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À volta do Lago Azul

Pelos caminhos retorcidos da albufeira de Castelo de Bode

Quando a natureza tende para a perfeição, o homem aparece e altera tudo.

O Zêzere corre apertado entre montes depois de ter despencado lá do alto da Serra da Estrela, ter deixado para trás os Cântaros – o Gordo, o Magro e o Raso – e o seu berço, o Covão da Ametade (que visitámos em Outubro passado – ler aqui) e ter fertilizado a Cova da Beira até chegar à zona que já foi dos Templários. Foi aí que o homem, incansável, resolveu tolher-lhe a liberdade e fazer, à época, a maior barragem de Portugal (ainda hoje, pós-Alqueva, é a segunda maior) e criar assim um enorme lago onde antes apenas havia serrania e um pacato rio que corria para a foz em Constância e aí libertar o seu conteúdo serrano no Rio Tejo. Foi esta albufeira, de Castelo de Bode, que percorremos. Há quem lhe chame Lago Azul. Tentámos perceber porquê…

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Desta feita, a viagem foi feita em grupo. 9 motos, 8 solitários motards e um gentil casal. Tendo a maior parte do grupo, 6, saído da cidade da alface (mais 2 apanhados pelo caminho numa área de serviço da A1 e o nosso casal à entrada de Constância) bem cedinho, quando se fez a reunião já tínhamos cerca de 120km de autoestrada.

Depois foi um cafézinho para acordar e uns curtos quilómetros até à barragem. A estrada seguia pelo vale do Zêzere, com um rio à nossa esquerda e uma paisagem que nos preparou para as paisagens que veríamos no resto do dia. Estrada revirada, o que também seria quase uma constante… Convém referir que o S.Pedro nos brindou com um dia espectacular. Tudo a compor-se.

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Diz o aforismo popular que “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. Quando olhei para ela, esperei que a água fosse ainda mais mole e a pedra ainda mais dura!

A parede impõe respeito. E impressiona!

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Parámos mesmo em frente do paredão da Barragem de Castelo de Bode, no seu sopé e perto da zona de descarga. Atrás de nós, mais de 100m de altura de betão. Para lá do abastecimento de água a Lisboa, da produção de energia eléctrica e do auxílio à prevenção de cheias, a extensa albufeira é local de eleição para os praticantes de inúmeros desportos náuticos: windsurf, vela, wakeboard, remo, motonautica, jetski e ainda a pesca desportiva.

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Começámos logo a perceber o porquê de Lago Azul. A tonalidade da água é de um azul forte que contrasta na perfeição com a diversidade de verdes das margens.

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Próxima paragem: Aldeia do Mato. A estrada até lá foi como todas as outras que daí para a frente iríamos encontrar: curvas, contra-curvas, um prazer para a condução das nossas montadas. E um deleite para os olhos:

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Aldeia do Mato e a sua praia fluvial ofereceram-nos uma visão paradisíaca (até porque nesta altura quase não se vislumbra vivalma!). Dotada de infraestruturas para diversos desportos náuticos é um dos pontos de eleição para quem ruma a estas paragens.

 

Depois foi seguir por estradas municipais (em bom estado) em direcção ao Penedo Furado, local da próxima paragem.

A dada altura, o nosso percurso coincidiu com o trajecto da Estrada Nacional 2. Mas o original!!! Não o das vias rápidas. Estávamos a 380km de Chaves, 359 de Faro… e o Sardoal era logo ali, a 13km! Obviamente documentámos o momento:

 

Um pouco mais à frente, a oportunidade para mais uma foto de grupo em cenário magnífico:

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Chegados ao Penedo Furado comprovámos a merecida fama do local.

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Um vale bem cavado, com um ribeiro cujo curso é domado por sucessivas mini represas que quando fechadas permitirão a formação de pequenos lagos que associados à frondosa vegetação serão bem prasenteiros em alturas de maior canícula.

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Na zona mais elevada deste vale, existe um rochedo gigantesco com uma enorme abertura de feitio afunilado, que dá nome à praia, onde foi criado o Miradouro do Penedo Furado, de onde é possível admirar a magnífica paisagem, a ribeira de Codes, a albufeira da Barragem do Castelo do Bode e algumas casas das povoações envolventes. Do lado direito do miradouro, existe um nicho com a imagem de Nossa Senhora dos Caminhos, após o qual existe um trilho lateral que permite passar à zona mais baixa do penedo, e descer até à praia fluvial, passando pela denominada “Bicha Pintada”.

 

A “Bicha Pintada”, localizada na margem direita da Ribeira do Codes, abaixo do miradouro do Penedo Furado, é um fóssil que, se crê que tenha mais de 480 milhões de anos.

 

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Daqui, sempre pela velhinha EN2 (mas em razoável estado) seguímos em direcção a Vila de Rei. Percebemos a razão da construção da nova estrada. De carro deve ser um tormento…mas de moto? Um deleite!

Atravessámos Vila de Rei, porque o destino ficava 2 km após: o Centro Geodésico de Portugal, no Picoto da Melriça. No centro do País mas também lá no alto, com uma deslumbrante vista de 360º (é verdade, bem lá ao fundo, quase confundida com algumas nuvens, estava a Serra da Estrela!).

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Foi nos finais do século XVIII que D. Maria I mandatou Francisco António Ciera para elaborar a “Carta Geográfica do Reino”. Foi nesta altura que o picoto da Melriça começou a ser reconhecido como o Centro Geodésico de Portugal. A Serra ou Picoto da Melriça está situada a nordeste da povoação de Vila de Rei e tem a altitude máxima de 592 metros.

 

Feita a visita, descemos novamente a Vila de Rei para agora tomarmos o rumo de Ferreira do Zêzere. Estrada larga, bem lançada, a permitir um ritmo mais rápido mas revirada como todas as outras. Deu para desfrutar um pouco da condução (sem exageros, atenção!). Quase a chegar a Ferreira de Zêzere, era tempo de passar para a outra margem (direita) da albufeira. A ponte, magnífica e com um enquadramento belíssimo.

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A parte da manhã estava quase concluída. Passámos Ferreira do Zêzere e um pouco à frente, em Águas Belas, demos alimento às nossas briosas montadas. Quando aos ilustres cavaleiros e a digníssima cavaleira…esperaram mais uns minutos, poucos, e lá fomos à “Festa do Porco” no Centro de Férias e Formação do Sindicato dos Bancários.

Quando chegámos, o suino já tinha perdido a sua “personalidade jurídica” e estava a passar à situação de febra e entremeada. O resto foi história…

Salientar apenas o excelente momento de convívio que desfrutámos, antes de voltarmos aos caminhos. E que caminhos!!!

Resolvido o almoço e considerando que nesta época do ano, os dias ainda são “pequenos”, importava voltar à estrada que o programa era ambicioso.

Saídos do Centro de Férias, logo o GPS mostrou que o almoço lhe tinha caído mal… mandava ir por um sitio…e imediatamente mandava voltar para trás! Não torna a beber…  A explicação é fácil: o trajecto foi delineado consultando mapas e tentando seguir os caminhos assegurando que eram asfaltados (o Google Earth é uma boa ajuda neste aspecto) mas dificilmente tínhamos a noção do tipo de estrada. Algumas onde passámos eram estreitas…bem estreitas ao ponto de ser dificil cruzarem-se…2 motos! Daí talvez as hesitações do equipamento e de quem se guiava por ele. Esta malta das cidades habituada a auto-estradas!!!

Nada que não se resolvesse.

O rumo apontava para Dornes mas numa aproximação diferente da que seria mais comum. Por norte, numa estrada que seguia junto à margem da albufeira. E garanto que valeu a pena ter enfrentado essas dificuldades.

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Curvas e contra curvas, sempre com a margem à nossa esquerda em mais uma oportunidade de validar o nome que é dado a esta albufeira: Lago Azul. Podiam acrescentar o adjectivo “bonito”!

Dornes é uma pequena vila, que já conheceu grandeza e importância noutras eras. Situa-se numa pequena península à beira Zêzere, no concelho de Ferreira do Zêzere. Foi sede de concelho entre 1513 e 1836.

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Terra muito antiga, anterior à fundação da nacionalidade, como o atestam os monumentos e os vestígios arqueológicos encontrados. Já na primeira dinastia, documentos lhe fazem referência, sendo documentada a presença de um religioso de Dornes no Foral de Arega, em inícios do século XIII. Ainda neste século há referências à Comenda Templária de Dornes.

Aliás, o principal ex-líbris de Dornes e exemplar testemunho da presença templária, é a original torre de base pentagonal que se ergue no ponto mais alto da península e fronteira à espectacular paisagem de águas calmas e um azul profundo.

 

Mais tarde, no século XV, Dornes, enquanto Comenda Mor da Ordem de Cristo teve por Comendador D. Gonçalo de Sousa, homem muito influente, da Casa do Infante D. Henrique, e que aqui mandou construir, em 1453, a Igreja de Nossa Senhora do Pranto. E cuja lenda é também muito curiosa!

 

Lenda de Nossa Senhora do Pranto

    Há muitos séculos atrás, as terras desta região pertenciam à Rainha Santa Isabel, mulher de el-rei D. Dinis. Era feitor da rainha, na região, um cavaleiro chamado Guilherme de Paiva, ao qual atribuíam proezas milagrosas. Conta-se deste homem que, certa vez, passou a pé enxuto o rio Zêzere, caminhando de uma margem para a outra sobre a sua capa, que lançara sobre as águas.

