da Penha, local de romaria grandolense em Domingo de Pascoela e que proporciona uma bela vista para a planície a norte.

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Ermida da Sª da Penha – Vista panorâmica – Lá ao fundo, Grândola

A estrada até Santiago faz-se de forma retorcida cujas curvas ainda perduram na minha memória de tantas vezes a ter feito ao lado dos meus pais. O piso é mediano a recomendar alguma cautela, mas o traçado é a gosto!

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EN120 – Serra de Grândola

Santiago do Cacém passa a correr, apenas o tempo de uma foto e mantenho o rumo a sul.

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Santiago do Cacém

O registo sinuoso continua, agora aproveitando o relevo da Serra do Cercal. Antes da vila do Cercal do Alentejo, na Tanganheira, o primeiro desvio do dia. Não sendo objectivo, seria ainda assim imperdoável não visitar Porto Côvo e vislumbrar a Ilha do Pessegueiro, que conheci muito antes de um tal de Rui Veloso tornar famosos. A paisagem é deliciosa. E os restos do temporal ainda se faziam sentir no mar…

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No Porto Côvo
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Ilha do Pessegueiro

Regressei à EN120 no mesmo ponto e pouco depois passei Cercal do Alentejo. Recordo-me de há muitos anos atrás lá haver uma pastelaria com uns pastéis de nata deliciosos. Fiquei com a recordação, não parei e segui viagem. A partir daqui, a estrada em bom estado, segue num registo mais plano o que não significa que as rectas abundem. Mas tornam-se mais frequentes.

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Casa de Cantoneiros – A caminho de Odeceixe

Passados São Luis, Odemira e São Teotónio, chego a Odeceixe e segundo desvio. A linda praia que leva o nome desta vila aguardava-me para mais uns “bonecos” que o enquadramento paisagístico valoriza.

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Praia de Odeceixe

De novo, regresso à nossa EN120 em Odeceixe. Fica o registo fotográfico junto de um típico moinho altivo e sobranceiro às ruas estreitas e íngremes da vila.

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Odeceixe – Moinho tradicional

Sul era o rumo! E entrámos no Algarve.

Pouco mais abaixo…Aljezur. Terra ancestral, povoada pelos Mouros e conquistada pelos Cristão no Séc. XIII. E 1280 recebe o foral concedido por D. Dinis. Visita ao castelo e oportunidade para testemunhar os efeitos do terramoto de 1755. Na altura, a povoação foi completamente devastada. Então, o Bispo do Algarve, D. Francisco Gomes de Avelar mandou construir a Igreja de Nª. Srª d’Alva num local em frente da antiga vila por forma a que os locais para aí se transferissem e abandonassem os terrenos destruídos nas encostas do Castelo. Assim é possivel hoje vislumbrar os dois aglomerados urbanos que constituem esta vila algarvia.

Daqui, o terceiro e último desvio ao rumo traçado: a praia de Monte Clérigo. Linda!

 

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Praia de Monte Clérigo

Regresso a Aljezur e à EN120. Pouco à frente o cruzamento que, à direita segue a EN268 até Vila do Bispo e Sagres ou, à esquerda, continua a EN120 rumo a Lagos, atravessando a Serra do Espinhaço de Cão. Por aqui segui.

Esta Serra foi uma agradável surpresa. Recordava-me da má fama de antigamente. Cheia de curvas, estreita…à antiga. Desta vez encontrei uma estrada renovada, mantendo o traçado sinuoso mas com excelente piso, boas bermas e bem sinalizada. Diversão assegurada com curvas muito bem lançadas a possibilitarem uma condução rápida q.b., muito fluída e sempre segura. Muito bom para fim de festa pois Lagos era já ali.

Para um dia que começou molhado, a tarde esteve aprazível…e ainda era muito de dia quando fiz o check in no hotel. Se o objectivo da jornada estava completado, a proximidade do Cabo de S.Vicente era tentadora. Havia tempo para lá ir antes do sol se pôr. E o primeiro e breve contacto com a EN125….autocaravanas e traços contínuos não combinam bem…mas lá cheguei.

As fotos da praxe junto à fortaleza e depois junto ao Cabo…”onde a terra acaba e o mar começa”!

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Fortaleza de Sagres
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Sagres – ao fundo o Cabo de São Vicente
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Farol do Cabo de São Vicente
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Cabo de São Vicente
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Cabo de São Vicente – Farol
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Cabo de São Vicente – Farol
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Cabo de São Vicente
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Cabo de São Vicente

Regresso a Lagos, a hora de jantar estava aí…mas mesmo antes que o sol desaparecesse, uma visita à Ponta da Piedade. Que foi o fecho em beleza deste dia!

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Lagos – Ponta da Piedade
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Lagos – Ponta da Piedade

No dia seguinte….EN124!

Dia 2 – Estrada Nacional 124

Quando falamos em estradas algarvias, logo nos vem à mente a famigerada EN125. Perigosa, congestionada, mais uma via urbana pejada de turistas do que uma verdadeira estrada. Para lá da Via do Infante, uma outra estrada atravessa o Algarve. A EN124 que a partir de Silves toma o rumo Poente-Nascente, vai desaguar perto de Alcoutim e com vistas para o Guadiana. Esse era o objectivo principal deste segundo dia.

Saí de Lagos e até Portimão, uma volta pela Meia-Praia. Depois, mais um pouquinho da EN125 e chegada a Portimão. Que se atravessa rapidamente até à Praia da Rocha. Aqui seria a saída simbólica para a “outra estrada algarvia”: a EN124!

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Praia da Rocha
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Praia da Rocha

A Praia da Rocha, que há muito não visitava, está tão diferente relativamente ao que tinha em memória. Significa que não passava por lá há muito, mesmo muito tempo!

Depois, para norte e à saída de Portimão, aí está a EN124. Que me levaria até Silves, passando porto Porto de Lagos onde inflecti para nascente.

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EN124
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Silves

A seguir, até S. Bartolomeu de Messines onde rapidamente cruzo com a A6 e a antiga “estrada do Algarve” hoje chamada IC1. Até aqui, a estrada em bom estado segue sem grande interesse que não seja a paisagem e algumas pequenas povoações do interior que nada têm a ver com as imagens estereotipadas do Algarve….

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EN124 – Para trás ficou Silves…
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Aqui hesitei! Sigo em frente ou vou directo para a Califórnia?

A partir daqui, mas principalmente depois de Alte, começa a diversão. A Serra do Caldeirão que iria atravessar longitudinalmente estava aí! À espera!

Salir passa rápido e, curvas e contra-curvas sucessivas, chego a um ponto fundamental deste dia: o cruzamento da EN124 com a EN2 no Barranco do Velho.

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Cruzamento da EN124 com a EN2

Com uma nota muito curiosa: fazia precisamente um ano que por lá tinha passado, vindo de Chaves e quase a chegar a Faro, cumprindo os 738,5km da EN2. E mais ainda, praticamente à mesma hora. Celebrada a efeméride…segue viagem!

Se até aqui já tinha havido diversão, a seguir seria um festim até à aldeia do Pereiro onde uma surpresa me aguardava.

Até lá, paisagens deslumbrantes, vistas a perder de vista pelo barrocal algarvio. Estrada sinuosa e muito divertida, com bom piso, tráfego quase inexistente e a Africa Twin a portar-se maravilhosamente. Um regalo!

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Barrocal algarvio
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Barrocal algarvio
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Arqueologia rodoviária…
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Barrocal algarvio

Ao chegar ao Pereiro…uma movimentação estranha e a estrada pejada de gente. Uma feira, daquelas tradicionais, com as inúmeras barracas que vendem desde atoalhados, sapatos, utilidades domésticas ou fatiotas mais ou menos domingueiras, até aos produtos típicos da região e não só – os cheiros dos queijos e enchidos andavam pelo ar – bordejavam a estrada aqui feita rua principal. Até um daqueles vendedores de banha-da-cobra que anunciam aos seus potenciais compradores que “não levam um, não levam dois…mas levam 3 belíssimos cobertores…ou toalhas… ou o que for…”, sempre com inegáveis vantagens pela beleza e qualidade do produto! Já para não falar no preço. Quase dado… Era a Feira de S. Rafael (curiosamente o santo padroeiro dos motociclistas!).

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Pereiro – Feira de S. Rafael

O GPS antecipou algum desejo e mandou-me para uma rua lateral…onde 2 ou 3 rulotes de bifanas e cachorros abasteciam os mais esfomeados. O meu caso, portanto…

As surpresas não tinham terminado. O simpático proprietário de uma delas também é motociclista. E preparava-se para, alguns dias depois, se abalançar à EN2. Adivinhem lá qual foi o tema de conversa…

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Companheiro motociclista…

Ainda havia alguns quilómetros a fazer, pelo que avancei. Uma paragem para sinalizar o final da EN124.

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Final da EN124

8 km depois, Alcoutim. O Rio Guadiana é aqui rei. Navegável até bem mais a montante, permite que a paisagem seja enfeitada com alguns barcos de recreio. E defronte a Alcoutim, debruçada num anfiteatro natural sobre o rio, a espanhola Sanlúcar de Guadiana.

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Alcoutim
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Castelo de Alcoutim
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Sanlúcar de Guadiana

Casario branco, ruas estreitas encimadas por um nobre e altaneiro castelo a recordar a má vizinhança em algumas épocas passadas, com o pessoal da outra margem.

De Alcoutim, e concluida a EN124, principal objectivo do dia, o destino era agora Monte Gordo onde um belo quarto de hotel me aguardava para o necessário descanso. Mas até lá…

Em vez de recorrer à EN122 que me conduziria directamente a Vila Real de Santo António, optei pela M507, a Marginal do Guadiana. Esta estrada, com piso regular e muitas curvas, acompanha o curso do rio e a própria orografia do terreno. Ora sobe, ora desce, umas vezes junto à margem, outras um pouco mais afastada. Linda esta estrada! A convidar a um ritmo de passeio para assim desfrutar das diversas cambiantes da paisagem.

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Marginal do Guadiana
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Marginal do Guadiana

No Montinho das Laranjeiras, passo por umas escavações arqueológicas que bem atestam a antiguidade da presença da civilização por estas paragens. Depois Guerreiros do Rio e Foz do Odeleite onde a estrada inflecte para o interior. Ainda vislumbrei a Barragem de Odeleite.

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Barragem de Odeleite
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Barragem de Odeleite

Em Odeleite, aí sim, a EN122 até Castro Marim e depois até Vila Real de Santo António. Estava concluída a jornada. Não sem antes fotografar o farol mais oriental do Algarve…depois de na véspera ter estado junto do mais ocidental.

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Vila Real de Santo António – Farol

Dia 3  – Pelo Sotavento Algarvio

O dia amanheceu bem cedo. A insónia atacou….e  às 6:42h a oportunidade para ver o nascer do sol na praia. Lindíssimo!

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Monte Gordo – Nascer do Sol
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Monte Gordo – Nascer do Sol

Depois…fazer tempo para arrancar. A Africa Twin tem uma característica muito própria: o seu trabalhar não é discreto! Nada discreto…e assim, resolvi não acordar a vizinhança do hotel e só por volta das 9 retomar a estrada.  Fui percorrendo as praias que bem conheço da época balnear mas agora tão diferentes sem a parafernália de artefactos para banhistas nem os mares de gente habituais do Verão.

Sucederam-se Praia Verde, Altura e Manta Rota. 

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Praia Verde
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Altura
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Manta Rota

Depois, visita um pouco mais demorada a uma das pérolas desta zona: Cacela Velha.

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A caminho de Cacela Velha
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Cacela Velha
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Cacela Velha
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Cacela Velha
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Cacela Velha
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Cacela Velha – Fábrica
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Cacela Velha – Fábrica

Finalmente, Tavira percorrida sem paragem e uma ida até ao embarcadouro dos barcos para a Ilha de Tavira.

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Tavira
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Tavira
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Tavira – Arraial Ferreira Neto
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Tavira – Forte
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Tavira – Salinas

No regresso, ainda uma paragem em Cabanas de Tavira.

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Cabanas de Tavira

Não estava terminado o périplo…Castro Marim aguardava-nos, com as suas duas fortalezas, o Castelo e o Forte de S. Sebastião. E a vista magnífica para a foz do Guadiana, em baixo Vila Real e defronte, a espanhola Ayamonte.

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Castro Marim
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Castro Marim
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Castro Marim
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Castro Marim

O ponto final seria na Ponta da Areia em Vila Real de Santo António. Uma língua de areia que acompanha a foz do rio e entra mar adentro e que é, fisicamente, o ponto final de Portugal a sudeste. Dali para a frente…ou Guadiana ou Oceano Atlântico!

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VRSA – Ponta da Areia
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VRSA – Ponta da Areia

Uma boa forma, simbólica de terminar este dia. O que faltava…passou-se na praia…e foi aqui que, 14 horas depois de uma magnífico despontar do astro-rei, resolvi que o pôr do sol também deveria ter honras de registo. Aqui fica:

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Monte Gordo – Pôr do Sol

Em 3 dias, percorri 2 estradas que eram há muito desejadas. E superaram as expectativas. Visitei ainda algumas paragens conhecidas em alturas mais veraneantes.

Percurso
EN120 / EN124

Afinal…uma Viagem ao Virar da Esquina!

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Pyrenaeos 2019 – parte 2

2 MOTOS.  7 DIAS.  3.400KM.  MILHARES DE CURVAS.

SOL E CHUVA.  CALOR E FRIO.  MAR E MONTANHA!

Pirinéus é o nome da cordilheira de montanhas que desde o Golfo de Biscaia até ao Mediterrâneo separa a Península Ibérica do resto da Europa Continental. A sua altitude máxima é superior a 3.400m mas existem cerca de 200 picos acima dos 3.000 metros. Daí aquele aspecto de verdadeira muralha que começamos a vislumbrar a mais de 100km de lá chegar. E se mete respeito…

O nome deriva do latim Pyrenaeos (que escolhemos para mote da nossa viagem) e terá nascido do termo clássico grego Pyrenaia.

Pyrenaeos logo

Em Andorra-a-Velha começámos a segunda parte da nossa viagem. Que seria bem diferente….só que ainda não sabíamos!!!!

PYRENAEOS 2019
11 Junho – Dia 4

E ao 4° dia…tudo mudou!

Antecipámos intempérie a norte de Andorra, virámos agulha para sul….
…e apanhámos com um dia “fantástico”!

A acreditar na TV catalã, foi o 3° dia com mais chuva esta ano! E nevou por todo o lado, nalguns casos a partir dos 1.200m.

Se tivéssemos ido para Norte, tinha corrido mal de certeza!

Assim, fizemos 200km debaixo de chuva intensa e contínua. Percorremos uma estrada de montanha com mais de 40km de extensão e andámos pelos 1.800m. Com a temperatura a 3°!!! E não…não apanhámos neve. Por um triz!

Para ajudar à festa, a protecção que julgava ter não funcionou…as calças pareciam de fazenda, as botas alagaram, as luvas tiveram que ser torcidas para escorrer a água acumulada!

Por tudo isto…foram cerca de 3h e meia de condução ininterrupta com temperaturas sempre abaixo dos 10°. O risco de hipotermia foi real. E as falhas de concentração na condução também…

Em resumo, o meu pior dia em cima de uma moto! Já passou….

E afinal o que fizemos hoje?

Saídos de Andorra, apanhámos a N260 da véspera e iríamo-nos divertir imenso em La Collada de Toses. Mais de 40km de sobe e desce, curvas de toda a maneira e feitio…

Pois…o S.Pedro virou costas e lixou a diversão.

Ou seja, 3h e meia depois chegámos a Figueres, terra do Salvador Dali.

O resto da tarde serviu para reconhecer o terreno e tirar algumas fotos.

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Figueres: terra de Salvador Dali – Arte urbana

Amanhã é dia de “descanso”. Antecipa-se a visita ao Museu Dali e formalizarmos a conclusão da travessia dos Pirinéus na ponta mais oriental da Península ibérica: no Cabo Créus! E descansar ….e secar o equipamento, porque na 5a. feira iniciamos o rumo a ocidente e o regresso a Portugal.

Hoje, a colheita fotográfica foi mais pobre…

(PV) – Por muito programadas que as viagens sejam, há sempre o risco do imprevisto. E aqui, o entrosamento entre os viajantes é fundamental para se tomarem as decisões (as decisões são tomadas no momento…se são as melhores ou não, é avaliação a fazer no final).

A primeira grande decisão foi alterarmos o plano inicial que previa a saida de Andorra em direcção a norte, para entrarmos em França em Pas de la Casa. Tal implicava passarmos perto do Col d’Envalira e de seguida também pelo Col de Puymorens. Andaríamos a rondar os 2.000m senão mais. As previsões atmosféricas não eram famosas: 100% de probabilidade de chuva e temperaturas mínimas a rondar os 2 ou 3⁰. Ou seja, alta probabilidade de neve e de gelo na estrada. Perigoso…

Decidimos assim regressar a Seu d’Urgell e retomar a N260, na expectativa que as condições meteorológicas fossem mais amenas.

Amanheceu chuvoso, ainda fizemos uma compra ou outra sempre debaixo de chuviscos persistentes mas nada de muita aflição. Seguimos viagem e, no meu caso confiante que o fato seria pelo menos suficiente.

Substimámos o clima.

Sobrestimei o fato!

À saida de Andorra senti alguma humidade nas pernas e mais à frente confirmei…as calças já tinham sido impermeáveis! Agora não. As botas…já anteriormente tinha tido uma má experiência com entrada de água mas não supunha que fosse uma costura envelhecida. Também as segundas luvas (as primeiras eram de Verão), eram boas para o frio…se se mantivessem secas. Não foi o caso. Salvou-se o blusão porque milagrosamente tinha um corta-vento escondido debaixo do banco da moto. A ordem era para seguir e nunca se nos colocou a hipótese de abortar a etapa e antecipar o dia de descanso. Mas o que aí vinha…

51km debaixo de chuva ininterrupta, como aconteceria até ao final do percurso, e com a temperatura bem abaixo dos 10⁰. O equipamento ia ensopando e a velocidade não ajudava nada… Pouco depois de Puigcerdá, os 48km da Collada de Toses. Quando começamos a subir, dois sinais me alertaram que a coisa ia doer! Primeiro um que dizia “Carretera de Alta Montaña” (o resto não consegui ler…e ainda bem!) e um segundo que indicava a altitude a 1.400m (e era só o primeiro). Pois bem, 48km, temperatura nos 3⁰ e 4⁰, chuva intensa e estrada bem sinuosa, revirada, até cerca dos 1.800m, que subimos e descemos! Gelei ao ponto de temer entrar em hipotermia. E sempre com a máxima atenção à estrada pois nestas condições não permitia brincadeiras.

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Collada de Toses – 11/6/19 – Inesquecível! 3º C Chuva persistente
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Collada de Toses – 11/6/19 – Uma lição… … e uma dívida a pagar em futura viagem!

A certa altura passámos por um carro da Protecão Civil local parado à beira da estrada. E pouco depois cruzámo-nos com outro que vinha em sentido contrário ao nosso. Provavelmente preparavam-se para fechar a estrada… E este facto merece registo! A atenção ao detalhe e à segurança. Vigilância permanente! E outro ainda…o cuidado com a manutenção das estradas. Uma equipa ainda numerosa e com bastante equipamento, fazia reparações na estrada, apesar da intempérie. Vá lá que estavam adequadamente vestidos…não como certo incauto motociclista!

Quando tivemos que parar junto a essas obras, os dedos da mão esquerda doíam com o frio. Uma paragem providencial, em que coloquei a mão em cima da cabeça do motor da moto do Jaime! Recuperei alguma temperatura e a mão voltou a funcionar. Acabada a Collada de Toses, faltavam mais cerca de 100km até Figueres. Ainda ponderámos parar antes. Mas perdido por dez, perdido por mil, lá chegámos depois da mais dificil e sacrificada jornada em cima de uma moto que já tive.

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Depois de descalçar as luvas (ensopadas!) o resultado era este…

A nota obrigatória: hoje rimo-nos deste dia. As mais de 3 horas consecutivas em cima da moto foram desagradáveis e uma provação. Mas acima de tudo uma lição! E que lição!!! Com equipamento adequado, alguma diversão teria tido (embora deteste conduzir moto com chuva) e a coisa teria corrido melhor certamente!

A chegada ao Hotel teve tanto de salvadora e providencial como de anedótica: passado quase uma hora, quando já restabelecidos e secos saímos para uma volta pela cidade…ainda estava na recepção a poça de água que lá tinha deixado à chegada!!!

Teria sido melhor tomar a decisão de antecipar e  fazer o dia de descanso em Andorra? Porque os dias seguintes foram solarengos. Não conseguiremos saber. Porque afinal…as coisas até correram bem. Mas correcta a decisão de não rumar a norte. Teria sido bem pior…

Para terminar, referir que à noite, os noticiários da TV abriram todos com a noticia da verdadeira intempérie que assolou os Pirinéus e zonas adjacentes. Nevou em alguns sitios acima dos 1200m, num local a temperatura desceu abaixo de zero e am Barcelona foi o 3º dia mais chuvoso do ano…em Junho. Nos dias seguintes iríamos deleitar-nos com a visão dos picos dos Pirinéus cobertos pelo branco da neve deste dia!

Apesar de tudo isto pudemos ainda constatar que esta zona da Catalunha, ainda inserida nos contrafortes dos Pirinéus mostra alguns sinais de um antigo esplendor industrial (a que não será estranho os inúmeros rios que provêem da cordilheira e que forneciam a água necessária para as máquinas a carvão e as vias para o escoamento dos produtos) hoje quase ou totalmente ao abandono, nas principais localidades que atravessámos. Também os campos não têm o esplendor do lado mais ocidental das montanhas, com uma ruralidade mais agreste a fazer lembrar alguns pedaços do nosso país. Tal como alguma sonoridade, fonética ou vocabulário da língua…

Outro aspecto: o espirito nacionalista está mesmo muito acirrado na Catalunha. Sem fazer quaisquer juízos de valor, é impossível não deixar de perceber o pulsar da vontade de autonomia/independência, seja por graffitis, seja pelas inúmeras bandeiras e outros símbolos em janelas, varandas e outros locais onde seja possível pendurá-los. Há aqui certamente um problema por resolver…

PYRENAEOS 2019
12 Junho – Dia 5

Depois do dilúvio da véspera, o dia de “descanso” surgiu solarengo e risonho. A provar que o S. Pedro anda armado em cão com pulgas. É que não havia necessidade…

Adiante!

Ontem chegámos a Figueres (ensopado, ja comentei? Na recepção do hotel, passado algum tempo ainda lá estava a poça de água que deixei quando fiz o check in…).

Figueres, terra natal de Salvador Dali. Por isso, a manhã foi dedicada ao Museu Dali. Onde pudemos apreciar a genialidade e a critividade desta figura tão excêntrica quanto racional.

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Teatro Museu Dali
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Teatro Museu Dali – Pormenor da fachada
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Pintura em estereograma: nesta perspectiva, o busto de Abraham Lincoln…
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….mas aqui, um corpo feminino.
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Tudo depende do ponto de onde se olha… A genialidade de Dali, logo à entrada no museu!

Depois de cerca de 2 horas de visita (algum excesso de visitantes, diga-se) e deslumbrados, foi tempo de almoço. E depois, acertar algumas contas:

– irmos ao quilómetro 0 da N260 para fecharmos este capítulo de uma estrada que tem tudo, mas tudo mesmo, para ser uma das rotas míticas do pessoal das motos. É fantástica! Diversão absoluta entre Sabiñanigo e Portbou junto à fronteira com França.

– visitarmos o Cabo Créus. A ponta mais oriental da Península e também escolhida para ser o nosso fecho da travessia dos Pirinéus, que recordo, começou simbolicamente no Cabo Higuer, em Hondarribia no mar Cantábrico. Unimos o Atlântico ao Mediterrâneo.

Finalmente, para fecharmos a jornada, conhecer Cadaqués. Estância turistica por onde passaram figuras como Dali ou Picasso. E lindíssima! Uma pequena baía de um mar azul forte e com o casario branco disposto em anfiteatro à sua volta.

No meio disto tudo, acabámos por ainda fazer 129km…e convém salientar que a esmagadora maioria foram daqueles bem divertidos…não esteve mal para “descanso”!!!!

No total levamos já 2.023km.

Amanhã começa a viagem de regresso!

(PV) – O dia de descanso tem menos que contar. Até porque o prato forte – o Teatro  Museu Salvador Dali – não é possível descrever por palavras.

Mas enquanto esperávamos pela entrada, oportunidade para visitar a vizinha Igreja do Santo Padre:

Quanto ao Teatro Museu Dali, tendo sido inaugurado na década de 70 do Séc.XX presumimos que a sua concepção se deve ao genial e excêntrico criador. E a forma como o próprio edifício está estruturado e o seu design são ilustrativos da criatividade de Dali. Tudo está feito de forma a realçar todas as vertentes criativas e de exploração das diferentes técnicas artísticas. As palavras são insuficientes. E o espaço disponível para colocar todas as fotos tiradas também… Fica a recomendação. Vale a pena visitar Figuéres. É fundamental visitar a obra do genial criador. Até eu que não sou (era) propriamente um conhecedor ou admirador fervoroso saí de lá completamente estarrecido. Fantástico!!!

Mais de 2 horas de lenta visita, pois entrámos por volta das 11h e nessa altura estava pejado de excursionistas o que tornou o início da visita algo penoso. Mais perto da hora de almoço estava muito mais tranquilo. Talvez o ideal seja programar a visita para as 12.30 e passar lá esse período. Fica a sugestão…

Quem queira ver a colecção completa de fotos (exterior, interior e espólio em exposição – 326 fotos) é seguir o link:

TEATRO MUSEO DALI – FIGUERES – CATALUNHA

De seguida fomos almoçar numa aprazível esplanada no centro da cidade. Quem diria o suplício 24 horas antes!