    Um dia, andava Guilherme de Paiva atrás de um veado, na banda de além do Zêzere, onde só havia brenhas e matos espessos, quando ouviu uns gemidos muito dolorosos. Tentou saber de que sítio provinham e, apesar de perder algumas horas nesta busca, nada conseguiu achar, pois os gemidos pareciam provir dos mais diversos locais. No dia seguinte voltou ali e, de novo, os gemidos se espalharam à sua volta, vindo agora de um tufo espesso de mato, depois de um rochedo, numa ciranda sem fim. Guilherme de Paiva sofria, espantado, partilhando a dor daquele alguém que parecia fazer parte do universo. Ao terceiro dia, tudo se repetiu como antes.

    Tomou, pois, a decisão de partir para Coimbra, onde estava a sua senhora, a fim de lhe relatar aqueles estranhos factos. Assim que chegou à cidade, dirigiu-se imediatamente à pousada real e solicitou a sua visita a D. Isabel.

    Esta, mal o viu, e depois das saudações devidas, disse-lhe:

    — Vindes por via dos gemidos, Guilherme?

    — … !

    — Não precisais espantar-vos! Três noites a fio sonhei com eles e sei do que se trata.

    — O que é então, Senhora? Procurei por todo o lado e nada vi…!

    — Bem sei. Deus contou-me tudo nos sonhos. Agora vais voltar ao local e procurar onde te vou dizer: aí acharás uma imagem santa de Nossa Senhora, com o Filho morto em seus braços.

    — Assim farei, minha Senhora Dona Isabel! Mas, e depois, que faço eu dessa imagem?

    — Guardá-la-ás contigo, até me veres chegar junto de ti!

    Despediu-se Guilherme de Paiva, da Rainha Santa, levando na memória a localização exacta da moita onde a imagem de Nossa Senhora o aguardava, gemendo, e partiu de Coimbra.

    Já de volta a terras do Zêzere, o cavaleiro dirigiu-se à serra da Vermelha, como lhe dissera D. Isabel, e foi milagrosamente direito a uma determinada moita, onde achou enrodilhada em urzes a imagem da Virgem pranteando a morte de seu Filho.

    Durante algum tempo manteve-a consigo, na sua própria casa. Os gemidos haviam cessado, e assim Guilherme de Paiva tinha a santa imagem na sua câmara, com um archote aceso de cada lado.

    Um dia, a Rainha Santa foi, finalmente, às suas terras do Zêzere resolver o caso da imagem. Assim, junto a uma velha torre pentagonal que já aí existia, mandou erigir uma ermida para a Virgem achada nas moitas. E nessa torre — que provavelmente foi construída pelos Templários —, ordenou que se instalassem os sinos da ermida.

    Em breve, o povo começou a construir casas em redor da capela e da torre e, diz a lenda, a Rainha Santa deu a esta vila nascente o nome de Vila das Dores, nome que com o tempo se teria corrompido até dar Dornes. É isto o que conta a lenda transcrita no velho manuscrito.

    A capela com a sua torre sineira ainda hoje existe, e a imagem achada há muitos séculos atrás é venerada sob a designação de Nossa Senhora do Pranto.

 Fonte Biblio FRAZÃO, Fernanda Passinhos de Nossa Senhora – Lendário Mariano Lisboa, Apenas Livros, 2006 , p.114-115

 

Este local de culto deu à povoação, parte da importância que esteve na origem, em 1513, da atribuição do Foral Manuelino.

Aqui nasceram também, um século mais tarde, muitos dos heróicos combatentes que por volta de 1650, durante a Guerra da Restauração, se bateram nas fronteiras para assegurar a independência nacional.

Já no Século XIX, a reforma de Rodrigo da Fonseca, veio extinguir o concelho de Dornes, integrando-o desde 1835, no concelho de Ferreira do Zêzere.

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De então para cá, Dornes tem sido um polo de atracção turística e a sala de visitas do concelho de Ferreira do Zêzere em função das suas paisagens deslumbrantes sobre o Zêzere e também em virtude da grande carga histórica e monumental que as suas aldeias encerram. De entre os visitantes ilustres, destaca-se Alfredo Keil que em 1890, estando hospedado na Estalagem dos Vales, ensaiaria com a então Sociedade Filarmónica Carrilense a primeira orquestração da marcha: “A Portuguesa”, sendo por isso o Carril um dos berços do actual hino nacional de Portugal.

Saímos de Dornes e o nosso objectivo era atravessar novamente a albufeira para demandarmos a margem esquerda que já de manhã tínhamos percorrido. Mais tarde voltaríamos ao lado direito.

A estrada até à ponte era magnífica, belas vistas e coerentemente, repleta de curvas, para a direita, para a esquerda, para a direita e esquerda…enfim, para todos os gostos. E um aperitivo para o que se seguiria um pouco mais à frente. Atravessámos a ponte, com registo fotográfico e seguímos até Vilar do Ruivo onde virámos para sul.

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De vez em quando, numa ou outra curva de estrada, quando o arvoredo o permitia, algumas vistas deslumbrantes faziam com que o ritmo nunca fosse grande. Mas também não era essa a nossa preocupação.

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Daqui, entrámos em estradas mais estreitas sendo que o objectivo era mais à frente encontrarmos aquilo que é designada “Estrada Panorâmica”. Pelo caminho ficou uma tentativa de ir até à praia fluvial do Trizio mas… num dos acessos, estrada cortada por obras. No outro acesso, estradão em cascalho com poucas garantias de segurança nas zonas mais inclinadas, principalmente para as motos mais estradistas. Assim se faz o Turismo em Portugal.

Seguimos viagem e lá encontrámos a tal de “Panorâmica”. Iria levar-nos novamente até à ponte de Ferreira de Zêzere que tínhamos atravessado de manhã. Pelo caminho ainda alguns pontos de interesse. Uns previstos e outros que nos iam surpreendendo.

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Foi o caso, depois de voltas e reviravoltas, a acompanhar o relevo acidentado e de vez em quando a vislumbrar a albufeira, que a estrada nos proporcionou esta visão: um descida sinuosa, uma pequena ponte e a subida do lado oposto. Lá em baixo, uma ribeira que encaminhava alguma pouca água até à barragem. Deslumbrante!

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Obviamente que a comitiva aproveitou para descansar um pouco. Os quilómetros já começavam a pesar…

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Continuámos pela designada “Estrada Panorâmica”. Acreditamos que o seja…pelo pouco que conseguíamos ver. Ou porque não estão previstos espaços de paragem para se poder desfrutar da paisagem ou porque, mesmo que consigamos parar, o arvoredo apenas nos deixa vislumbrar a beleza dos cenários que mesmo ali ao lado vão desfilando. O facto de a albufeira de Castelo de Bode estar entregue a uma meia dúzia de Câmaras Municipais poderá justificar que o tremendo potencial não seja melhor explorado, quando não entregue à incúria.

Outro aspecto importante para quem queira desbravar esta zona: a albufeira tem muitos povoados ribeirinhos, a maior parte com infraestruturas mais ou menos completas para desportos náuticos…ou no limite, apenas para uma banhoca. Todavia, em geral para lá chegar são percursos de ida e volta (e por vezes tortuosos ou de difícil orientação…a sinalização ou não existe ou é fraca). Quem queira visitar, estará quase sempre a ir lá abaixo, voltar pelo mesmo caminho, seguir e depois ir repetindo o processo…Enfim, é a vida! Provavelmente, os amantes das coisas mais naturais acharão bem. Mas o potencial turístico, no sentido de permitir aceder com qualidade a um cenário deslumbrante, está lá. Regressemos à nossa viagem…

Ainda antes da ponte, tempo para visitarmos um pequenino povoado, no fundo de uma estrada estreita e inclinada, mesmo à beirinha da água: Alcanim. O sol poente dava agora tonalidades que ainda não tínhamos apreciado. Foi a nossa penúltima paragem. E o local onde alguns companheiros se despediram pois urgia chegarem aos respectivos destinos.

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Dirigimo-nos para a ponte de Ferreira do Zêzere. A tal “Estrada Panorâmica” estava quase terminada. Mas antes ainda mais uma foto:

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Lá ao fundo, a ponte, que rapidamente atravessámos (pela segunda vez na jornada) e finalmente, o último ponto do programa. Apropriadamente, e para fechar em beleza, a praia fluvial da Castanheira…também conhecida por Lago Azul!

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A jornada estava concluída. A noite acercava-se e era tempo de regresso. Uns pelo interior e estrada nacional, outros mais “apressados” tomaram a auto-estrada no Entroncamento. As últimas despedidas e daqui para a frente…até casa!

Foram cerca de 450km, 5 horas de percurso de manhã e mais outras 5 horas no meio-dia da tarde! É evidente que com algumas paragens pelo caminho…

Mais uma Viagem ao Virar da Esquina, em óptima companhia, com um feliz patrocínio do S. Pedro e com a possibilidade de desfrutar de estradas ideais para o mototurismo rodeadas por exuberante paisagem. Recomenda-se!

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Até à próxima e….boas curvas!

 

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Uma volta pelos nossos terrenos de caça

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Virámos a Esquina e fomos para a região saloia…

Nas velhinhas histórias do oeste (americano, claro) os Indios referiam-se sempre aos seus territórios de influência como os “terrenos de caça”.