Depois…fechar alguns temas em aberto.

Desde logo, sair em direcção a norte para alcançarmos o quilómetro 0 da N260. Era a “homenagem” que queríamos fazer a uma estrada que verdadeiramente nos apaixonou. Assim, fomos até à fronteira com França, em Portbou. E, surpresa….tivémos diversão até mesmo à fronteira. Com o beneficio adicional de à nossa esquerda, em baías sucessivas, termos o azul forte do Mediterrâneo. Lindo!

Voltámos atrás cerca de 20km e virámos à esquerda em direcção a Cadaqués. Mais uma atestadela, ligeira paragem junto à praia em El Port de la Selva para a foto da praxe e ao chegarmos à entrada de Cadaqués …

…rumo ao Cabo de Créus.

A ponta mais oriental da Península Ibérica e o final simbólico da nossa trans-pirenaica. Até aqui, a estrada tinha continuado a dar-nos a luta que gostamos. Pirinéus até ao fim!!!

Os 12km até ao Cabo justificavam algum cuidado. Apesar de alcatroada, a estrada não é boa, sem marcações e nalguns casos a requerer atenção. Mas que linda é a aproximação ao Cabo. Selvagem. Agreste. Quase lunar… fora deste mundo!

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A caminho do Cabo de Créus

Encerrámos aqui a travessia dos Pirinéus. Mas não a viagem. Nem as estradas reviradas e desafiantes.

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Cabo de Créus O final da travessia transpirenaica iniciada no já longínquo Cabo de Higuer em Hondarribia
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Viagens ao Virar da Esquina na ponta mais oriental da Península Ibérica

Passámos o resto da tarde e início da noite em Cadaqués. O nosso festejo de Santo António…

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Cadaqués
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Cadaqués
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Cadaqués
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Cadaqués

É uma vila paradisíaca onde, talvez por isso, passaram visitantes famosos: o já referido Salvador Dali, mas também Pablo Picasso, entre outros que vão sendo registados na memória das placas colocadas nas paredes das casas onde viveram.

Uma baía com um mar azul forte e ligeira ondulação, populado de pequenas embarcações (maioritariamente de recreio) e com o casario branco de um ou dois pisos disposto em anfiteatro. Uma marginal de uma ponta à outra a possibilitar um ameno passeio e saborear a calma de uma estância de veraneio fora de época (a apetitosa gelataria…fechou antes das 21h…quando lá chegámos, nada!).

Sem gelado, a sobremesa foi outra. Mais uma quinzena de quilómetros de curvas e contra curvas até nos começarmos a aproximar de Figuéres. Não foi menos saborosa…explorar o conta-rotações e a aderência dos pneus ao lusco-fusco…delicioso!

No dia seguinte começava o regresso. Muito ainda para ver, mas …sempre o regresso.

PYRENAEOS 2019
13 Junho – Dia 6

Depois de ontem termos fechado o capítulo Pirinéus (achávamos nós…) hoje era tempo de começar a traçar o caminho de regresso.

Saímos de Figuéres com ligeiro atraso devido a um quid pro quo entre o despertador e o fuso horário. Nada de preocupante e perfeitamente recuperável…

A primeira paragem para pequeno almoço e visita demorada foi em Girona. A Catedral e as muralhas do castelo bem como o bairro judeu mereceram a nossa atenção. A Catedral é lindíssima.

Feito o périplo, rumámos a Vic onde tínhamos como objectivo ver o centro desta antiquíssima cidade. A Praça Central onde às terças e sábados se realiza uma feira cujas origens remontam ao século XII e o Templo Romano praticamente intacto e construído há 2.000 anos foram alvo da nossa atenção.

Depois o prato forte da jornada: em Bassella (localidade a uma distância razoável de nenhures) fica situado um dos maiores museus de motos da Europa. E lá investimos cerca de 2 horas do nosso tempo. Não foi necessário correrem connosco mas…quase!

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Museu de la Moto – Bassella
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Museu de la Moto – Bassella
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Museu de la Moto – Bassella
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Museu de la Moto – Bassella

Disse no início que pensávamos já ter fechado o capítulo dedicado aos Pirinéus. Mas não! Todo o dia, mas principalmente quando saímos de Vic em direcção a Bassella, fomos tendo ao nosso lado direito a companhia dessas imponentes montanhas…agora com os cumes pintados de branco graças à malfadada intempérie de há 2 dias! Chegámos a estar a menos de 100km de Andorra…e a tentação foi forte…

Finalmente chegámos ao final da etapa: Lérida. E à noite um pequeno passeio apenas para ficarmos deslumbrados com a espantosa catedral. Que domina imponente a cidade. Património da Humanidade perfeitamente justificado.

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Lérida: Catedral
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Lérida
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Lérida: Catedral
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Lérida: Catedral
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Lérida: Catedral
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Lérida: Catedral

Hoje foram mais 308km. No total já levamos 2.331km desde a saída da Capital do Império (como alguns invejosos lhe chamam).

Amanhã, continuaremos a aproximar-nos de Portugal. Uma visita atenta a Saragoça e depois….quilómetros….quilómetros e quilómetros. Que isto de atravessar os 5/6 da Península que não nos pertencem têm muita mão de obra!!!

Amanhã vos contarei como foi.

(PV) – A viagem até Girona não teve história. Já o centro desta cidade catalã tem. E muita. A mais recente diz respeito ao facto de ter oferecido os cenários para as 5ª, 6ª e 7ª temporadas da série Guerra dos Tronos (como não acompanho, não consigo fazer o paralelismo…mas fica a indispensável referência).

Para lá da visita ao seu Castelo e muralhas que nos permitiram ter uma visão panorâmica da cidade, de todo o espaço que a rodeia e lá ao fundo, a presença dominante dos Pirinéus, de percorrermos as ruas estreitas e empedradas do centro histórico, é evidente que sobressai a Catedral. Imponente e majestosa, possui a maior nave gótica do mundo, o que bem atesta a sua dimensão.

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Girona: Catedral
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Girona: Estátua dos primórdios da cristandade
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Girona: vielas
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Girona: escadaria da catedral
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Girona. pormenor da fachada da catedral
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Girona: vielas
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Girona: vielas
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Girona
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Girona: vielas
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Girona
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Girona: e a Catedral à mão de semear!

De Girona, um pequeno salto até Vic. Demorámos a encontrar o centro. As principais ruas em obras dificultaram a tarefa apesar de a cidade não ser grande. Sobressai, atestando a sua muita antiguidade, um templo romano do Séc I em excelente estado de conservação bem como a praça central onde desde o século XIII se fazem regularmente feiras.

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Vic: Plaza Mayor
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Vic: Templo Romano (Séc I)
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Vic: ruinas
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Vic
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Vic

Visita feita, almoço despachado lá nos lançámos novamente à estrada. O destino ficava a cerca de 100km e teríamos que nos desviar em direcção a noroeste. O que desde logo nos levou a reaproximarmo-nos dos Pirinéus (Andorra chegou a estar a cerca de 80km….e a tentação surgiu…) e a vislumbrarmos os altos cumes da cordilheira agora bem coloridos de branco. E a intempérie tinha sido apenas na antevéspera!

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Pirinéus cobertos de neve. E por ali andámos…

Onde íamos? Visitar o Museo de la Moto, localizado em Bassella. Onde? Isso mesmo! Bassella…algures no meio de nenhures! Mas atenção…o Museu vale a pena a deslocação. E o tempo lá passado é uma visita ao historial do mundo motociclista. É uma peça fundamental na nossa cultura motociclista. Logo à entrada, uma VFR cortada ao meio para conseguirmos perceber as suas entranhas. E depois, por ordem cronológica, inúmeras marcas e modelos que fizeram a história deste mundo e as paixões de motociclistas desde os finais do Séc. XIX.

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Museu de la Moto – Bassella
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Museu de la Moto – Bassella
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Museu de la Moto – Bassella
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Museu de la Moto – Bassella
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Museu de la Moto – Bassella

Onde ficou a retina? Na Norton Manx…por exemplo!

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Museu de la Moto – Bassella Norton Manx – mítica!

A reportagem fotográfica completa (131 fotos) está no seguinte link:

MUSEU DE LA MOTO – BASSELLA (LÉRIDA) – CATALUNHA

Visita feita e digerida, rumo a Lérida para aquela que ainda não sabíamos ir ser a nossa última noite da PYRENAEOS 2019…

EM Lérida, cidade antiquíssima,ainda houve tempo para uma visita.

A Catedral de la Seo Vieja (Sé Velha) inserida no vasto espaço fortificado do Castelo de Gardeny  e situada no cimo de uma colina sobranceira à plana cidade, é imponente. Lindíssima…e a iluminação adequada a somar à luz natural do lusco fusco, ainda acentuou mais a majestosidade daquela construção, cujo inicio remonta ao início do Séc XIII e assenta nas ruinas de antiga mesquita árabe. Depois, descemos pelas estreitas ruas que conduzem à avenida que margina o Rio Segre. Algo sujas, com população predominantemente magrebina…pelo menos aquela hora não nos cativou.

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Lérida
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Lérida: Catedral
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Lérida: Catedral
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Lérida: Catedral
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Lérida

Nesta altura, algum cansaço já nos dominava. E a tradicional “saudade”, conceito tão lusitano, também. Havia que tomar opções para o ou os dias seguintes. Estava assente a visita a Saragoça. Até porque sempre por lá passaríamos. Mas o resto dos planos – Cuenca, Aranjuez e Toledo – estava em dúvida. No dia seguinte decidiríamos…

 

PYRENAEOS 2019
14 Junho – Dia 7
E foi o último dia!

Querem um conselho? Nunca deixem algo de Espanha para ver na viagem de regresso…porque quando começamos a pensar na travessia do “deserto”, os quilómetros que faltam e o território (quase) inóspito, só apetece terminar o mais rapidamente possível.

Foi o que se passou connosco. Depois de tomada a decisão de regresso e deixar algumas coisas (Cuenca, Aranjuez, Toledo) para uma outra oportunidade pela Meseta Castelhana (não é possível ir a tudo na mesma viagem…lição aprendida!) ainda pensámos dividir o regresso em 2 etapas…mas com a preciosa ajuda do Google Maps percebemos que era viável fazer a tirada directa e chegarmos a horas decentes.

Recordo que na véspera tínhamos ficado em Lérida. Cidade monumental mas que nos deixou ideias contraditórias: Zona monumental espectacular e uma zona ribeirinha sempre interessante. Mas “perdemo-nos” pelo seu interior e…não tão bonita…

E para este dia, para lá da estrada (estávamos quase a 1.100km de Lisboa) ainda tínhamos programado visitar Saragoça.

Cidade de grande dimensão, cosmopolita e com uma vida nas ruas absolutamente notável. Dava a sensação que as pessoas andavam nas ruas bem dispostas e com um sorriso no rosto…

Quanto à parte monumental….é mesmo monumental!

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Saragoça: Basílica de Nuestra Señora del Pilar
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Saragoça: ruinas romanas
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César Augusto, Imperador Romano fundador de Saragoça
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Saragoça monumental
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Saragoça monumental (arte mudejar)
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Saragoça monumental
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Saragoça monumental
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Saragoça monumental – Ayuntamiento
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Saragoça monumental (arte mudejar)
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Saragoça monumental
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Saragoça monumental (arte mudejar)
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Saragoça monumental
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Saragoça monumental – ruinas da muralha
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Saragoça: Puente de Piedra
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Saragoça – Basílica
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Saragoça monumental
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Saragoça: Catedral
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Saragoça: Basílica

Sendo um dos principais (senão o principal) pontos de intersecção de diversas culturas – foi fundada pelo Imperador Romano César Augusto, foi importante centro à época do domínio árabe e é um ponto de referência do cristianismo (é aqui o primeiro local onde surge o culto mariano, no séc I da nossa era) – isso transparece na arquitectura de diversos monumentos nomeadamente na impressionante e imponente Basílica de Nossa Senhora do Pilar, a chamada arquitectura mudejar.

No final ainda desfrutámos de uma feira medieval que neste dia se iniciava.

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Saragoça: Feira Medieval
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Saragoça: Feira Medieval
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Saragoça: Feira Medieval

Também não perdemos um olhar pela Saragoça castiça…a prometer uma futura visita mas por horas mais tardias…bem mais tardias!

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Saragoça tipica (…e a servir os Clientes há mais de 100 anos…)
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Saragoça tipica: publicidade mural
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Saragoça tipica: bares e tascas
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Saragoça tipica: bares e tascas
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Saragoça tipica: bares e tascas
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Saragoça tipica: bares e tascas
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Saragoça tipica: bares e tascas

Feita a visita…apontámos a ocidente. Nesta altura, ainda pensávamos vir pernoitar algures depois de Madrid. Quando nos aproximámos dessa meta, consultámos o Google Maps e vímos quanto tempo ainda faltaria para Lisboa. Nem foi preciso dizer nada! Motores a roncar…e ala que é caminho!!!

Paragens diversas para atestar e esticar as pernas…reabastecimento alimentar perto da fronteira em Badajoz e…cerca da meia noite entrávamos na Ponte Vasco da Gama. Chegávamos e terminávamos esta espectacular viagem.

Camaradagem e amizade.

Paisagens espectaculares e o mais diversificadas possíveis- mar, montanha, sol, calor, chuva, frio extremo.

E estradas….FANTÁSTICAS!!!! Verdadeiras lições de condução e diversão até mais não! Cada vez que revejo mentalmente o Col de Bonaigua (perto de Baqueira-Beret) ou outros que percorremos só dá vontade de….voltar já! E na Collada de Toses….ficou uma dívida que tem que ser paga em futura viagem!

Registem o seguinte: estrada N260! Mítica! Imperdível!!! De Portbou no Mediterrâneo até Sabiñanigo nos Pirinéus. Ou ao contrário….ou para lá e para cá…não interessa. É diversão absoluta! Façam-na….

Em resumo, nesta jornada entre Lérida e Lisboa foram 1.092km para um total da viagem de 3.423km. De sexta 7 a sexta 14 de Junho.

E assim foi o PYRENAEOS 2019! Memorável!

(PV) – A descrição de Saragoça está feita atrás. Nada mais a relevar que não seja a viva recomendação que esta cidade justifica paragem e visita demorada. Desde as margens do Rio Ebro a todo o património monumental, a visita a pé pode ser longa mas inteiramente justificada e recompensadora. Imperdível.

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Saragoça: Basílica de Nuestra Señora del Pilar
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Saragoça: Puente de Piedra
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Saragoça: Basílica de Nuestra Señora del Pilar
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Saragoça: Feira Medieval

À saída estava assente: o rumo era directo a Portugal. Sobrava a dúvida: directo ou com uma paragem intermédia que prolongaria a viagem por mais um dia.

Saídos às 14h (locais) reservámos a decisão para depois de passarmos Madrid pois nessa altura já seria possível prever tempos de viagem. Madrid passou-se com tranquilidade apesar de um engarrafamento devido a um acidente que nos fez perder cerca de 15 minutos. Nada de relevante. Na paragem para reabastecimento seguinte…vimos que era possível chegar a Lisboa cerca da meia-noite. Decisão tomada!

Andamento tão rápido quanto possível – era sexta feira à tarde e o trânsito na Carretera de Portugal (a A5) muito intenso até Talavera de La Reina exigia atenção redobrada – e lá fomos andando. Pouco passava das 21h (de Espanha) quando chegámos a Badajoz e até deu tempo para jantarmos. Afinal, em Portugal era uma hora mais cedo.

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A ultima refeição! E um brinde (sem alcool…que ainda faltavam muitos quilómetros e a jornada já ia longa!)

Faltavam 230km na nossa EN4. Cerca da meia noite percorremos a Ponte Vasco da Gama e encerrámos a nossa espectacular viagem.

Uma nota final para as estradas espanholas. Não para as curvas ou contra curvas. Mas sim para o seu estado. Em geral muito bom. Bem conservadas, sinalizadas, com bermas adequadas. Refiro-me às estradas nacionais (para comparar com as nossas…). Quanto às autoestradas…fizemos cerca de 2.000km nestas estradas (Ciudad Rodrigo-San Sebastian e Lérida-Badajoz) e nem um singelo euro em portagens!

CONCLUSÕES

Referi no início a questão de sermos apenas 2 e do equilíbrio de andamentos. É evidente que com um grupo maior, a diversão seria multiplicada e a experiência mais rica. Mas em estradas com as características das que percorremos e a forma como as fizemos (tentando desfrutar da condução e dos traçados…sem prejuízo das paisagens, claro) com alguma rapidez, poderia levar a diferenças de andamento significativas e com o avolumar de alguns tempos de espera mais substanciais. Será uma factor a levar em conta antecipadamente e que deverá ser muito bem alinhado entre todos os membros de um eventual grupo para evitar depois algumas questões que possam surgir e toldar o ambiente de camaradagem desejável. Fica a nota…até porque a regra costuma ser a de seguir o andamento do mais lento (o que pode ser frustrante para alguns mais…afoitos).

 Ir para PYRENAEOS 2019 – parte 1

PYRENAEOS 2019 – Uma viagem inesquecível!

E afinal, quanto custou esta viagem (per capita, valores aproximados)?

Combustível ……………………………………………….  300,00€

Alojamentos ……………………………………………….  160,00€

Alimentação ……………………………………………….. 100,00€

Despesas diversas (entradas, portagens, etc.)…..   40,00€

TOTAL                                                                            600,00€

Quanto aos souvenirs……cada um sabe de si!

O PERCURSO:

Para seguir o trajecto que percorremos, de uma ponta a outra dos Pirinéus e mais um pouco, antes e depois – os mais de 1.500km de Burgos a Saragoça –  aqui fica o link para o download (clicar no mapa ou utilizar directamente o link abaixo para os ficheiros gpx), cortesia Viagens ao Virar da Esquina (sem esquecer os “direitos de autor” do Jaime Fernandes!)

Mapa da viagem

FICHEIROS gpx PARA UTILIZAÇÃO EM GPS

HOTEIS QUE NOS AGRADARAM (e que recomendamos):

– Final da 1ª etapa – Hostal Rural Onbordi (perto de Lasaka, aprox. a 40km de San Sebastian)

– Final da 2ª etapa – Hotel Bujaruelo – Torla

– Final da 3ª etapa – Hotel L’Isard – Andorra-a-Velha

– Final da 4ª e 5ª etapa – Hotel Ronda – Figueres

O custo médio rondou os 55€ por noite em quarto duplo.

 

Em destaque

Pyrenaeos 2019 – parte 1

Pyrenaeos logo

2 MOTOS.  7 DIAS.  3.400KM.  MILHARES DE CURVAS.

SOL E CHUVA.  CALOR E FRIO.  MAR E MONTANHA!

Pirinéus é o nome da cordilheira de montanhas que desde o Golfo de Biscaia até ao Mediterrâneo separa a Península Ibérica do resto da Europa Continental. A sua altitude máxima é superior a 3.400m mas existem cerca de 200 picos acima dos 3.000 metros. Daí aquele aspecto de verdadeira muralha que começamos a vislumbrar a mais de 100km de lá chegar. E se mete respeito…

O nome deriva do latim Pyrenaeos (que escolhemos para mote da nossa viagem) e terá nascido do termo clássico grego Pyrenaia.

Reza a lenda que teve como origem o nome de uma personagem da mitologia grega, Pirene (Πυρήνη), amante de Hércules, filha de Bébrix: Hércules, após a morte de Pirene, teria erguido uma tumba à altura de seu amor, isto é…. a cordilheira, onde repousa sua amada.

Assim o nosso destino foi os Pirinéus e o objectivo percorrê-los no sentido poente-nascente, do Atlântico ao Mediterrâneo.

Sabíamos que as paisagens iriam ser espectaculares e que as estradas prometiam sensações fantásticas. Mas nunca esperámos que superasse tanto as expectativas. E esta a razão para a nossa primeira admiração: não nos cruzámos (que o tivéssemos percebido!) com motociclistas lusos. É verdade que existem outros destinos míticos por essa Europa fora…mas os Pirinéus estão mais próximos que a maioria deles…

Para contar a história da viagem, nada melhor que aproveitar o diário que ao longo dos dias fui publicando no Facebook. E que agora complemento com alguns comentários post-viagem (PV).

Cumpre aqui fazer uma referência: a viagem foi a duo com um companheiro de longa data. A amizade e camaradagem bem como algum equilíbrio de andamentos garantia o sucesso da empreitada.

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“Gentlemen, start your engines!”

Mas o Jaime ainda fez mais: foi ele o arquitecto do percurso (introduzi algumas sugestões que depois acabámos por deixar cair devido principalmente ao agravar das condições climatéricas…o que gerou desde logo a necessidade de lá voltar para fazer o que falta…).

E que percurso! As muitas horas dedicadas ao planeamento fez com que quase não existissem momentos mortos ao longo do trajecto: ou paisagens espectaculares ou estradas reviradas e desafiantes até mais não. E melhor….geralmente as duas coisas coincidiam!!!

É evidente que me refiro ao percurso nos Pirinéus e, já no regresso, até Lérida. Porque as travessias de Espanha…são um castigo! O preço a pagar pela diversão…

Obrigado Jaime Fernandes!

PYRENAEOS 2019
7 Junho – Dia 0

Prólogo da grande viagem apenas para nos aproximarmos da travessia de Espanha.
Viagem sem grande história, por AE, IP e outros Is, a terminar perto de Mangualde. Quase a terminar, em Nelas, um jantarito para retemperar num alojamento local muito simpático ….e com umas senhoras verdadeiras fans dos motociclistas!!!

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A equipa!

A próxima etapa será a mais longa. Chegaremos a Hondarribia…muito perto da fronteira com França. Até lá…quase 900km…

(PV) – Apesar da estreiteza do território português face ao espanhol, a possibilidade de antecipar a saída umas horas (de final de dia) e pernoitar já perto da fronteira, garante que retiramos 200 e tal quilómetros e duas horas e pico à grande jornada de travessia do deserto castelhano. Para nós foi óptimo, como adiante veremos. A viagem, pela A1 e depois IP3 não teve história e ainda sobrou tempo para alguns ajustamentos de última hora e afinarmos melhor a nossa estratégia para os dias seguintes.

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Nelas – onde jantámos!

PYRENAEOS 2019
8 Junho – Dia 1

A viagem começou!

A sina de ser português, viver neste anexo da Europa chamado Península Ibérica e logo no canto mais afastado, mede-se em quilómetros. Para arrumar a estatistica, foram 745. A somar aos 282 da véspera e já ultrapassámos a milena.

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Entrada em Espanha por Vilar Formoso

Ainda assim, ao ritmo das paragens para atestar (autonomias a rondar os 270km a isso obrigam) e com um andamento razoavelmente rápido, deu para fazer um pouco de turismo.

Parámos em Tordesilhas, no dia seguinte ao da comemoração dos 525 anos da celebração do Tratado. Como em tempos aqui contei, para que este acontecesse, um outro foi celebrado antes: o da alentejana Alcáçovas. Por essa razão o nosso farnel não podia ser mais a propósito: paio, queijo e pão alentejanos. A zona monumental da cidade é bonita, merece visita e apreciar a história de dois povos que geralmente andaram à trolha mas também souberam acertar-se quanto tal era preciso…e aqui apenas se tratou da partilha do Mundo! Começava a Globalização….

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Tordesilhas: vista panorâmica
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Tordesilhas: ponte sobre o Rio Douro
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Tordesilhas: miradouro e jardim
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Tordesilhas: Igreja de Santa Maria
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Tordesilhas: Plaza Mayor
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Tordesilhas: Ayuntamiento
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Tordesilhas: Celebração dos 525 anos do Tratado (chegámos com um dia de atraso…)

Depois, bem mais à frente, Burgos. Entrada rápida na cidade para apreciarmos a lindíssima Catedral.

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Burgos: panorâmica da aproximação à zona monumental
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Burgos: a caminho da Catedral. Ponte sobre o Rio Arlanzón
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Burgos: Rio Arlanzón
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Burgos: Puerta de Santa Maria
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Burgos: pormenor da Puerta de Santa Maria
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Burgos: Catedral
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Burgos: Catedral
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Burgos: Catedral
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Burgos: Catedral

Finalmente, San Sebastian. Uma maravilha!!! Espectacular e linda cidade. Mas é fundamental dizer que os ultímos 100km, percorridos no País Basco, são um deleite para os olhos. Não há dúvida que ver uma linda paisagem através do visor do capacete tem outra dimensão. Vocês sabem do que falo…

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San Sebastián: Playa de la Concha
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San Sebastián: Playa de la Concha – vista da entrada da baía
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San Sebastián: Playa de la Concha e avenida marginal
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San Sebastián: Playa de la Concha – panorâmica

Volto a San Sebastian. Uma baía espectacular com um enquadramento paisagístico em anfiteatro e uma avenida marginal povoada de gente a desfrutar do sol e da vista, mereceram bem a nossa paragem de cerca de 2 horas. Espero que as fotos façam justiça…

Depois, cerca de 40km até ao nosso alojamento, quase a morder França, no meio de nenhures, numa serra de vegetação luxuriante, em edificio tipico do País Basco e rodeado por um rio à frente e um ribeiro ao lado. Paradisiaco!

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O primeiro alojamento: Hostal Rural Onbordi (Lesaka)
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Hostal Rural Onbordi (Lesaka)
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Hostal Rural Onbordi (Lesaka)
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Hostal Rural Onbordi (Lesaka) – vegetação luxuriante por todo o lado!