Quais Sioux, Cheyennes ou Apaches, fomos até ao nosso oeste e vagueámos pelos nossos terrenos de caça. Aqueles a que, por nos serem próximos, voltamos sempre que a oportunidade de conquistar novos territórios não surge.

E mesmo assim, sempre descobrimos novos caminhos… ou redescobrimos o prazer de percorrer outros já feitos noutras investidas. Assim foi!

Sábado cedinho, num dia que se previa excelente para a prática do mototurismo – leia-se passear de mota desfrutando da paisagem, do vicio da condução das “nossas meninas” e do prazer do convívio e camaradagem – rumámos a norte. A primeira paragem era próxima e, segundo dizem, está na moda.

No alto do Cabeço de Montachique

Não sei se é verdade, mas um monte que ultrapassa os 400m de altitude, a pouco mais de uma dezena de quilómetros de Lisboa só pode proporcionar vistas deslumbrantes. Mesmo rodeado de outros mas de menor “protagonismo”, não desiludiu. A paisagem que surge à frente dos olhos é verdadeiramente espectacular.

 

Com a vista a 360º do Cabeço de Montachique dominamos o horizonte. Para norte, vê-se distintamente o Montejunto. Para sul, apesar de alguma neblina que só realça a sua grandiosidade, a Arrábida. No meio, toda a zona urbana da grande Lisboa! Espectacular…já tinha dito, não tinha?

A propósito das Invasões Francesas

Dali, por estradas onde qualquer pequena recta é corpo estranho – N374, M530-1, N115 e N115-4 – fomos andando até Arruda dos Vinhos, não sem antes fazermos uma paragem para a História de Portugal. Falo do Forte da Carvalha (obra nº 10) um dos mais de cem elementos fortificados que constituiram as Linhas de Torres.

 

Lá pelas alturas de 1810, Napoleão andava frustrado porque uns caramelos esquecidos no canto ocidental da Península Ibérica não só o desafiaram desobedecendo ao Bloqueio Continental, como ainda por cima, não se deixavam conquistar. Pelo contrário, as suas tropas entravam, pilhavam, levavam no toutiço e voltavam para casa com o saque…mas derrotadas. À terceira vez, chateado que nem um perú (atendendo à nacionalidade do ditador, talvez fosse mais apropriado um galo…), mandou um exército de 65 mil soldados comandados pelo invencível Massena, o “filho da vitória” como era conhecido até então…

Só que do outro lado, com menos efectivos, mas utilizando a inteligência, estavam as tropas portuguesas e inglesas, lideradas pelo Duque de Wellington. Inspirado pela ideia de um engenheiro indígena que achou que a morfologia do terreno servia às mil maravilhas para construir uma linha de defesa intransponível, mandou construir pequenos elementos fortificados no topo dos muitos montes que circundam Lisboa, dominando assim todos os desfiladeiros e vales por onde o exército francês poderia caminhar rumo a Lisboa. Construiu assim 3 linhas de fortificações concêntricas – as Linhas de Torres – à mais afastada das quais pertencia o forte no qual parámos. Lá do alto, uma vista fantástica para a quase planicie que se estende para noroeste e tem de um lado o Montejunto e do outro o Rio Tejo.

Em Julho de 1810, Massena e as suas tropas entram em território português. Vão avançando apesar de no caminho irem sendo “desbastados” pela resistência do exército luso-britânico e das gentes que não achavam piada aquela invasão das suas terras. No Buçaco, a 27 de Setembro, levaram a primeira grande lição. Ainda assim persistiram.  Chegaram à zona onde nós agora estávamos, Arruda dos Vinhos, em 11 de Outubro.

 

Fácil se torna perceber o que aconteceu: o Massena deparou com aquilo à frente, viu que a coisa não ia correr bem para o lado dele até que…numa certa noite de 6 de Março de 1811, substituiu os sentinelas por bonecos de palha e cavou no silêncio da noite de tal forma que nunca mais ninguém o viu cá pelo pedaço. Nem a ele nem ao Napoleão…

Paragem na Arruda dos Vinhos

Quanto a nós, feita a visita era tempo de descer à Arruda onde nos esperava um cafézinho para abrir a pestana. A primeira parte da volta estava concluida!

Restabelecidas as energias e nunca esgotada a conversa, retomámos a marcha. Agora o sentido era nascente-poente e iríamo-nos aproximar do mar. Mas antes ainda havia muito para curvar. Diversão assegurada!

Em regime de curva e contracurva, até ao mar

N248, M533, N115, M530, N374, N9-2….umas melhores que outras (é curioso quando mudamos de um concelho para o vizinho, verificar o maior ou menor cuidado que devotam aos pisos das suas estradas…), mas sempre em registo de curva-contracurva. Passámos Enxara do Bispo e eis que chegávamos a um sítio já conhecido: Gradil! Mais propriamente à estrada que nos conduz até cerca da Tapada de Mafra (e até esta localidade se a seguíssemos até ao fim, o que não aconteceu). O facto de ser um antigo troço do Rali de Portugal diz tudo, não diz? Apesar de conhecido, é daqueles sítios em que é absoluto prazer regressar (assim haja sorte para não apanharmos uns lentos pelo caminho…não que o objectivo seja acelerar que nem loucos, até porque o perigo NÃO é a nossa profissão). Desenhar aqueles encadeamentos de curvas, com uma vegetação luxuriante à nossa volta é espectacular.

Depois de pequena paragem para retomar o fôlego, seguimos viagem. Em Murgeira virámos à direita a caminho da N9. Direcção norte até à Encarnação e depois, por S.Domingos e Galiza até tomarmos a N247.

Mar à vista!

Chegámos à costa atlântica! Depois das serranias, agora era tempo de irmos às praias. E começámos pela Praia da Calada. Descida íngreme até lá abaixo. O tempo estava espectacular, a praia linda e sentiamo-nos esmagados pelos dois promontórios que nos rodeavam. Magnífica!

 

Agora iríamos com rumo sul, acompanhando a linha de costa. O poiso seguinte foi a Praia dos Coxos. Do alto do parque de estacionamento tínhamos uma vista magnífica para a praia e para o mar que apresentava alguma ondulação, o suficiente para lhe aumentar a beleza.

 

 

Ericeira e as especialidades locais

Aproximava-se a Ericeira…e o já ansiado almocito.

Ainda uma paragem no caminho: no miradouro que da estrada nos permite ver em todo o esplendor a Praia de Ribeira d’Ilhas. Linda!

 

Na Ericeira esperava-nos um belo peixinho na brasa que estava mesmo delicioso. Robalo e Besugo, a gosto e com aquele travo a mar do peixe bem fresco e pescado (não criado!). Depois, ainda a oportunidade de provar uns Ouriços…sabem o que é? Uma especialidade local! Não sabem? ….pois!!!

Azenhas do Mar!

O trajecto planeado levou-nos junto à costa até às Azenhas do Mar. Até aqui perfeito. A vista desta pequena vila construída na arriba é espectacular.

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O regresso…atribulado!

E agora, o regresso a casa mas naturalmente com muito percurso ainda para fazer. E aqui, dar nota de algo que é fundamental quando se planeia uma viagem (grande ou pequena como esta): definimos o “por onde”, sabemos bem o “como” e escolhemos o “quando”. E este quando deve levar em consideração alguns pormenores que lá mais para a frente podem ser pormaiores. Foi o caso!

A partir das Azenhas… Disse no início que era sábado e estava um tempo óptimo. Pois! Aquela zona estava infestada de pessoal que, tal como nós, desfrutava de um dia espectacular. De “enlatado” e a velocidades dignas de qualquer bicicleta a pedal (sem assistência eléctrica!). As estradas são estreitas pelo que as ultrapassagens em segurança eram quase impossíveis, principalmente à medida que nos aproximávamos de Sintra e depois até ao Cabo da Roca. Subir de Colares atrás de 3 carros, que iam atrás de um autocarro, que ia atrás de um Tuc-tuc é…..

Chegados ao Cabo da Roca, foi sem surpresa que verificámos que estava cheio. O turismo que faz maravilhas pela nossa economia, deixa-nos quase obrigados a deixarmos para quem nos visita o desfrute das nossas belezas naturais (pelo menos as mais famosas).

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Entretanto, a jornada aproximava-se do seu termo. Faltava a cerejinha no topo do bolo (mas também com algum trânsito): a Lagoa Azul da Malveira até à Estrada do Autódromo. Ainda assim, magnífica.

Depois…despedidas e a promessa de em breve partirmos novamente para a estrada. Fizemos cerca de 200km, deliciámo-nos com paisagens espectaculares, belas estradas (umas desertas, outras nem tanto…) e a camaradagem habitual nestes eventos.

E assim foi…mais uma VIAGEM AO VIRAR DA ESQUINA!

Da Lagoa de Albufeira à Comenda de Monguelas (2)

Sesimbra ficou para trás.

A luz dos dias de Inverno é magnífica mas também um bem precioso. Porque os dias brilhantes não abundam e, principalmente, porque são curtos. Por isso era fundamental chegarmos rápido aos próximos destinos.

E o que terão em comum a viúva de um presidente americano, um espião inglês que segundo consta tem licença para matar, trágicos amores e desamores literários, um “Processo Revolucionário em Curso” ou palácios e fortes abandonados, praias maravilhosas e umas estradas que são uma delícia para fazer de mota?