E pronto, feito o relatório agora é tempo de ….PIRINÉUS! Ou PYRENAEOS para os gregos que os batizaram segundo reza a lenda…

Assim o S. Pedro nos ajude….que ultimamente anda arisco!

(PV) – Atravessar Espanha ao ritmo das paragens para atestar é penoso. São muitas horas a conduzir a velocidades quase constantes sem qualquer desafio que não seja o de não perder a concentração. Toda a viagem até S. Sebastian foi feita por autoestrada (autovia) gratuita. 750km gratuitos…. lá como cá! Aliás, uma referência a algo com que nos confrontámos mais vezes nos dias seguintes: algumas autoestradas com portagem estão a terminar os prazos das concessões. E o que acontece? Vão para a posse do Estado…e passam a ser gratuitas! Estes espanhóis são loucos. Perderem assim as hipóteses de aumentar a receita…

Os pontos fortes do percurso foram, como referenciado, Tordesilhas, Burgos e San Sebastian. Se a primeira e a última foram atrás descritas, cumpre dizer que Burgos é uma cidade bem bonita e aprazível. Atravessada pelo Rio Arlanzón é uma cidade muito antiga como se pode constatar pelos seus monumentos. Dos quais se destaca obviamente a magnífica Catedral cujo inicio de construção data do Séc XIII.

Entrámos em San Sebastian pela autovia A1 (gratuita) e os ultímos 100, 120km são espectaculares sob o ponto de vista paisagístico. Atravessamos montanhas, descemos para a cidade com a baía a seus pés e ao longe os primeiros vislumbres dos majestosos Pirinéus! Quanto à cidade…a merecer uma estadia prolongada, sem qualquer dúvida!

PYRENAEOS 2019
9 Junho – Dia 2

Começou a travessia dos Pirinéus. Vamos unir o Cabo Higuer na costa cantábrica ao Cabo Créus no Mediterrâneo e o ponto mais oriental da Península. E não vai ser pelo caminho mais curto nem pelo mais fácil…mas pela amostra desta jornada, será certamente bonito e com estradas para desfrutar da paixão pelas motos e sua condução.

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Cabo de Higuer (Hondarribia) Aqui começa a nossa transpirenaica…
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Cabo de Higuer – Farol O destino é para ali…

Assim começámos em Hondarribia (espectacular) e depois…embrenhámo-nos pelos Pirinéus ocidentais. Passámos sucessivamente de Espanha para França, voltámos a Espanha ..e a França. E finalmente Espanha de novo. O percurso planeado (o mérito não é meu!!!) predominantemente por estradas “municipais” revelou-se fantástico, praticamente sem pontos mortos (leia-se rectas) e sempre no sobe e desce, no curva e descurva.

Uma nota muito importante: o País Basco, principalmente do lado espanhol é lindíssimo. Deslumbrante! A deixar saudades e com a vontade de cá voltar para melhor o explorar!

A perspectiva de intempérie altera-nos os planos para a jornada seguinte. Não iremos aos picos do Tour de France….mas se ontem andámos abaixo dos 1500m, hoje vamos andar acima dos 2000m! Serão 300km até Andorra!!!

Até lá!

(PV) – A jornada começou em Hondarribia. Cidade que está separada da francesa Hendaya pelo rio Bidasoa. A paisagem é fenomenal pois a foz do rio cava uma baía com praias de ambos os lados das margens. E o Cabo de Higuer é logo ali. Selvagem e lindo. E é fundamental referir que Hondarribia tem uma zona monumental muito interessante e que merece uma visita.

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Hondarribia (à direita) e Hendaya (à esquerda) No meio, o rio Bidasoa que faz a fronteira e aqui separa a Península Ibérica do resto da Europa

 

Referido acima mas não é demais. O País Basco nesta zona que atravessámos de “introdução” aos Pirinéus é lindíssima! As diferentes tonalidades de verde que se misturam à medida do ondear do terreno são deslumbrantes. Outra nota sobre este território que abrange dois países: a sua incrivel identidade cultural – e política! – com uma tranquilidade social que há alguns anos atrás seria impensável.

Andámos sempre junto à fronteira (que cruzámos pelo menos 2 vezes até ao Col d’Ispeguy onde almoçámos defronte de uma vista deslumbrante) em estradas sinuosas de sobe e desce mas sem grandes altitudes (sempre abaixo dos 1000m)…o que não significa ausentes de diversão.

Depois, já em território francês, visitámos a antiquíssima e monumental S. Jean Pied de Port (considerado o início do caminho francês de Santiago de Compostela).

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S. Jean Pied de Port
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S. Jean Pied de Port

Quando percorríamos mais uma das muitas estradas interiores, num constante ondular ao sabor das elevações do terreno, encontrámos num miradouro um grupo de motards franceses (com alguma curiosidade sobre uma certa VFR vermelha…). Mas o destaque, para lá da vista espectacular para um vale a perder de vista, foi a possibilidade de observarmos o voo elegante de algumas águias, abaixo do ponto onde estávamos.

Continuámos por mais cerca de 100km por estradas municipais muito divertidas até que regressámos a Espanha pelo túnel de Somport (cerca de 9km). E logo à saída, a estação ferroviária de Canfranc. Actualmente em recuperação depois de anos ao abandono, foi um marco histórico muito relevante no trânsito de passageiros (refugiados, judeus, etc.) que pretendiam fugir à guerra e às perseguições nazis bem como de géneros (ouro e outros valores para cá e volfrâmio e alimentos para lá).

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Canfranc – estação ferroviária (histórica na 2ª GG)
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Canfranc – estação ferroviária (histórica na 2ª GG)
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Canfranc – estação ferroviária (histórica na 2ª GG)
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Canfranc – rodeada de montanhas

Andámos em Espanha, França, voltámos a Espanha. A quase totalidade do percurso por aquilo que cá chamaríamos Estradas Municipais. Excelentes! No piso (apesar das dificeis condições meteorológicas que enfrentam), bem sinalizadas, com boas condições de segurança, muito bem desenhadas. Melhores qua a maioria das nossas “Nacionais”. Outra nota, importante para quem esteja menos atento: em França a esmagadora maioria dos estabelecimentos comerciais está encerrada ao domingo…principalmente as bombas de combustível. Convém jogar pelo seguro.

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A caminho de Torla…
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Quase em Torla…vista para Broto

Depois, se já tínhamos tido até aqui um certo saborear dos Pirinéus mas a baixas altitudes, a festa ía começar! No percurso até Torla ainda tomámos o gosto à N260 que nos iria acompanhar daí por diante e ser o ponto alto da viagem.

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Macizo de Mondarruego

 

PYRENAEOS 2019
10 Junho – Dia 3

E ao terceiro dia, primeira alteração de rota (algo para o que o viajante deverá estar sempre prevenido). A previsão meteorológica para os picos do Tour de France que pretendíamos fazer – Aubisque, Tourmalet e Aspin – indicava chuva com temperaturas abaixo de zero e forte probabilidade de neve. Seria uma experiência interessante…mas arriscada, principalmente com motos de estrada e carregadas. Assim, ficámos do lado espanhol e acabámos já em Andorra.

Foi apenas o terceiro dia, num total que se aproxima dos 1700km percorridos. Desta feita, dos previsto 300 ainda acrescentámos mais 15. Adiante explico.

Se na véspera tinham dominado os tons de verde devido à menor altitude que transformavam a paisagem num postal ilustrado paradisíaco, hoje andámos em altitudes maIs elevadas e o cenário era em tons de castanho (com algumas manchas brancas nos topos), mais agreste, mais violento. Vales profundos, desfiladeiros e subidas/descidas vertiginosas. São impressionantes os declives da generalidade dos montes. Quase a pique!

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Vielha: panorâmica
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Vielha Lá ao fundo…borrasca!

Quanto às estradas, percorremos essencialmente duas. A N230 (para Vielha e Baqueira-Beret) e a magnífica em toda a sua extensão N260!!!! Um festim autêntico para quem adora conduzir motos!

E em Baqueira-Beret festejámos o 10 de Junho!

Existem duas formas de percorrer estas estradas. Calmamente ( quase parando em cada curva para tirar mais uma foto ou reter mais uma imagem na memória) e nesse caso serão precisos muitos dias. Ou fazê-lo numa lógica de desfrute da estrada, da paisagem, da condução! Escolhemos esta última alternativa…mas também parávamos para as fotos…de vez em quando (até porque convinha baixar a adrenalina…ou descansar!). Descobri que o motor da moto tinha umas rotações que eu desconhecia…..

De tal forma, que depois de Baqueira, subimos o Col de Bonaigua (2072m) com nevoeiro cerrado. Ao começar a descer, o nevoeiro passou e….chegados cá abaixo…voltámos para cima e tornámos a descer!!!!

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Col de Bonaigua: 2072m e nevoeiro cerrado
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Col de Bonaigua: algum gelo e muito nevoeiro! No dia seguinte….
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Estradas fantásticas. Pela condução e pelas paisagens
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As fotos não fazem justiça à beleza do cenário… …e entretanto, o nevoeiro foi-se!!!
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Diversão absoluta!
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Diversão absoluta!

A N260 foi certamente projectada por um motard empedernido! A estrada não dá descanso. Sobe, desce, sobe, desce…e se há uma recta é apenas para nos permitir meter uma mudança acima para que o pé esquerdo não adormeça. Logo a seguir redução para mais uma curva! O Port Cantó entre Sort e Seu d’Urgell é espectacular….e muito frequentado pela malta das motos. Porque será?

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Port Cantó: 52km bem divertidos!
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Port Cantó

Curiosidade: ainda não apanhámos motards lusitanos!

Quanto a paisagem….é brutal! As montanhas são gigantes, imponentes com encostas a pique e vales profundos que acentuam a sua dimensão. Nos vales, predomina o verde e é frequente irmos na estrada a ladear rios cujo caudal em fundos de pedra lhes dá uma graciosidade e beleza fantásticas. As fotos não conseguem fazer justiça à paisagem. Que é um regalo para os olhos.

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Port Cantó

Finalmente, cansados mas mais do que satisfeitos, chegámos ao oásis do turismo e do consumo chamado Andorra.

É provável nova alteração de percurso. A previsão dá 100% de chuva e há pouco, o nevoeiro bem cerrado estava um pouco mais acima da cidade. Saindo por norte e estando Pas de la Casa bem acima dos 2000m e depois o Puymorens idem, o trajecto tornar-se-á perigoso e sem graça. Provavelmente vamos retomar à N260 a caminho do Mediterrâneo….

(PV) – Saímos da paradisíaca Torla para logo apanharmos a N260 que na véspera já nos tinha enchido as medidas. Pois bem…a partir daí foi um banquete! Sempre ao lado do Rio Ara, por vezes em desfiladeiros cortados a pique onde mal cabia o rio…e a estrada, chegámos a Ainsa.

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Ainsa

Aqui tomámos a A136… Se fosse um parque de diversões, tínhamos passado de um carrossel dos miúdos para um destinado a mais crescidos. A montanha russa ficava mais à frente.

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Lá ao fundo…o parque de diversões esperava por nós!!!

Foi a seguir a Ainsa que, numa curva à direita (para nós) fomos alertados por alguns companheiros de um grupo motociclista que nos fez sinal para pararmos. Havia gasóleo na estrada e, nesse grupo que vinha em sentido contrário e a descer, um casal numa BMW clássica tinha ido ao tapete. Felizmente sem consequências. Mas foi um aviso excelente e oportuno porque íamos em condução algo empenhada e certamente qualquer coisa poderia correr mal… Tudo bem, quando acaba bem!

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Bem visivel a mancha de gasóleo

Seguimos a A136 até quase El Pont de Suert, onde virámos à esquerda em direcção a Vielha, pela N230. Aqui começámos a subir…até que, já próximos, um túnel nos anunciava mau tempo do lado de lá. Parámos para agasalhos e à nossa esquerda estava, com bastante neve, o Pico de Aneto, o mais alto da cordilheira, com mais de 3400m de altitude. Majestoso!

Atravessado o túnel começámos a vislumbrar nevoeiro cerrado. Descemos para Vielha, uma cidade tipicamente de montanha, e completamente virada para o turismo de inverno. A arquitectura é tipicamente alpina (deveria dizer pirenaica?) em que os edificios seguem todos a mesma traça e  dimensões similares, o que no final dá um certo ar artificial. Mas a paisagem é de cortar a respiração.

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A descer para Vielha….e o nevoeiro cerrava…
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Vielha: panorâmica Foi naquela direcção que seguimos, rumo a Baqueira…e ao nevoeiro!

De Vielha (ou Viella) seguimos em direcção a Baqueira (ou Baquera). Subimos mais um pouco até chegar à rainha das estações de desportos de inverno dos Pirinéus. Celebrámos o 10 de Junho com a nossa bandeia nacional. E partimos à conquista do prato forte da jornada: o Col de Bonaigua (2.072m).