O ponto comum é…a Arrábida!

2ª parte – Do Portinho à Comenda

Saí de Sesimbra em direcção a Azeitão pela mesma N379 que já nos tinha trazido do Cabo Espichel. Pouco antes de Aldeia de Irmãos viramos à direita seguindo as indicações “Arrábida”. Não tem que enganar.

A principio sem grandes inclinações mas já com curvas e contra curvas, uma constante a partir daqui, avançamos para sul em direcção ao contorno montanhoso da Serra. Depois de Casais da Serra, a estrada começa a empinar. Chegados mais acima, eis que surge, lá em baixo, o mar. Azul! Profundamente azul!

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O mar e Tróia, lá ao fundo

Um pouco mais à frente encontramos uma bifurcação. Para simplificação, chamarei “Estrada de Baixo” à que segue pela direita. Esta é a estrada que nos leva às praias e que depois de uma descida pronunciada segue sempre junto ao mar. À outra estrada, a que segue em frente, chamarei “Estrada de Cima” (para o caso é a N379-1, desde Aldeia de Irmãos até à Fábrica de Cimento do Outão).

Virei à direita, pela Estrada de Baixo. Descida pronunciada e no final, novamente à direita para o acesso ao primeiro ponto de paragem, visita obrigatória, a espectacular praia do Portinho da Arrábida.

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Portinho da Arrábida

Uma pequena enseada com um areal diminuto que progressivamente vai crescendo para leste até chegar à Praia do Creiro, em frente à grande referência paisagística: a Pedra da Anicha. Um pequeno rochedo que sobressai do mar a cerca de 100m da praia e que é reserva ecológica integrada no Parque Natural da Serra da Arrábida.

A meio da estreita estrada que conduz à praia e à meia dúzia de vivendas e aos 2 restaurantes que ficam praticamente em cima do mar, encontra-se o Forte de Santa Maria da Arrábida onde está localizado o Museu Oceanográfico. A destacar ainda a Estação Arqueológica do Creiro. Referir ainda que o acesso à praia é altamente condicionado: quer por semaforização alternada, quer ainda, na época estival por restrições mesmo de acesso. E o estacionamento? algo simplesmente….residual. Vantagem clara das motos!!!!

Regresso pelo mesmo caminho até encontrar novamente o cruzamento da Estrada de Baixo. Viro à direita, em direcção às outras praias. Sucedem-se o Creiro (cujo acesso pode ser pelo areal a partir do Portinho, ou por um caminho que desce até à praia). De referir que todas as praias por onde passamos se situam num plano inferior à estrada (que vai perdendo cota progressivamente) até se chegar à Figueirinha que essa sim está ao nível da estrada e já tem algumas infraestruturas mais adequadas a uma (muito pequena) estância balnear.

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A costa vista de Galápos. Destaca-se na esteira do Sol, a Pedra da Anicha

Depois do Creiro, passámos sucessivamente pela Praia dos Coelhos, por Galapinhos (recentemente coroada como uma das mais belas praias do mundo), por Galápos (alguém ainda se lembra do saudoso Seagull?…) e finalmente a Figueirinha.

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Galápos
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Praias. Portinho ao fundo
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Costa da Arrábida vista das proximidades da Figueirinha
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Praia da Figueirinha

Se o azul forte tingia o mar até aqui, junto às rochas que o bordejam encontramos outras cores e tonalidades que muito contribuem para a beleza deslumbrante de toda esta costa.

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Policromia marítima

E quando falamos de beleza, temos também que mencionar a sua antítese: a Fábrica de Cimento que tanto desfeia todo este enquadramento. Mas ainda antes de lá chegarmos, passamos por uma edificação que quase passa despercebida não fora ter um pequeno farol: o Forte de Santiago do Outão. Tendo origem no Séc. XIV, nele fica hoje o Hospital Ortopédico do Outão, depois de no início do Séc.XX ter tido a valência de Sanatório. Dele falaremos adiante quando mencionarmos o Forte Velho do Outão.

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Vista parcial do Hospital do Outão. Ao fundo: Tróia
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Forte de Santiago do Outão (Hospital Ortopédico)

Passado o Forte e ultrapassada a Fábrica de Cimento, cerca de 1km à frente, numa curva à esquerda, começamos a vislumbrar entre o arvoredo que envolve a estrada, um edifício imponente, mesmo à beira-mar… que aqui ainda é rio.

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Palácio da Comenda

Imponente pela sua volumetria, pela sua arquitectura e pela sua localização, com uma pequena enseada privativa e rodeado de frondosa mata (que vista mais em detalhe denuncia o abandono a que está votada…). Para lá chegarmos, ainda uma volta de estrada, passamos pelo parque de Merendas da Comenda e depois …o portão de acesso à Comenda de Monguelas!

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Comenda – Vista aérea

A Comenda é uma propriedade situada na encosta sul da serra, sendo as suas origens anteriores a 1800. Foi a mesma, incluíndo o luxuoso palacete e praia privada, vendida por D. Maria – Rainha de Portugal, em hasta pública, pelos idos de 1848. Fica a cerca de 2 km de Setúbal, banhada pelo estuário do Sado, com uma praia privada e de olhos postos em Tróia. Maravilhoso!

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Palácio da Comenda
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Palácio da Comenda. Vista para o mar

Conta a história que a construção neste local começou no período romano, com um complexo industrial de salga de peixe, passou por uma torre de vigia medieval, que, no século XVII, dá origem à plataforma de S. João da Ajuda, um baluarte situado estratégicamente à entrada do estuário do Sado.

E é sobre esta plataforma abaluartada que, no século XIX, é construída uma primeira casa de habitação. E era a que existia no local quando Ernest Armand, ministro de França em Lisboa, compra a propriedade, no dia 9 de Março de 1872, por cinco contos de reis. Mais de 20 anos após a aquisição da propriedade, o Conde d’Armand doou-a ao seu únco filho varão, Abel Henri Georges Armand. Com 5 filhos e querendo usufruir na plenitude da localização magnífica, o já conde por morte de seu pai, decide-se pela reconstrução da casa e adapta-a à sua condição aristocrática e às necessidades impostas pelo seu relacionamento com as melhores famílias europeias.

E para tal, chamou um jovem arquitecto português que posteriormente faria carreira prestigiada: Raúl Lino. Fundador e Presidente da Academia de Belas Artes, projectou entre mais de 700 obras, a Casa dos Patudos em Alpiarça, o Cinema Tivoli em Lisboa, o Cine-Teatro Curvo Semedo em Montemor-o-Novo ou os Paços do Concelho de Setúbal.

O aristocrata francês fez uma curiosa exigência ao então jovem arquitecto Raul Lino, quando lhe atribuiu o trabalho: que antes de iniciar o projecto gozasse de uma noite de luar no sítio onde planeava implantar a casa, como forma de melhor apreender o espírito do local para conceber um projecto em harmonia com a luxuriante paisagem. E assim foi! O projecto data de 1903 e a obra foi concluída em 1908.

Depois da morte do pai, e após os tempos difíceis da I Guerra Mundial, a casa passa para o novo conde, Roger Ernest Armand.

Nos anos 80, a quinta foi adquirida por um empresário do sector imobiliário, António Xavier de Lima que lhe terá feito algumas alterações que desvirtuaram a herança arquitectónica de Raul Lino, até aí inalterada. Após a morte deste, ficou ao abandono, exposta à degradação e ao vandalismo. Hoje, para a “visitarmos” temos que utilizar o expediente pouco legal de “pular o muro”.

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Palácio da Comenda
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Palácio da Comenda

Mas o Palácio da Comenda tem outras histórias para contar.

A Casa da Comenda foi cenário de verões repletos de glamour. Fosse na presença da própria família Armand e do círculo da melhor aristocracia europeia e portuguesa, fosse como estância de veraneio de outras famílias a quem cediam a casa, fosse a personalidades mais mediáticas, como a princesa Lee Radziwill, irmã da viúva do presidente norte-americano J. F. Kennedy, e do seu inseparável amigo Truman Capote, que no verão de 1965 ali terão passado uma temporada

Mas, ainda antes, terá sido uma mulher frágil e de luto que chegou ao Palácio da Comenda, na Serra da Arrábida, em Setúbal, logo após o assassinato do marido, John F. Kennedy, em Dallas 22 de Novembro de 1963.  Jacqueline Kennedy veio para Portugal com os dois filhos pequenos, Caroline e John-John, a convite dos condes D’Armand. Não há registos que assim tenha sido, de facto. Mas esse terá sido também o objectivo do isolamento pretendido…

Em 3 de Agosto de 1975, nova tragédia aparece associada ao palácio da Comenda. Nesse dia, um duplo assassinato ocorre na mansão: Madalena e seu cunhado Miguel aparecem assassinados a tiro, num dos quartos do 1º andar, aparentemente durante um encontro amoroso. No andar térreo, ao fundo da escadaria, Julieta, irmã mais velha de Madalena e mulher de Miguel jaz tombada com uma pistola na sua mão. A queda deixa-a longas semanas em coma e quando retoma o conhecimento, está cega e sem memória do que terá acontecido. Todos eram membros de uma família de posses, o que no Verão Quente de 1975 em Portugal não tornou a situação menos complicada. Justiça (politicamente) apressada condenou Julieta à prisão, acusada de ter morto o marido adúltero e a sua irmã. Afinal todas as evidências apontavam para ela, mas…

Assim começa a história que 28 anos mais tarde acaba por ser desvendada! Obviamente que nada disto ocorreu na realidade. Trata-se de um romance do escritor Domingos Amaral, editado em 2012, no qual o Palácio da Comenda serviu de cenário inspirador da maior parte da trama. Quer à época dos “factos”, o Verão Quente – precisamente o título da obra – de 1975, quer no posterior desenvolvimento do mistério, 28 anos mais tarde.