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10 de Junho – Dia de Portugal

Subimos rodeados de um espesso manto de nevoeiro. Nada que fizesse perigar a condução (embora à medida que subíamos nos preocupássemos com o que estaria pela frente) mas que nos retirava a espectacularidade das vistas. Chegados ao topo, fotos da praxe e toca a descer. Alguns metros percorridos e…o nevoeiro foi-se. A paisagem era brutal…e a descida também! De tal forma que…chegados lá abaixo, toca a subir outra vez, para repetirmos a descida. Escusado será dizer que o ritmo não era propriamente de passeio…apenas aquele que o kit de unhas permitia (sem colocar nada em risco)!  Diversão absoluta e adrenalina no máximo.

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Col de Bonaigua: 2072m e nevoeiro cerrado (que rapidamente desapareceria…)
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Col de Bonaigua: homenagem aos limpa-neves
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Paraíso?
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Gelo. Quedas de água. Montanhas. Estávamos bem no meio dos Pirinéus!
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A paisagem é linda. A estrada…fantástica!
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Pirinéus!

Chegados cá abaixo…pausa para almoço e recuperar a respiração, em Esterri d’Aneu, à beira rio e desfrutando da paisagem bucólica.

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Viagens ao Virar da Esquina nos Pirinéus! 10 Junho 2019

Depois…alguns quilómetros em estrada rápida, até Sort onde reencontrámos a nossa N260, um café na esplanada e toca a seguir até Seu d’Urgell (porta de entrada em Andorra) pelo Port Cantó: 52km de deleite e diversão.

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Paisagens fantásticas…
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…para onde quer que olhemos!

Depois…Andorra-a-Velha!

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Andorra-a-Velha
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Andorra-a-Velha

 

No dia seguinte…começaríamos o nosso trajecto rumo ao Mediterrâneo. O clima estava adverso…quanto? Iríamos descobrir….

 

Em destaque

Duelo de irmãs ao sol da Arrábida…e arredores!

BMW R1250GS vs BMWF850GS

A rainha das trails versus  a sua irmã mais pequena

Contacto ocasional com a Caetano Baviera abriu a oportunidade para uma abordagem diferente.

Em vez de uma experiência de condução com uma moto especifíca, porque não lançar o desafio de comparar a rainha de vendas do segmento trail – a BMW R1250 GS, recém chegada ao mercado depois da última evolução que para lá do aumento de cilindrada se traduziu na introdução de um conjunto de melhorias que provam que mesmo num produto com ampla aceitação e inegável qualidade é possível sempre continuar a busca pela perfeição – com a sua irmã “mais pequena” – a F850 GS, cuja última versão também é recente e que é quase uma moto totalmente nova face à sua antecessora, também neste caso com um aumento de cilindrada mas em que a mudança foi muito mais além.

Desafio lançado e a Caetano Baviera BMW Motorrad simpaticamente correspondeu!

CaetanoBavieraMotorrad_Logo.JPG

 

Estavam portanto lançados os dados para mais uma experiência de condução das Viagens ao Virar da Esquina!

O mote lançado foi:  será que onde uma acaba, a outra começa?

Porquê? Fará a questão algum sentido? Explico…

Qualquer marca (no mundo das motos ou em qualquer outro domínio) deve saber claramente a quem se dirigem os seus produtos. Quais as necessidades dos potenciais Clientes e como podem as mesmas ser satisfeitas. E, se acrescentarmos alguma dose de génio ao processo, conseguir saber quais as necessidades mesmo antes de os Clientes e o próprio mercado delas terem consciência (os apelidos Gates ou Jobs dizem-vos algo?).

Identificadas estas, porque diferentes de individuo para individuo (mas não tão diversas assim) é fundamental agrupá-las de modo a que um mesmo produto possa ir de encontro ao maior número possível de destinatários (chama-se a isto segmentar o mercado e a óbvia vantagem é poder massificar a produção tornando-a o mais acessível possível). Criados os segmentos, identificadas as características dominantes do produto, é altura de lançar a produção e fazer o teste derradeiro: a aceitação (ou não) do mercado.

Feito este arrazoado (deformação profissional, desculpem-me!) explica-se a pergunta que atrás serviu de mote. Será que o Cliente tipico da 1250 é totalmente diferente do da 850? A resposta é relativamente fácil. E será que os produtos – a 1250 e a 850 – são totalmente diferentes…ou pelo contrário existem muitos pontos de intersecção?

Esta a questão a que tentarei dar resposta através da experiência de condução dos dois modelos, em dois dias consecutivos em que cada um foi dedicado a um deles. Também o percurso escolhido, similar para ambos, procurou avaliar as motos na suas diferentes vertentes de utilização: cidade e dia-a-dia, auto-estrada e estradas rápidas, estrada de montanha sinuosa e também um cheirinho de todo o terreno (apenas estradão que as competências do escriba são modestas neste domínio…mas aqui uma das grandes surpresas! Já lá iremos…).

Começámos com a 1250 e no dia seguinte a 850. Os caminhos escolhidos, para lá da cidade de Lisboa e arredores, passaram pela A2, pela praias da zona da Lagoa de Albufeira e Meco até ao Cabo Espichel. Depois Sesimbra a caminho da Arrábida onde nos deleitámos nas maravilhosas estradas desta serra. Finalmente, o regresso à base.

Na cidade e no dia-a-dia

Comecei com a 1250.

Tinha previsto fazer ao contrário: primeiro a mais pequena e depois a “mana grande”. Numa perspectiva de ir de menos a mais até porque tinha algum receio de, se fizesse ao contrário, poderia sentir alguma “desilusão” com a 850. Mas, por conveniência de momento, acabei mesmo por começar com a 1250.

A moto impõe respeito. Por duas razões: a dimensão (a mota é grande, naturalmente) e o facto de ser a rainha do mercado! Ainda por cima recém melhorada. O top das trails. A versão que me foi confiada foi a HP. E a mota é verdadeiramente bonita! Não foi amor à primeira vista (já não tenho idade para essas coisas…) mas nunca deveremos omitir e deixar de realçar a beleza. Mesmo sendo um conceito discutível… Deixando as emoções de parte, a análise será o mais imparcial possível, como é óbvio.

Feito o primeiro contacto à moto, às suas características e modus operandi, comecei e… três coisas ressaltam desde logo: o excelente “encaixe” na moto (banco na posição mais elevada para o meu 1,82m) com uma correcta ergonomia dos punhos e todos os comandos disponíveis, um painel de bordo, melhor dito um ecrã de 6,5” excelente – visibilidade impecável em qualquer situação de iluminação, informação excelentemente distribuída, menús facilmente acessíveis a partir do punho esquerdo e …bonito! – e uma sensação de leveza na condução surpreendente para a envergadura da moto. A adaptação foi quase imediata. Comecei aqui a perceber a razão do sucesso…

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A condução no trânsito citadino matinal é fácil (convém ter cuidado que o ponto mais largo são as cabeças dos cilindros opostos, localização pouco habitual para quem não conduz estas motos) e convém realçar que não tinha atrás o kit de malas (que impõe outros cuidados). A moto conduz-se com muita facilidade – será que aqui fica bem o conceito de flexibilidade? Parece que ondeia à medida que vamos ultrapassando os infelizes enlatados enfileirados – e convém não esquecer: são 136cv no punho direito com um binário de 143Nm; esta é uma moto a sério! E a resposta é a condizer.

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A moto estava equipada com os diferentes modos de condução que podem ser alterados em andamento através de um botão no punho direito: Rain (que não experimentei), Road, Dynamic Pro e Enduro Pro. Em cidade rodei sempre no modo Road, o mais adequado à partida (embora nalgumas zonas se calhar o Enduro Pro faria sentido, face ao estado em que algumas vias estão. Mas essa é outra conversa…).

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No segundo dia, aguardava-me a 850. A versão destinada foi a Rallye e a sua decoração muito semelhante à da “mana grande”: tricolor azul, branco e vermelho com jantes douradas. Coerente!

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Obviamente bonita para mim (já referi antes que gosto desta escolha cromática mas aceito qualquer outra opinião…), a primeira impressão foi que também aos comandos as parecenças são grandes. Pela ergonomia perfeita (os comandos dos punhos são iguais) e pelo ecrã igual. Acho que outras marcas deveriam dar uma vista de olhos neste ecrã. Já o banco me pareceu ligeriamente baixo mas a polivalência tem o seu preço (provavelmente escolheria um um pouco mais alto…mas como se verá adiante, foi pormenor rapidamente esquecido). Quanto ao tamanho, naturalmente mais pequena que a antecessora. Diria que uma moto, à partida, muito adequada para o dia-a-dia.

 

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A primeira impressão não foi extraordinária. Leveza na condução, verdadeiramente fácil a adaptação, boa maneabilidade sem dúvida, agradável mas…faltava ali alguma coisa. Seria potência? Os 95cv não são assim tão poucos. Nem os 92Nm. A ideia que depois confirmaria de certo modo é que o motor parece “pouco cheio”. É linear no subir de rotação e talvez lhe falte um pouquinho de alma a baixas rotações. Adiante…

A moto tinha dois modos de condução: Rain e Road. Obviamente foi este o escolhido para toda a jornada.

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A circulação nas vias atascadas da capital é fluida, natural, despachada, muito fácil. A moto corresponde perfeitamente.

Uma nota sobre uma característica comum a ambas as motos: o sistema keyless! Levamos a chave no bolso. Quando chegamos à moto é só dar ao botão. Afastamo-nos e está em segurança. Extremamente prático, confortável, conveniente. Não é original mas é muito bom!

Outra característica comum (e, em geral a todas as trails): a condução em cidade é muito facilitada e mais segura porque conseguimos ver por cima dos tejadilhos dos automóveis e antecipar o que vai acontecer lá mais à frente. Também os espelhos passam por cima dos dos automóveis o que facilita imenso mas, cuidado…estão mesmo à altura dos das Transits desta vida!

Auto estrada e estradas rápidas (ou não…)

De novo na 1250!

Saí rumo a Sul. Ponte 25 de Abril e a dúzia de quilómetros até à saída para Sesimbra. Aqui, estrada nacional sem grandes constrangimentos, piso bom, em ritmo rápido (e modo Road) até à Lagoa de Albufeira.

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Duas referências que confirmaria ao longo do dia: a primeira para a protecção aerodinâmica. Ecrã na posição mais elevada (regulação manual muito fácil) e apenas a sentir algum fluxo de ar (um ligeiro turbilhão e não propriamente o ar a fluir)  na zona do peito. Muito confortável mesmo a velocidades um pouco mais elevadas… E esta é outra nota: a moto acede com toda a naturalidade a velocidades de cruzeiro acima do legal. Se não olharmos para o velocímetro somos frequentemente surpreendidos! E confirmei isto em todos os terrenos pisados!

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O dia estava óptimo e a quantidade de gente na praia sugeria que se calhar…. Fotos tiradas e regresso ao caminho. Deixemo-nos de tentações! Até porque a companhia merecia toda a minha atenção!

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Da Lagoa até Alfarim, nada a apontar mas quando inflecti para as praias e a qualidade do asfalto se degradou substancialmente a primeira nota de destaque negativa. No modo Road transmitia uma sensação de estar a navegar ao sabor das ondas, algo ondulante (pouco confortável e a tirar confiança). Mais tarde passei para o modo Enduro Pro e melhorou substancialmente.

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Mais umas fotos agora na Praia das Bicas, que isto também requer algum sentido estético e segui viagem…por outro pisos!

24 horas depois, repeti o trajecto, agora com a F850GS.

Naturalmente as sensações foram completamente diferentes. E o primeiro destaque, neste caso negativo: a protecção aerodinâmica que elogiei na 1250 é aqui quase inexistente. De facto esta versão tem um ecrã reduzido e a velocidades acima de 100km/h é desagradável. A 120 então….

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Soube depois, que noutras versões existe um ecrã um pouco maior e que, melhor, tem duas posições de altura, que acredito quase resolverem esta situação.

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Em andamento, a moto sobe de rotação e velocidade com toda a naturalidade, muito disponível e dar a entender que são possíveis ritmos de viagem bem interessantes.

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Quando cheguei ao piso degradado, uma agradável surpresa. Nada de parecer uma “barco”. Pelo contrário, absorvia naturalmente as irregularidades do asfalto, transmitindo segurança e até algum conforto (o possíevl nas circunstâncias).

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E aqui comecei a mudar a minha opinião! Esta moto tinha qualquer coisa…. Acho que duas palavras viriam a resumir esta impressão: confiança e divertida. Veremos adiante que era mesmo isto.

Em todo o terreno (mais ou menos…)

Novamente com a “big thing”

Saído da Praia das Bicas (não contem a ninguém…é segredo…uma das praias mais bonitas da zona a sul de Lisboa!) rumo ao Cabo Espichel passando pela Praia da Foz (selvagem e linda), o caminho passou a ser de terra batida. Estradão em bom estado e a permitir uma experiência de condução em terrenos que não me são familiares, por uma dúzia de quilómetros.

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Opção pelo modo Enduro Pro (que já vinha de trás) e vamos a isto. Com extremo cuidado, pois nem a perícia é muita nem a envergadura da moto recomendava afoiteza em excesso. Além de que a moto não era minha…se não gosto de estragar o que é meu, muito menos o alheio!

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E bem….a confiança que a moto transmite, absorvendo correctamente todas as imperfeições do terreno (garanto, melhor do em qualquer dos modos de condução no anterior alcatrão degradado), com uma segurança na pilotagem quer sentado quer em pé (posição corectíssima) que me foi inspirando ao ponto de a certa altura já circular a velocidade pouco recomendável…que quando constatei, reduzi! Sem dúvida a BMW sabia por demais o que estava a fazer. Uma moto com este peso, envergadura significativa e a conduzir-se com uma facilidade e um prazer imenso, deixando uma nuvem de poeira para trás. Palavra muito positiva para a polivalência, pois se em estrada já tínhamos constatado a competência (conforto, rapidez, segurança) aqui ficou comprovado o excelente trabalho realizado.

Chegado ao Cabo Espichel, algumas fotos e rumo à Arrábida com uma breve passagem por Sesimbra, agora já só por alcatrão.

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Depois da boa experiência da véspera era a vez da 850!

E começa o divertimento!!!

A caminho da Praia da Foz (como no dia anterior) primeiro contacto com a terra! E que surpresa.

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A leveza da moto, a disponibilidade do motor, sem qualquer reação brusca ao acelerador, inscrevendo-se com facilidade nas curvas, rapidamente se transformou no momento mais divertido do dia que depois se prolongou. Já lá irei.

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Se na 1250 sempre tive algum cuidado pelo tamanho e potência da moto e a perfeita consciência que qualquer reacção inesperada poderia dar azo a uma surpresa desagradável, com a 850 veio ao de cima a minha experiência em BTT. Em vez de dar ao pedal, aqui era só enrolar punho e desfrutar. Em pé ou sentado dei por mim a desfrutar imenso da condução da 850 neste piso. Será por se chamar Rallye?

De tal forma assim foi que, depois da visita ao Cabo Espichel e até Sesimbra, dei por mim a procurar estradas laterais em terra por onde pudesse continuar a diversão. O que aconteceu na zona da Serra da Azóia. Soube depois que poderia ter explorado um pouco mais porque há por ali umas praias escondidas… Mas uma coisa foi certa: o divertimento continuou!

Cheguei a Sesimbra e desta vez resolvi parar. Tempo para recuperar forças, alimentar e lavar as vistas. Dia espectacular, demasiado quente para quem tinha que andar a fazer quilómetros, mais a convidar à praia…mas tão divertido até aqui!

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A 850 estava claramente a cativar-me.

Pelas curvas e contra curvas da Arrábida

Aos comandos da 1250, a aproximação à Arrábida feita por Aldeia de Irmãos (nome curioso…), era tempo de começar a explorar outro modo de condução: o Dynamic Pro. Suspensões mais rígidas, resposta do motor mais rápida, nitidamente outro aprumo na condução. Comparei com o Road e a diferença sente-se. Como era natural que acontecesse! Afinal está lá para isso…

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A característica que realça já a mencionei atrás. Em nenhum momento temos qualquer sensação mais negativa devido à dimensão da moto. Pelo contrário. O bom conhecimento da estrada levou-me a ensaiar um ritmo nalguns pontos, mais elevado que o que seria normal (sem exageros…). Não era nitidamente ritmo de passeio…mas fiquem a saber, quer num dia quer noutro, aquela paisagem estava verdadeiramente deslumbrante!

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A moto, fruto certamente da sua geometria e do baixo centro e gravidade, inscreve-se nas curvas com uma leveza extraordinária que contrasta com a explosão (perfeitamente controlada!) à saída da curva em que o binário mais que mostrar presença, diz-nos claramente para que serve.

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Um deleite puro!

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E não tenho dúvidas que, com tal conforto e segurança, poucas “R” conseguiriam mostrar tal nível de serviço. Terão outros predicados, como é óbvio. Mas neste patamar, do utilizador comum, sem especiais dotes “artísticos”, que quer um veículo para viajar e desfrutar, tirando prazer quer dos locais por onde passa quer da condução, sempre confortável e seguro, a R1250 GS cumpre o seu papel na perfeição.

Afinal, para quem acredita na realidade e poder do mercado, a prova está dada. Por alguma razão, nas suas sucessivas evoluções, é há 20 anos a referência do segmento (ainda voltarei a este termo) e líder de vendas.

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No dia seguinte, e depois de alguns quilómetros divertidíssimos, era tempo de repetir a Arrábida.

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Sensações muito diferentes relativamente à véspera. O que antes era potência e binário, ritmo quase a roçar o vertiginoso, aqui…suavidade e um aprumo notável a fluir de uma direita para uma esquerda e vice-versa. Parece-me que o termo correcto é precisamente esse: fluir. Saímos de uma curva com toda a naturalidade a preparar já a trajectória para a próxima, sem sobressaltos nem qualquer desconfiança. Nas pequenas rectas…o punho enrola e a resposta está lá para alcançar a velocidade que na curva seguinte nos vai obrigar a utilizar o travão, sempre sem comprometer nem de qualquer forma assustar.

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É evidente que a forma de conduzir uma e outra neste ambiente, não é o mesmo. Pelas diferenças de dimensões, potência e geometria das motos. Na 1250, reservava o travão dianteiro para alguma correcção mais rápida e de pormenor, mas a entrada na curva era feita com o travão traseiro. Entrada controlada na trajectória, moto estabilizada e progressivamente acelerar aliviando o pé direito. Comportamento fantástico. Equilibrado e rápido. A posição de condução perfeita para este exercício diga-se.

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Já na 850, talvez por menor binário o exercício não resultava tão bem. A inserção em curva feita da mesma forma, mas mais em cima e com algum apoio do travão dianteiro e depois uma saída com um enrolar de punho mais entusiasta. Condução um pouquinho mais brusca, talvez. Mas atenção… foi a minha forma de entender a condução de ambas as motos…não necessáriamente a única, nem sequer eventualmente a mais adequada, admito. Cada um dança a música tal como a sente…

E em momento algum, a 850 me desiludiu neste ambiente. O que a 1250 tem em poder, esta tem em leveza e isso, inclinando para a direita e depois para esquerda, sente-se principalmente na inserção do corpo na moto. Balançamos como se fossemos só um. Já vos tinha dito que esta moto é mesmo divertida?

Notas finais

Para lá do que já foi dito ao longo do texto, há alguns pontos a realçar para finalmente procurar a resposta à questão inicial.

O consumo! Uma verdadeira surpresa. Acredito que, em ritmo mototurístico (que será sempre bastante rápido) a 1250 apresente consumos na fronteira dos 5 litros/100, eventualmente poucas décimas acima. Notável para um motor com 136cv, um binário fantástico e pesada. Com pendura e carga, aproximar-se-á dos 6. Excelente na mesma.

Já a 850, em utilização normal em estrada, com cidade pelo meio, algo a rondar os 4 litros/100 é excelente. Mais uma vez, carregada poderá ultrapassar os 4,5 mas será certamente por pouco.

Não é certamente pelo consumo que estas motos, uma e outra, deixarão de recolher as simpatias do mercado.

Algo que tardo em perceber é a utilidade do quick shift nestas motos. Em competição é outra coisa, mas aqui? Principalmente quando temos que salvaguardar que nas mudanças mais baixas (até 3ª) temos que continuar a utilizar a manete esquerda. Ou seja, umas vezes sim…outras não. Experimentei para ver o seu funcionamento. E rapidamente uniformizei o procedimento…sempre com embraiagem.

E a propósito, por falar em caixas de velocidades, não daria nota máxima a qualquer uma delas. Obviamente que o maior grau de exigência vai para a 1250. Nunca chegando ao nível de “prego” mas nalguns momentos notei uma certa falta de rigor na engrenagem…algo “folgada”.  Já na 850, notei algumas vezes uma certa imprecisão para achar o ponto morto. Todavia o engrenar da mudança pareceu-me mais rigoroso (com melhor encaixe…) o que resultava numa utilização mais agradável. Mas atenção, estamos a falar de pequenos detalhes em motos que estão a um nivel muito alto, e portanto também com expectativas lá em cima. O que aqui parece “defeito”,  em motos menos ambiciosas seria virtude…

Será que onde uma acaba, a outra começa?

É evidente que uma resposta rigorosa e literal seria sempre negativa. Porque nunca podemos dizer que uma moto “acaba”…ela servirá sempre para o seu dono cumprir os seus sonhos ou satisfazer as suas necessidades de deslocação, atendendo às respectivas capacidades. Se não vai mais depressa, vai mais devagar. Se vai menos confortável, fará menos quilómetros de cada vez. Mas irá e fará!

A questão coloca-se no plano que no inicio falei. São motos destinadas ou não a segmentos diferentes?

A resposta é clara: Sim!

A R1250GS é uma moto claramente vocacionada para as longas tiradas. Confortável, polivalente, rápida. Com potência e binario mais que suficiente para alcançar o outro lado do mundo! E sem massacrar o fisico do seu feliz condutor.

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Na minha experiência fiz cerca de 240km. Com algum grau de exigência pois tentei diversos tipos de piso, algum empenho na condução, estradas reviradas e acima de tudo muita concentração para conseguir captar as sensações correctas.  Cheguei ao final do dia (bastante quente por sinal) preparado para outros tantos…ou mais ainda. Diria que os 1000km que nos separam da Europa, são para fazer de uma só vez e “com uma perna às costas”.

E, será que não serve para o dia-a-dia? Claro que sim. A sua “leveza” e facilidade de condução traduzem-se numa agradável utilização quotidiana. E não será expectável que muitos consigam ter 2 motos na sua garagem… por isso, a polivalência da 1250 garante essa utilização sem qualquer constrangimento (nem sequer o consumo se ressente por aí além).

Coisa diferente é assumir que esta é uma boa moto para o dia-a-dia. E pode ser…pode ser… que um dia…até vá até ao deserto…nem que seja ali para os lados de Beja, por exemplo. Nesse caso diria, que desperdício.

Mas atenção! Quando se analisam os critérios que ponderam uma segmentação, o status pode ser um deles…e até nada dispiciendo! Por isso vemos tantas GS “das grandes” com utilização quase exclusivamente citadina…

Até aqui a BMW sabe o que faz!

E quanto à 850?

Falei em divertimento mais que uma vez a propósito dela. É a minha melhor definição. Uma moto excelente para as viagens do quotidiano que cumpre confortavelmente e de forma económica todos os requisitos de quem a utiliza no seu dia-a-dia.

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E depois…ao fim de semana, vai curtir umas estradas – e uns caminhos, pois claro! – em viagens de curta duração. Diria que o limite da agradibilidade andará na casa dos 300/350km por dia. A partir dai, o corpo do condutor é capaz de começar a queixar-se…

Mas uma distância dessas cobre a quase totalidade do território nacional…e quantas vezes por ano o motociclista médio vai até paragens para lá da fronteira? Com etapas diárias a raiar os 500 ou mais quilómetros? É que ela também os faz. E ligeira…mas o nível de conforto não é comparável com a “mana maior”.

Pode ser ousadia dizê-lo (quem sou eu afinal?) mas…a BMW fez um excelente trabalho na segmentação do mercado, identificando os seus clientes alvo e dotando os seus produtos das características adequadas a cada perfil!

Há dúvidas? De certeza que não. Os resultados de vendas estão aí a prová-lo.

Outras marcas seguem estratégias diferentes, quer na concepção dos seus modelos (com segmentação parecida) quer na escolha de perfis de Clientes com outro tipo de anseios e portanto dotando as suas motos de características diferentes. É normal. É assim que funciona o mercado. Os volumes de negócio face às próprias expectativas  identificam as mais bem sucedidas e as outras. Umas mais bem sucedidas, outras nem por isso. É a beleza da coisa….

Agradecimentos

A minha imensa gratidão vai para a Caetano Baviera BMW Motorrad que tão gentilmente correspondeu ao desafio, cedendo as duas motos que serviram para mais esta experiência de condução das Viagens ao Virar da Esquina. Muito obrigado!

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E quem sabe…algum novo desafio surge no futuro?

As principais protagonistas desta experiência foram, pois claro, as motos:

BMW R1250 GS HP (para os amigos e conhecidos, popularizada como a “GS”…o que diz muito)

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BMW F850 GS Rallye

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Em destaque

Borba – A filha alentejana de um deus menor

Casa do Terreiro do Poço

Situada em zona central de Borba, facilmente acessível a quem entra na cidade, a Casa do Terreiro do Poço viria revelar-se a enorme surpresa desta viagem.