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Ainda hoje é possível aceder ao caminho que leva ao ancoradouro.

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Palácio da Comenda. Ancoradouro e praia privativa

Mas já não o é ao primeiro andar dos quartos, pois a escadaria onde Julieta tombou está completamente em ruínas. Assim como parte do tecto, quase todas as janelas e portas também. De facto a ruína apodera-se lamentavelmente deste edifício que hoje está completamente vandalizado.

Uma curiosidade: se por aí andar algum premiado com um jackpot do euromilhões, a Comenda de Monguelas está à venda por 50 milhões de euros (admito que uma boa negociação permita economizar uns trocos…). A localização é fabulosa, a paisagem não tem preço e a recuperação … enfim, é capaz de exigir algum investimento!

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Palácio da Comenda. Exterior

Daqui, voltámos pela mesma estrada, à zona da Fábrica onde viramos à direita, para a N10-4, vulgarmente conhecida por Estrada da Rasca (porque passa na aldeia com este nome). Pouco mais à frente, viragem à esquerda, e retomamos a nossa N397-1, a Estrada de Cima, desta feita em sentido contrário. Se primeiro percorremos a estrada que bordeja o mar, desta feita iríamos pela estrada que sobe a serra e corre pelo seu cume.

A próxima paragem não demora. Subida íngreme, em regime de curva e contra-curva, o mar à esquerda e, à medida que subimos, vislumbramos toda a magnificência do estuário do Sado: Tróia à direita, Setúbal à esquerda, ao fundo a zona industrial da Mitrena e no meio, um pequeno mar interior onde com frequência são visíveis as brincadeiras da comunidade de roazes que por aí vão andando.

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Estuário do Sado

Numa curva apertada à direita, temos à nossa frente a Porta de Armas da 7ª Bataria de Artilharia de Costa. Os portões abertos e o estado de abandono indiciam aquilo que iríamos encontrar uma fortificação ao abandono bem como os postos de tiro ainda com o que resta das respectivas peças de artilharia. Apesar do abandono, quer o forte quer a instalação de artilharia permite-nos ter uma boa ideia de como eram, quando em actividade. Entrámos!

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7ª Bataria – Porta de Armas

O forte, chamado de Forte (velho) do Outão fica no cimo de um promontório que tem aos seus pés, à beira mar, o já referido Forte de Santiago (Hospital Ortopédico do Outão) bem como uma das mais bonitas vistas da Serra da Arrábida.  A  construção do Forte Velho do Outão (também desigando por Forte do Zambujal, Forte do Facho ou Atalaião da Serra da Arrábida) ter-se-á iniciado cerca de 1649, quando João de Saldanha de Oliveira recebe a incumbência de construir um atalaião no alto da serra para colocação de peças de artilharia. Terá ficado concluído em 1655, quando uma carta do Rei D.João IV ordena ao Governador de Setúbal que entregasse o comando do Atalaião ao capitão Agostinho Cardos com uma guranição de 6 soldados. Esta fortificação complementava a posição bélica e defensiva do Forte de Santiago.

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Forte Velho do Outão
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Forte Velho do Outão – Ameias e vista para Tróia
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Forte Velho do Outão. Vista para Setúbal
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Forte Velho do Outão

O forte está, devido ao abandono, em estado adiantado de degradação, muito ajudado pela vandalização que ao longo do tempo tem sofrido – com os omnipresentes grafittis. Resiste apenas pela solidez da construção.

 

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Forte Velho do Outão. Escadaria interna

Um pouco mais à frente, acedemos à zona onde estão 3 peças de artilharia de médio alcance (10 a 20km) Vickers de 152mm. Eram elas que, quando em actividade, faziam a defesa da entrada da barra do Sado.

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Peças de artilharia

Funcionavam de forma coordenada, no âmbito do Regimento de Artilharia de Costa, com outras peças que asseguravam a defesa de Lisboa e Península de Setúbal, segundo o plano luso-britânico definido pelo general inglês Barron no pós 2ª guerra mundial. O objectivo era criar uma força especializada em impedir o desembarque de uma força convencional apoiadas por unidades navais naquela região. O plano foi desenhado em 1939, a construção desta 7ª Bataria decorreu entre 1944 e 1954 e cessou a actividade (pela obsolescência deste tipo de defesa) em 1998. O RAC foi extinto em 2001.

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Canhão Vickers 152mm

Esta 7ª Bataria funcionava em ligação com a 6ª sediada na Raposa próximo da Fonte da Telha e com a 8ª em Albarquel (Setúbal). Todas faziam parte do Grupo Sul do RAC que também incluía a 5ª Bataria da Raposeira (Caparica). Para lá das peças de artilharia é possível apreciar o esquema montado à volta (e por baixo) delas, maioritariamente subterrâneo, com casamatas para os militares, paióis para as munições e os sistemas de elevação destas para alimentarem as necessidades de tiro.

Das varandas e janelas do Forte, para lá da magnifica vista, vislumbramos também em pormenor o Forte de Santiago. Este é o resultado de sucessivas construções feitas naquele local estratégico da barra de Setúbal, a primeira das quais, uma torre de vigilância mandada edificar por D. João I em 1390.

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Forte Velho do Outão – Vista panorâmica

Ao longo do tempo foi sendo beneficiada e ampliada (um pouco também à medida do crescimento da importância marítima de Portugal e do porto de Setúbal em particular. As principais que resultaram numa ampliação significativa ocorreram no reinado de D. Sebastião. Mais tarde, durante a dinastia filipina, a Casa do Corpo Santo (importante instituição de Setúbal) solicitou ao rei a instalação neste forte de uma torre de farol para auxílio à navegação que ficou concluida em 1625 e tendo essa construção sido custeada por aquela instituição.

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Foz do Sado. Forte de Santiago em primeiro plano. Península de Tróia, ao fundo

Depois da Restauração da Independência, voltou o forte a receber importantes obras de modernização e reforço, cuja conclusão ocorreu em 1657. O forte manteve a valência bélica até ao Séc. XIX, quando foi desactivado. Foi depois, durante algum tempo utilizado como prisão. Em 1890 recebeu obras de adaptação e passou a ser utilizado até ao início do Séc. XX como residência de veraneio do Rei D. Carlos.

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Forte de Santiago (visto do Forte Velho)

Entretanto, a sua localização foi reconhecida como sendo valiosa no tratamento de doenças do foro pneumológico pelo que até 1908 foi utilizado como Sanatório. A partir dessa data, passou a ser um Hospital Ortopédico, função que ainda hoje conserva.

Concluida a visita à 7ª Bataria, o dia ia já muito avançado e era importante alcançar o ultimo ponto de destaque do périplo antes de anoitecer. Assim, seguimos em direcção ao alto da Serra, sempre com uma paisagem extraordinária a desfilar na frente dos nossos olhos, ainda mais realçada pela luz de final de dia. Passámos a zona das antenas, diversos miradouros e pontos de paragem que se sucedem à beira da estrada, tantos são os locais com vistas de deixar qualquer um de queixo caido.

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Panorâmica da encosta sul da Arrábida
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A caminho do cume
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Pedra da Anicha
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Panorâmica do Portinho da Arrábida

Ultrapassado o cume da Serra (no que à estrada diz respeito), iniciámos a descida. Um pouco à frente, quando já vislumbramos a vista para o Portinho da Arrábida e antes de passarmos pelo Convento (já falaremos dele), temos uma pequena reentrância do lado esquerdo, servindo de referência o facto de lá estar construida uma rampa para os praticantes de parapente que depois de sobrevoarem toda esta magnífica encosta, vão aterrar no areal do Portinho.

Foi precisamente neste ponto, à entrada da curva à direita logo a seguir ao miradouro, que em 1968, o agente secreto de Sua Majestade com licença para matar – Bond, James Bond (George Lazenby, no seu único filme da saga) – parou o seu inevitável Aston Martin. Estava acompanhado da sua noiva, Teresa (Tracy) di Vicenzo (Diana Rigg). Tinham acabado de celebrar o seu casamento na Herdade do Zambujal (Palmela) e este era o início da lua-de-mel. A paragem serviu também para o noivo retirar do Aston as flores que o ornamentavam desde a cerimónia do casamento. Mas 007 nunca está descansado! Um grande Mercedes 600, conduzido pelo vilão Ernst Stavro Blofeld (Telly Savallas) aproxima-se e ultrapassa-os. No banco de trás, à janela, Irma Blunt (Ilse Steppat), a diabólica ajudante de Blofeld dispara uma rajada de  metralhadora. Quando James Bond entra no carro verifica que Tracy estava morta…

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Cena do filme 007 – Ao Serviço de Sua Majestade
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O mesmo local…50 anos depois

Este é o relato dos 3 minutos finais de um filme que este ano comemora o seu cinquentenário e foi por muitos considerado o pior da saga sendo bastante menosprezado pela crítica de então. O filme é “007 – Ao Serviço de Sua Majestade” e estreou em Londres no final de 1969. De facto, a transição de intérprete principal não foi pacífica e isso penalizou Georges Lazenby, com um registo bastante diferente do carismático Sean Connery que tinha protagonizado os anteriores 5 filmes de James Bond. Mas para nós, será certamente um dos principais, pois nele podemos ver a Serra de Sintra e o Guincho, o Casino Estoril e a Baixa Lisboeta, para lá da Arrábida, obviamente!

Lá ao fundo vislumbra-se, numa curva da estrada, uma das guaritas de veneração dos mistérios da Paixão que fazem parte do chamado Convento Velho, uma das componentes do Convento da Arrábida. Este, construído no século XVI, abrange, ao longo dos seus 25 hectares, o Convento Velho, situado na parte mais elevada da serra, o Convento Novo, localizado a meia encosta, o Jardim e o Santuário do Bom Jesus.

Dessa guarita, temos uma visão excelente para o Convento Novo bem como mais uma lindíssima panorâmica de toda a Costa da Arrábida. Para acabar em beleza…

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Convento da Arrábida
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Guarita de veneração
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Arrábida – panorâmica

Estava concluído o passeio. Agora era tempo de regresso!

E a promessa inicial estava cumprida: falámos de uma viúva de um presidente americano, de um espião inglês , de trágicos amores e desamores literários, de um “Processo Revolucionário em Curso”, de palácios e fortes abandonados, de praias maravilhosas e de umas estradas que são uma delícia para fazer de mota!

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Pôr do Sol – a caminho de Azeitão

Tudo isto, numa Viagem ao Virar da Esquina…pela Arrábida!

Da Lagoa de Albufeira à Comenda de Monguelas – mapa do passeio:

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Da Lagoa de Albufeira à Comenda de Monguelas (1)

Ainda agora o ano começou. Nada como dar-lhe as Boas Vindas!

Manhã cedo, o sol radioso convidava a um passeio. Brilhava intensamente num céu tão limpo a fazer lembrar dias de outras estações. Mas a temperatura não mentia: é Inverno…e está frio! Nada que atemorize o motociclista, até porque frio é questão apenas de agasalho.

Por outro lado, o sol de Inverno (isto faz lembrar memórias do Festival da Eurovisão…era o nome da canção que Simone de Oliveira interpretou em 1965, naquela que era a segunda participação portuguesa no certame e que trouxe o primeiro – e único na altura – ponto do concurso obtido por Portugal!) é fantástico para a fotografia. O astro está mais baixo e a inclinação dos raios solares traz cambiantes de cor que não se conseguem obter noutras estações do ano.

Dito isto, moto em marcha, equipamento quentinho e “pé na estrada”, que nesta altura o dia acaba cedo.

1ª parte – Da Lagoa a Sesimbra

A saída de Lisboa fez-se pela Ponte 25 de Abril. Já não era cedo e as últimas neblinas matinais começavam a desaparecer. Excelente…até porque passar a ponte de moto é sempre espectacular. Depois, A2 até ao Fogueteiro, N378 (Estrada de Sesimbra) até à Rotunda da NATO e depois à direita para a N377 rumo ao ponto inicial do périplo: Lagoa de Albufeira. Depois de passarmos pela Herdade da Apostiça, cruzamento à direita e uma longa avenida até à margem da Lagoa.

Vista da Lagoa de Albufeira. Ao fundo, o mar. No meio da lagoa, os viveiros de mexilhões.

A Lagoa é alimentada pela água doce das ribeiras da Apostiça, Ferraria e Aiana, e pela água salgada do oceano Atlântico, quando o cordão dunar é aberto oficialmente na primavera. É constituida por três lagoas: a Grande, a Pequena e a da Estacada. Com 15 metros de profundidade máxima, a Lagoa de Albufeira é considerada a mais funda de Portugal. Desde 1987 que faz parte da Reserva Ecológica Nacional e em plataformas no meio da lagoa são visíveis bastantes viveiros de mexilhão. O vento bastante frequente torna este local belíssimo, excelente para a prática de desportos como sejam o windsurf, kitesurf, etc.

Lagoa de Albufeira
Lá ao fundo…Espichel

Regressamos à N377 até à aldeia de Alfarim, onde viramos logo na primeira rotunda à direita. As placas indicando “Praias” não enganam. É mesmo por aí. Descemos alguns, poucos, quilómetros e estamos na conhecida Praia do Meco.

Chegada à Praia do Meco

Inicialmente conhecida pela prática do naturismo, mais tarde pela realização de concertos de Verão, mas acima de tudo pela excelência da sua praia. Apesar de já dotada de alguma infraestrutura, adivinha-se caótica nas épocas balneares pois o afluxo supera em muito a capacidade de estacionamento (como aliás sucede na Lagoa de Albufeira).

Já referi que a manhã estava espectacular? Não só o brilho do sol como também o magnífico azul do mar, que estava surpreendentemente calmo.

Regressando pelo mesmo caminho, o único de acesso à praia, pouco acima, um cruzamento: à esquerda leva-nos novamente a Alfarim, seguindo à direita acompanhando as indicações de “Praias”, a estrada que levámos.

Esta estrada, inicialmente de alcatrão com crateras, depois de crateras com alcatrão e finalmente, em terra batida (para o caso em estado muito razoável, permitindo a motas de estrada percorrê-la sem grandes preocupações, a não ser os cuidados necessários à pouca aderência).

Por aí seguimos até à Praia das Bicas.

Praia das Bicas

Praia rodeada por dunas altas, com uma escadaria bem lançada até ao areal e frequentada por uma boa dúzia de surfistas. O mar estava de feição, com algumas ondas a favorecer a prática. Nem imagino a temperatura da água….

Praia das Bicas

Mas o destaque vai para a sua beleza. Sem dúvida uma pérola…ao virar da esquina. Destacar o facto de nela existir uma Aldeia SOS. Excelente para os miúdos, sem dúvida.

Praia das Bicas: areal que se estende até à Caparica e lá ao fundo, o recorte da Serra de Sintra.

Proseguindo o caminho pelo estradão , rumo a sul e ao Cabo Espichel, mais uns poucos quilómetros e é a vez da Praia da Foz.

Praia da Foz

Pequena, entre arribas e até algo intimidante, seja pela imponência da arriba, seja pelo facto de ser algo “acanhada”.

Praia da Foz

A partir daqui…seguir o estradão. Ainda faltava meia dúzia de quilómetros para o Cabo Espichel. A cerca de 2 km do cabo, deixamos o estradão e tomamos a N379 que une Sesimbra à ponta mais a sudoeste da Península de Setúbal. De salientar que ao longo do percurso desde o Meco até aqui, algumas praias existem para lá das referidas. Mas aqui aconselhava-se talvez a utilização de moto com características mais trail.

A caminho do Cabo Espichel

Quase à chegada passamos pelo Aqueduto do Cabo e à nossa frente vislumbramos 2 edifícios de características completamente diversas: à esquerda o imponente farol e à direita o não menos impressionante Santuário de Nossa Senhora da Pedra Mua, com a igreja da Nª. Srª. do Cabo.

Lá ao fundo, ao centro o Farol e à direita o Santuário

Fomos primeiro até ao Farol. Imponente a vista e impressionantes as arribas do Cabo. Lá muito embaixo, o mar bastante calmo…mas de meter respeito! Olhando a norte, toda a costa marítima até às praias da Caparica e em segundo plano, a margem norte do Tejo e a Serra de Sintra.

As arribas do cabo Espichel

“Já em 1430 a irmandade de N.S.ª do Cabo tinha instalado um farolim predecessor do actual farol. A torre actual foi inaugurada em 1790, em 1865 era alimentado por azeite, mudando de combustível em 1886, quando a sua luz passou a ser alimentada por incandescência de vapor de petróleo e, muito mais tarde em 1926 por electricidade.

Em 1983 este farol tinha instalado um aparelho iluminante chamado de primeira ordem que emitia luz em grupos de quatro clarões brancos, em vez do antigo sistema de luz fixa. Com este novo sistema passou a ter um alcance luminoso de vinte e oito milhas náuticas (quarenta e cinco quilómetros).

A estrutura de apoio ao farol foi aumentada para os lados por volta de 1900. Em 1947 entrou numa nova era no que diz respeito à iluminação. Foi montado um aparelho óptico aeromarítimo, que já tinha estado ao serviço do Farol do Cabo da Roca. Esta nova óptica dióptica – catadióptica chamada de quarta ordem, um modelo de grandes dimensões, apresenta trinta centímetros de distância focal, produzindo lampejos simples, agora com um alcance luminoso de quarenta e duas milhas náuticas (cerca de sessenta e sete quilómetros)”

in Wikipédia

Farol do cabo Espichel

Depois, um passeio pelo Santuário. Linda toda a zona fronteira à Igreja, com a edificação do Santuário de um e de outro lado. Pena o seu não aproveitamento, mas pelo menos já não ao abandono como há alguns anos atrás. É um dos casos em que as imagens são mais eloquentes que as palavras.

Santuário
Igreja de Nª. Srª. do Cabo

No início da escrita deste Blogue, afirmei que o meu sonho é ir ao Cabo Norte, mas que para já, ficava pelo Espichel. O possível faz-se já…e guardamos o impossível para amanhã. Aí está a imagem que ilustra este desejo:

E eram horas de nos encaminharmos para o final desta primeira etapa do dia: Sesimbra.