 

Dista 3 km, se tanto, de Vila Viçosa. Se algum partido tira da proximidade, será também esse o seu sortilégio. Do esplendor da terra do Paço Ducal, dos jardins, do Castelo ou da Igreja da Padroeira de Portugal, a vizinha Borba ficou com a muito mais prosaica fama de terra produtora de bom vinho e da extração dos mármores cuja beleza do produto final se esbate quando vislumbramos as gigantescas escombreiras de pedra que resultam dos excedentes do  esventrar do solo e das imensas crateras cuja dimensão e profundidade apenas são perceptíveis em vista aérea.

Borba foi o destino desta jornada. E a Casa do Terreiro do Poço o nosso refúgio!

De volta à estrada

Mora já tinha ficado para trás (para perceber os antecedentes, ver aqui), Pavia foi rapidamente atravessada e segui viagem em direcção ao Vimieiro. Aí atravessei a EN4 e segui em direcção a Evoramonte. Estrada conhecida por recentemente a ter percorrido (ver aqui a crónica dessa viagem), bom piso e sem movimento.

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O dia começou molhado e assim prosseguiria até ao final. Por vezes uma aberta, outras vezes chuva mais persistente. Nada bom para quem queria voltar ao castelo de Evoramonte, altaneiro e imperial sobre a planície, e disfrutar da vista. O piso de calçada irregular e inclinada completamente molhado desaconselhou a visita. Ficou assim uma foto ao longe e desta vila histórica estavamos conversados.

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Redondo e uma história de cozinheiros. Depois, Alandroal.

Seguiu-se o Redondo. A chuva deu uma pequena trégua, suficiente para poder dar uma volta pelo centro da vila.

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Uma pequena paragem para reconfortar o estômago veio revelar-se fonte de uma curiosa história.

O jovem empregado de uma pastelaria, senhor de um característico e bem cantado sotaque alentejano, tinha acabado de ser eliminado de uma das fases do concurso Masterchef. Pelos vistos a sua sopa de tomate (um prato característico do Alentejo ao qual ele tinha dado o seu cunho pessoal, como bem o descreveu…e garanto que fiquei a salivar…) foi insuficiente face a outros “atributos” de algumas concorrentes. No fundo, deu para constatar na primeira pessoa que estes concursos são…pouco concursos! Simpático o rapaz, não viu o seu sonho seguir caminho mas estou certo que terá tirado a sua lição de vida. E se a paixão de cozinhar lá está, nada melhor que o Alentejo tradicional para lhe dar asas.

A viagem prosseguiu e a próxima paragem foi no Alandroal. Aqui debaixo de uma chuva miúda, persistente e muito irritante. O passeio pelo centro desta vila fundada no Séc XIII foi a pé. E incluiu a exploração do Castelo com a sua Torre de Menagem característica pois foi-lhe acrescentada a torre sineira da Igreja Matriz.

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A tender para o ensopado (prato típico alentejano mas que aqui tem um sentido bem mais concreto) segui viagem até à próxima paragem.

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A Sentinela do Guadiana

Juromenha impunha um regresso (e lá voltarei sempre que possível). A fortaleza em ruínas mas ainda imponente e magnífica, debruçada sobre um cotovelo do Guadiana tem algo de muito especial.

A carga histórica de do outro lado estar Espanha…que por acaso até é Portugal (já contei essa história aqui), a beleza da paisagem e a própria estrutura fortificada tão mal estimada, fazem-me dedicar alguns momentos à contemplação. Aconteceu, até porque naquele momento não chovia.

A caminho de Vila Viçosa

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Antes de chegar ao final da etapa em Borba, e sendo ainda relativamente cedo porque os quilómetros não tinham sido muitos e as previstas visitas ou não aconteceram (Evoramonte) ou foram mais rápidas (Redondo, Alandroal e até Juromenha) por causa da teimosia do S. Pedro (que definitivamente cortou relações comigo!), resolvi antecipar a visita ao Paço Ducal de Vila Viçosa que tinha previsto para o dia seguinte. Até porque julguei acertadamente que dentro do Palácio não choveria. Nesta altura já tinha o fato bastante “pesado” embora no interior estivesse seco. Mas começava a incomodar e portanto nada como uma visita turística debaixo de telha.

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Percorri o Paço Ducal em excelente visita guiada. Muitos pormenores e uma revisão in loco de mais de metade da História de Portugal: a história da Casa de Bragança. Cuja sede foi, a partir do Séc XV, em Vila Viçosa, apelidada de Princesa do Alentejo. Duzentos anos antes de o então 8º Duque de Bragança ser aclamado Rei de Portugal na sequência da Restauração de 1640: D. João IV.

Magnificamente preservado, com um espólio dos Séc. XVII e XVIII riquíssimo, o agora museu conserva a imponência dos seus tempos mais áureos. Merecem destaque a exposição de inúmeros quadros a aguarela ou pastel da autoria do Rei D. Carlos, que bem atestam a veia artística do nosso penúltimo Rei. Também as antigas cozinhas são memoráveis pela enorme bateria de cozinha toda em cobre. Para lá dos jardins cuidados que conseguímos vislumbrar, visitei ainda a secção do Museu Nacional dos Coches que está instalada nas antigas cocheiras, onde entre outras carruagens, se pode admirar o landau que transportava a Família Real no dia do regicídio.

Finalmente…Borba!

Feita a meia dúzia de quilómetros que por estrada me separava de Borba e estando o meu anfitrião à espera, rapidamente encontrei  o destino: a Casa do Terreiro do Poço.

Confesso que não tinha, neste caso, particulares expectativas. Foi mesmo pelo prazer da descoberta. E que descoberta foi!!!

Borba é uma cidade alentejana típica – curiosamente, a mais pequena cidade do Alentejo –  com as suas ruas de calçada estreitas, o casario branco de casas maioritariamente térreas. Foi conquistada aos mouros em 1217 (tal como Vila Viçosa) e um século mais tarde foi-lhe atribuído foral de vila. Muito antiga, anterior à nacionalidade, Borba vive um pouco na sombra da vizinha e faustosa terra dos Duques de Bragança.

E alguns dichotes não perdoam. Desde a referência que Borba tem uma fonte muito bonita….porque já não havia sítio em Vila Viçosa para lá a colocar ou o facto mais picante de ser onde os senhores nobres da outrora faustosa Vila (hoje cidade) Ducal alojavam as senhoras da sua predilecção, suficiente próximas para visitas frequentes e minimamente afastadas para não haver confusões… Estigmas que o tempo não apaga… razão para o título desta crónica.

Casa do Terreiro do Poço

Situada em zona central de Borba, facilmente acessível a quem entra na cidade, a Casa do Terreiro do Poço viria revelar-se a enorme surpresa desta viagem. E logo no início, uma pequena demonstração da forma como fui acolhido: o meu anfitrião aguardava-me convenientemente protegido da chuva que já há algumas horas não dava tréguas, para me ajudar a estacionar e acondicionar a moto. De imediato se disponibilizou para me recolher o fato que vinha já ensopado (mas cumpriu a sua obrigação de me deixar seco!) e colocá-lo a secar no sitio mais quente da casa, a casa das máquinas. Assim foi e no dia seguinte não só tinha o equipamento como se nada se tivesse passado como à hora de saída me entregou as luvas aquecidas!

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Somos tratados como amigos. Como família. É essa a verdadeira diferença entre a hotelaria “normal” e a possibilidade de sermos acolhidos em casas familiares, cujos proprietários fazem questão de nos fazer sentir como se em nossa casa estivéssemos. Ou melhor ainda….

A Rita e o João, os meus anfitriões brindaram-me com um acolhimento fantástico. Tal como fantástico é o trabalho que ao longo do tempo têm feito para transformar a Casa do Terreiro do Poço naquilo que é: uma série quase infindável de caxinhas de surpresas, tantas quantos os quartos – 13 – que disponibiliza.

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A Casa original data do Sec XVII (o piso térreo) tendo sido depois sucessivamente aumentada no séculos seguintes, com dois novos pisos. No último, já no Séc XIX, podemos observar nos quartos, escadaria e corredores, pinturas murais em diferentes estágios de conservação mas que têm vindo a ser recuperados com desvelo.

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Hoje, a Casa do Terreiro do Poço é constituida por outras casas contíguas que os proprietários vieram sucessivamente a agregar tendo todas elas como zona comum um frondoso páteo – quase uma pequena selva interior-  para garantir a frescura nos meses de canícula. Ao lado, um pavilhão com ampla zona de convívio fronteira à piscina.

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Devo dizer que a dado momento da visita guiada pelo João (que para lá da descrição e da história de cada pedaço, ia complementando com detalhes e curiosidades sempre interessantes e com algumas pinceladas de humor) estava completamente perdido…parece labiríntico. O que só lhe aumenta o interesse…

Cada quarto – são mais que simples quartos! – tem uma componente temática, com decoração adequada repleta de criatividade e bom gosto. Por isso, mais que um quarto, cada um é um verdadeiro cenário capaz de despertar a imaginação dos seus ocupantes tornando a estadia, de facto, memorável.

O quarto onde pernoitei:

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À medida que ia percorrendo a Casa, os quartos, uma ideia me acorreu à mente: não fotografar nem descrever os quartos (até porque na net é possivel encontrar algumas imagens). Porquê? Porque o sentimento de surpresa de cada vez que uma porta se abria e eu era transportado para um imaginário diferente do anterior merece ser destacado. Se alguém tiver curiosidade em conhecer e ficar aqui alojado, que venha de mente aberta e preparado para ser surpreendido.

Depois…bem, cada um tem a sua própria imaginação e criatividade…

Um quarto numa antiga cozinha? Uma suite dourada? Um quarto decadente? Ou um quarto étnico? …Com decorações a condizer, pois claro! E que tal uma verdadeira taberna à antiga ou uma adega? Afinal estamos em Borba…

Deve referir-se que existem quartos preparados para quem viaja com filhos pequenos, para pessoas com deficiência, para quem não se separa dos seus animais, o que só enriquece a oferta e enaltece o espírito de ir de encontro às necessidades de quem procura um local para descansar e usufruir.

E esta julgo ser a melhor homenagem que posso fazer à criatividade, perseverança, sentido estético e muito, mas mesmo muito trabalho que a Rita e o João têm dedicado à Casa do Terreiro do Paço.

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Quanto à forma como fui acolhido, já atrás o referi: como um amigo de longa data. Assim, apenas posso deixar o testemunho da minha gratidão e amizade.

De volta à estrada

Depois da visita guiada, de um convite generoso dos meus anfitriões para um jantar com um típico menú alentejano e de uma merecida noite de descanso (o dia tinha sido cansativo devido às condições meteorológicas), acordei esperançoso que a viagem de regresso pudesse ser mais seca. Esperança vã! O S. Pedro decididamente estava de costas voltadas para mim. De cada vez que subia para a moto…chuva!

Mas antes, um pequeno almoço …daqueles em que o mais dificil é conseguir abandonar a mesa. Tomado na companhia da Rita e do João, o tal espírito familiar que aqui se respira, a conversa fluiu e a estadia prolongou-se. Ainda bem, porque lá fora a coisa estava molhada! E as compotas confeccionadas pela Rita…. deliciosas!!! (ainda tenho no paladar a de tomate, uma das minhas favoritas e que era simplesmente fantástica).

À saída de Borba uma visão que nada tem de deslumbrante. A paisagem transformada pela ânsia extrativa dos mármores deta terra…

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Regressei a Vila Viçosa, desta vez para visitar o Castelo…

…e a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, a Padroeira de Portugal tal como reza a História:

Em 25 de Março de 1646, o rei D. João IV organizou uma cerimónia solene, em Vila Viçosa, para agradecer a Nossa Senhora a restauração da independência em relação a Espanha. Foi até à igreja de Nossa Senhora da Conceição, ofereceu a coroa portuguesa a Nossa Senhora, colocando-a a seus pés proclamou-a Padroeira Portugal. O acto da proclamação alargou-se a todo o País, com o povo a celebrar, pelas ruas, entoando cânticos de júbilo.

Assim se tornou Nossa Senhora a verdadeira Soberana de Portugal, por isso, desde este dia, mais nenhum rei português usou a coroa real na cabeça, direito que passou a pertencer apenas à Nossa Senhora. Em cerimónias solenes, a coroa passou a ser colocada em cima de uma almofada, ao lado do rei. Um facto extraordinário e único no mundo.

De Vila Viçosa rumei a Extremoz. Tinha por objectivo visitar o Castelo e percorrer algumas das suas ruas. Mas acabei por ficar pelo Rossio e ir tomar um café ao Águias d’Ouro. Recordo-me de miúdo e das viagens familiares, sempre que por aqui passava, era local de paragem obrigatória com a sempre necessária referência à arquitectura tão característica da sua fachada  sendo de realçar as enormes janelas e varandas dos pisos superiores, de estilo Arte Nova, construídas com complexas guardas de ferro com motivos geométricos e vitrais executados a verde, castanho e azul. É um sobrevivente dos antigos cafés de tertúlia portugueses de finais do século XIX, inícios do século XX, daí a sua importância sociológica, razão da sua classificação.