Regressámos pela N379. No Zambujal, uma rua à direita de inclinação pronunciada – 20% – conduz-nos à Rua da Assenta. Nesta viramos à esquerda e começamos a subir rumo ao Castelo de Sesimbra (se tivéssemos virado à direita, iríamos até à Praia da Ribeira do Cavalo).

Pequena pausa nos 20% de inclinação…

O Castelo, em excelente estado de conservação, ergue-se em posição dominante no cimo de uma falésia, tendo a seus pés a vila de Sesimbra e a sua baía. Dentro do perímetro da muralha, encontra-se a Alcáçova de planta quandrangular dominada por duas torres, uma das quais a Menagem (e que no seu interior tem uma pequena exposição com o historial do castelo e da vila que domina).

Desde tempos imemoriais, foi esta zona ocupada, principalmente derivada da sua localização estratégica, na foz do rio Sado, abrigada pela baía e protegida pela serras onde se situa o monte ocupado pelo Castelo. A primitiva fortificação data da época de domínio muçulmano, tendo a praça de Sesimbra sido conquistada por D. Afonso Henriques, 18 anos depois da tomada de Lisboa, em 1165.

Vista de Sesimbra
Muralha do Castelo de Sesimbra
O castelo e a vila

Ainda no interior das muralhas está a capela de Nª. Srª. do Castelo, muito bem conservada e com interessantes painéis de azulejos.

Capela de Nª. Srª. do Castelo
Interior da Capela

Obviamente, a vista das muralhas, principalmente para a baía de Sesimbra é deslumbrante!

Sesimbra vista lá do alto!

Estava concluída a primeira parte do passeio. Agora era tempo de rumar à Arrábida, onde paisagens deslumbrantes e algumas histórias curiosas nos aguardavam…

Balanço de 2018

O final do ano é, por tradição, a altura de fazer balanços.

Assim como o dia de Ano Novo é o momento de dar a partida para mais uma jornada de 365 dias…e começar a concretizar planos. Já lá vamos!

2018 foi o início de uma nova vida. A disponibilidade de tempo foi o catalizador de um sonho antigo: viajar de moto!

Por isso, não houve muito tempo de espera – e ainda nem sequer estava nos planos fazer algo parecido com um blogue – e logo em Janeiro, um passeio por Arruda dos Vinhos e Sobral de Monte Agraço.

Mais tarde, em Fevereiro com os companheiros que me iriam acompanhar na maioria dos passeios, reunimos para um cafézinho matinal em Arruda dos Vinhos. Foi o arranque do projecto EN2.

Março foi um mês calmo. Algumas voltas pelos arredores lisboetas mas sem significado particular. O planeamento da EN2 ocupava as mentes…

Abril: Estrada Nacional 2 de 21 a 25! O projecto do ano e aquele que mais nos marcou. (ler aqui) (e aqui)

A ressaca da epopeia não durou muito. Em Maio, dia de aniversário ideal para uma volta pelas praias da zona de Sintra, com destaque para as Azenhas do Mar, uma passagem pelo Cabo da Roca (pejado de turistas chineses com atracção pelo abismo…) e umas curvas na Lagoa Azul para abrir o apetite para o almoço. (ler aqui)

Poucos dias depois, a BMW Riding Experience, no Autódromo do Estoril, proporcionou mais uns excelentes momentos de convivío e a oportunidade de experimentar mais uns modelos da marca alemã.

Ainda em Maio, e antes que o mês terminasse, mais uma volta pelas praias do Oeste. Com passagem em Arruda, Sobral, Torres Vedras. Depois Ericeira e por aí abaixo.

Em Junho, o destaque para a minha volta favorita: Arrábida!

Ainda em Junho, oportunidade para realizar uma experiência inédita: um teste comparativo entre a acabadinha de chegar PCX e a sua principal rival, a Yamaha N-Max. O mundo das scooters também por aqui passou. (ler aqui)

Julho, mês importante!

O grupo dos passeios alargou-se e as começaram a ter um carácter mais regular. Começou também a germinar a ideia de partilhar estes passeios … o blogue vinha lá ao fundo…

A volta percorreu as estradas da Serra de Montejunto, com visita ao topo da Serra e à Real Fábrica de Gelo. Depois um almoço no Bombarral e regresso pela N8 e um troço bem revirado no Gradil. (ler aqui)

Depois de visitado o Montejunto, em Agosto subimos um pouco mais para norte. O destino: Serra dos Candeeiros. Viagem interessantíssima, com mais companheiros e o privilégio de um guia conhecedor da zona. Salinas de Rio Maior, Porto de Mós, Fórnea, Polje de Minde e as características geológicas desta serra forneceram o conteúdo para uma belíssima jornada. (ler aqui)

E chegávamos a Setembro! Na primeira quinzena, o arranque (tímido) deste blogue!

Com uma filosofia dominante: privilegiar os passeios que podemos dar ao pé de casa, num dia ou dois, sem complicações de logística nem embaraços financeiros… Ao fim ao cabo, como o nome indica, basta virar a esquina! Mas não descurando projectos e realizações mais ambiciosas, obviamente!

Para começo, a recordação de um passeio fabuloso, pelas peripécias mas, acima de tudo, pelo conteúdo: percorremos de enfiada as 15 travessias do percurso do Rio Tejo em território nacional (13 pontes e 2 barragens). Inesquecível! (ler aqui)

Ainda em Setembro, mais uma X’Periência muito interessante: um curso de condução defensiva promovido pela Honda na EPH – Escola de Pilotagem Honda. (ler aqui)

O mês terminou com uma visita ao Setúbal Custom Weekend seguido de mais uma volta pelas estradas da Arrábida. Desfrutar de curvas numa paisagem espectacular é imperdível.

Chegava Outubro e logo no início, o 2º projecto do ano: Serra da Estrela!

De caminho, a oportunidade para percorrer a EN118, do Montijo a Alpalhão. Estrada que atravessa o País transversalmente, cruza a EN2 no Rossio ao Sul do Tejo e antigamente muito relevante para quem se deslocava para o Alto Alentejo ou Beira Baixa, bem como para a economia local. Destaque para a lezíria do Tejo, Tramagal e Abrantes, ou a beleza do Castelo de Almourol ou da Praia do Alamal. (ler aqui)

Logo de seguida, dois dias de sobe e desce serrano. Montanha à portuguesa na mais alta serra do Continente. A subida à Torre, a descida pelo Vale Glaciar para Manteigas, as Penhas da Saúde ou as Penhas Douradas e o Valo do Rossim, o Covão d’Ametade ou o Adamastor foram um deleite de condução e para os olhos. Sem esquecer já no regresso, em Ródão, o castelo amaldiçoado do rei Vamba! (ler aqui)

Mas o inesquecível pôr do sol na Torre foi o ponto alto (pela beleza e não pela altitude)!

E o mês de Outubro não acabou sem uma surpresa bem agradável. A Go Moto Travel publicou nas suas páginas (digitais) a descrição do nosso passeio pela Serra de Montejunto! (ler aqui)

Novembro não foi um mês simpático para as voltas de moto. Ainda assim, numa manhã algo húmida e com uns pingos de chuva, oportunidade para voltar a Sintra e à zona do Guincho.

Já no final do mês, a realização de um sonho: conduzir uma Honda Goldwing….e sonhar com voos longínquos! (ler aqui)

Chega Dezembro! E nada como acabar o ano em beleza.

Olivença foi o destino! Pelo caminho desfrutar da beleza das fortificações de Evoramonte e Juromenha. Um passeio pela História de Portugal. e a oportunidade de testemunhar a herança portuguesa na “nossa” Olivença. (ler aqui)

O ano de viagens terminava em beleza!

Mas antes de fazer o balanço, aproveitar para uma brincadeira feita oferta: o Calendário 2019 do Viagens ao Virar da Esquina! (aqui)

E para garantir que o novo ano começa de “cara lavada” nada como refazer todo o Blogue. Novo visual, nova organização, mais conteúdos, melhor navegabilidade!

FELIZ ANO NOVO!

Que venha 2019 e com ele muitos projectos concretizados, muitos passeios estrada fora e muita saúde que o permita.

E muitas VIAGENS AO VIRAR DA ESQUINA…pois claro!

Calendário 2019

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É sempre agradável recordar as viagens passadas.

Trazem-nos boas memórias e, principalmente, dão-nos a motivação para as que se avizinham.

Se há algo essencial é escolher, o quando e onde iremos.

Organizar e prioritizar.

E é fundamental olhar para o calendário!

Aqui está ele:

o Calendário 2019 do Viagens ao Virar da Esquina (VVE Calendário 2019)

os links da 2ª página dão acesso às histórias de 2018

 

Em demanda das terras usurpadas!

Olivença é Nossa, dizem…

Desta vez a nossa aventura é um passeio pela História de Portugal. E quando falamos da nossa História, uma manhã de nevoeiro vem a calhar. Aliás, não podia faltar!

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Era assim que se nos deparava a passagem para a outra margem.

Feito o agrupamento dos briosos cavaleiros que se preparavam para, de caminho, reconquistarem Olivença (ou no mínimo, se banquetearem com um lauto almoço em terras portuguesas de Castela), a primeira paragem foi no Couço. Aqui se nos juntou o 7º cavaleiro e tivemos também o prazer da companhia de amigo e companheiro aqui residente que nos acolheu, acompanhou no cafézinho matinal – alguns referiram que as empadas estavam deliciosas – e depois de alguns quilómetros, demandou outras paragens mais a norte.

Entretanto, o nevoeiro cerrado mantinha-se. Nalguns momentos juraria mesmo ter visto o vulto de D. Sebastião. Afinal…era só a viseira do capacete embaciada! Falso alarme…

Prosseguimos por Mora e só alguns quilómetros após, o nevoeiro nos libertou da sua incómoda (húmida e fria) presença. Pudemos então começar a desfrutar da magnífica paisagem do Alto Alentejo, ainda coberta por um manto de geada mas com um céu limpo e um sol radioso. Antevia-se um dia excelente que se confirmou. De tal forma, que resolvemos celebrar com uma paragem no Vimieiro para uma foto.

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Prosseguimos para aquela que era a primeira paragem histórica da viagem: Evoramonte.

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Pequena vila situada na encosta de um monte com uma vista magnífica para a extensa planície alentejana a quase toda a volta excepto para a Serra d’Ossa, a nordeste. Essa mesma vista que motivou certamente a construção da original fortaleza pois, no antigamente, dificilmente um qualquer exército invasor conseguiria passar despercebido a muitas dezenas de quilómetros.

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Sendo um bastião bélico, é todavia célebre pois foi aqui que se celebrou, em 26 de Maio de 1834, a Convenção de Evoramonte que pôs fim à fratricida guerra civil (há quem diga que estas são as piores das guerras) entre Absolutistas partidários do Rei D. Miguel e os Liberais liderados pelo Regente D. Pedro IV em representação de sua filha D. Maria II.

Continuámos viagem em direcção à segunda paragem histórica da jornada. No caminho, passámos ainda pelo Redondo e Alandroal. Sem visita mas ainda com a oportunidade de registar a curiosidade de nesta última vila, a torre sineira da igreja ter sido construida por cima da torre de menagem do castelo:

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Atravessámos transversalmente todo o Alentejo e estávamos agora junto às margens do Guadiana. Mais largas do que era habitual antigamente, cortesia da albufeira do Alqueva que faz sentir o seu efeito ainda mais a jusante do ponto onde estávamos, junto à Sentinela do Guadiana: a fortaleza de Juromenha.

A imponência, a beleza da localização e amplitude das vistas rivalizam com o estado de degradação e de ruína em que se encontra. Testemunho claro da incúria de devotamos à nossa História!

No seu interior, é possível ainda perceber a dimensão do edificado com destaque para a igreja com torre sineira e interior com o tecto suportado por colunas:

O recinto apresenta diversas zonas em risco de ruína eminente (quem é responsável pela fortaleza teve o cuidado de espalhar umas fitas para impedir o acesso às zonas piores…talvez se justificasse um esforço maior…na conservação):

Recordando que do outro lado do rio, é Espanha sendo Portugal, a vista que se tem é deslumbrante:

A Fortaleza de Juromenha deixou-nos marca profunda. Pela extraordinária riqueza de tão imponente estrutura e pelo avançado estado de degradação em que se encontra.

Era tempo de partir não sem antes deitar um último olhar a Juromenha:

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Já estávamos perto do nosso objectivo: Olivença!  E a expectativa era grande. Será que afinal a presença portuguesa era assim tão forte?

Convém recordar que Olivença é, há quase 200 anos, reclamada por Portugal como fazendo parte integrante do nosso território. Recordemos um pouco da história desta vila…a mais portuguesa de Espanha, ou a mais espanhola de Portugal:

“A origem de Olivença está ligada à reconquista cristã da região fronteira a Elvas pelos Templários idos do Reino de Portugal, cerca do ano de 1230. Nesse território a Ordem criou a comenda de Oliventia, erigindo um templo a Santa Maria e levantando um castelo. No final do século, pelo Tratado de Alcanices, assinado em 1297 entre o Rei D. Dinis e Fernando IV de Castela, Olivença seria formalmente incorporada em Portugal, para sempre, juntamente com Campo Maior, Ouguela e os territórios de Riba-Côa, em escambo com Aroche e Aracena. De imediato, D. Dinis elevou a antiga povoação à categoria de vila, outorgando-lhe foral em 1298, determinou a reconstrução da fortificação templária e impulsionou o seu povoamento. Os seus sucessores reforçaram sucessivamente a posição estratégica de Olivença, concedendo privilégios e regalias aos moradores e realizando importantes obras defensivas. Em 1488 D. João II levantou a impressionante torre de menagem de 40 m de altura.

Em 1509 D. Manuel iniciou a construção de uma soberba ponte fortificada sobre o Guadiana, a Ponte da Ajuda, com 19 arcos e tabuleiro de 450 metros de extensão. Do reinado de D. Manuel, que deu foral novo em 1510, datam também outras notáveis construções como a Igreja da Madalena (por muitos considerada como o expoente, depois do Mosteiro dos Jerónimos, do manuelino), a Santa Casa da Misericórdia ou o portal das Casas Consistoriais.

Seguindo-se ao esplendor do século XVI português, dá-se a união dinástica filipina, entre 1580 e 1640. A pertença de Olivença a Portugal não é questionada. No dia 4 de Dezembro de 1640, chegada a notícia da Restauração em Lisboa, a praça aclama com júbilo D. João IV e é envolvida totalmente na guerra que se segue (1640/1668), período em que se inicia o levantamento das suas fortificações abaluartadas, cuja construção se dilataria durante a centúria seguinte. No decurso do conflito, Olivença foi ocupada em 1657 pelo Duque de San Germán e, na circunstância, a totalidade da população abandonou a vila e refugiou-se junto de Elvas, só regressando a suas casas quando foi assinada a paz (1668) e as tropas castelhanas abandonaram a praça e o concelho. O século XVIII inicia-se com um novo conflito bélico – a Guerra de Sucessão de Espanha -, em cujo transcurso foi destruída a Ponte da Ajuda (1709). A posição de Olivença tornou-se assim especialmente vulnerável pois a comunicação entre Elvas e Olivença obrigava a atravessar território espanhol.

Em 20 de Janeiro de 1801, Espanha,  concertada com a França Napoleónica, declara guerra a Portugal e, em 20 de Maio, invade o nosso território, ocupando grande parte do Alto-Alentejo, na chamada «Guerra das Laranjas». Comandadas pelo «Generalíssimo» Manuel Godoy, favorito da rainha, as tropas espanholas cercam e tomam Olivença.

Portugal, vencido às exigências de Napoleão e de Carlos IV, entregou a Espanha, «em qualidade de conquista», a «Praça de Olivença, seu território e povos desde o Guadiana», assinando em 6 de Junho o «Tratado de Badajoz». «Cedeu-se» Olivença, terra entranhadamente portuguesa que participara na formação e consolidação do Reino, no florescimento da cultura nacional, nas glórias e misérias dos Descobrimentos, na tragédia de Alcácer-Quibir, na Restauração!

Findas as Guerras Napoleónicas, reuniu-se, com a participação de Portugal e Espanha, o Congresso de Viena, concluído em 9 de Junho de 1815 com a assinatura da Acta Final pelos plenipotenciários, entre eles Metternich, Talleyrand e D. Pedro de Sousa Holstein, futuro Duque de Palmela. O Congresso retirou, formalmente, qualquer força jurídica a anteriores tratados que contradissessem a «Nova Carta Europeia». Foi o caso do «Tratado de Badajoz». E consagrou, solenemente, a ilegitimidade da retenção de Olivença por Espanha, reconhecendo os direitos de Portugal.

Espanha assinou o tratado, em 7 de Maio de 1807 e assim reconheceu os direitos de Portugal…sem efeitos até hoje.”

Fonte: http://www.memoriaportuguesa.pt/olivenca

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A herança portuguesa é mais do que evidente. Quer na omnipresente calçada portuguesa, quer na toponímia da cidade (a maioria das suas ruas tem o seu nome actual, espanhol, mas por baixo sempre a anterior designação portuguesa) quer também na possibilidade que os nascidos e baptizados em Olivença têm de obter a cidadania portuguesa (sem custos!).

E talvez seja essa mesmo, a principal característica de Olivença, deixando de lado reinvidincações territoriais. Ser uma terra com dupla nacionalidade, onde portugueses e espanhóis se sentem em casa (é verdade, sente-se!) e de onde pode emanar um espírito de sã convivência no espaço ibérico entre duas nações e dois povos que ao longo da sua História andaram de costas voltadas, quando não aos tropeções!

Duvido que os habitantes quisessem ser exclusivamente portugueses. Afinal, a gasolina até é muito mais barata, a electricidade e o gás também e o IVA anda nos 19%….  Mas não renegam a sua herança.

Pela nossa parte, afinal foi Olivença que nos conquistou!

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A partir daqui, foi o regresso (com as motos devidamente atestadas… é curioso, meter gasolina espanhola, a preços de Espanha, em Portugal!) pois a viagem ainda era longa. Aguardava-nos a última paragem: o reabastecimento em Vendas Novas! A meca das bifanas (esta frase soou a estranho…).

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Mais uma jornada concluída. 500km de paisagens, História, confraternização, amizade e espírito motard. Como deve ser…

A próxima? Quem sabe….mas uma coisa é certa. Vai estar aqui, nas Viagens ao Virar da Esquina!

Até breve.